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O descuido e a febre


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É realmente uma coisa complicada apontar quem falhou neste caso da febre aftosa que apareceu no Mato Grosso do Sul e derrubou o mercado externo de carne bovina brasileira. O governo certamente falhou em dois ou três aspectos (controle das regiões de fronteira, fiscalização nos procedimentos de vacinação e possivelmente da própria qualidade das vacinas), mas é um equívoco atribuir-lhe toda a culpa neste processo. Há um encadeamento de fatos na produção dessa tragédia: em primeiro lugar, como é que em nível local ninguém percebeu o problema (quer dizer a fiscalização municipal, a fiscalização nas barreiras estaduais, a fiscalização federal e os próprios frigoríficos), a tempo de impedir a movimentação do rebanho? Em segundo lugar, é preciso apurar se a vacina foi realmente aplicada nos animais que apareceram infectados ou se usou a vacina com validade vencida (o que é menos incomum do que se imagina). O governo tem a função de fiscalizar a qualidade e promover a distribuição da vacina, que não é dada, é vendida, mas a função de vacinar é do pecuarista.

É preciso fazer uma avaliação muito profunda em todos os elos da cadeia para localizar as falhas e usar o poder de governo e os recursos oficiais para evitar a repetição desses fatos. Alguém levantou a hipótese de que pode se tratar de um vírus novo que a vacina não combate, o que é uma possibilidade remota, mas que deve ser verificada. Muito importante é retomar a mobilização dos criadores, em tom de campanha permanente de autovigilância, pois existe clima para isso: esta semana um pecuarista nos contou que foi muito bem recebida sua exortação aos colegas, na própria região do rebanho infectado, para que deixem de fazer “vista grossa” para o descaso de vizinhos com a vacinação e para o trânsito de animais na fronteira com o Paraguai, onde os controles sanitários são precários. Que denunciem as práticas irregulares na sua vizinhança, deixando de lado o “bom mocismo” e exijam providências das autoridades.

Todo o setor deve se mobilizar para não ser novamente surpreendido. Da mesma forma, a União, os governos estaduais e municipais. Há um prejuízo monstruoso que começa no criador, arrebenta a cadeia de comercialização, fecha indústrias, dispensa trabalhadores e produz uma perda de clientes externos num negócio que trabalhamos mais de 20 anos para conquistar. Vai levar uns 30 meses para reverter a restrição externa, porque asiáticos e europeus não aceitam a idéia que a distância entre São Paulo e Mato Grosso é suficiente para impedir o contágio.

Hoje, não creio que haja um programa de maior retorno para o País que o de controle sanitário dos rebanhos: com um gasto ridículo de R$ 100 ou R$ 120 milhões anualmente, o governo pode evitar a perda de alguns bilhões de dólares nas exportações. E temos finalmente que instalar os controles adequados para vigiar as fronteiras no Centro Oeste e no Sudoeste, como o que estamos fazendo na Amazônia, que já começam a apresentar resultados importantes na coerção do contrabando e do tráfico. Nenhum país razoavelmente organizado admite viver com a porteira aberta ao contágio externo como nós consentimos.

O autor, Antonio Delfim Netto, é deputado federal pelo PP-SP e professor emérito da USP. E-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br

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