Bairros

Suposto seqüestro de bebê assusta região

Fábio Marinari
| Tempo de leitura: 2 min

Final dos anos 90, uma mãe vai até um supermercado instalado recentemente em Bauru para fazer compras e decide levar junto a sua filha de cerca de 3 anos de idade. Enquanto caminha pelos enormes corredores do estabelecimento, recolhendo das prateleiras os produtos que levaria para casa, percebe que sua filha desapareceu. Imediatamente, inicia sozinha uma busca desesperada pelos quatro cantos do supermercado, sem obter sucesso. Então, recorre ao auxílio dos funcionários. Diante da angústia da mãe, a gerência pede imediatamente para que todas as portas da loja sejam fechadas. “Ninguém entra, ninguém sai”, esta era a palavra de ordem.

A procura continua e, pouco depois, a criança é encontrada no banheiro do supermercado. Estava no colo de um estranho que havia trocado as roupas da menina e raspado o cabelo dela para dificultar sua identificação. Segundo a maioria das pessoas que contam a história, a gerência achou melhor abafar o caso - e até mesmo os veículos de comunicação da cidade teriam encoberto o ocorrido.

A intenção do raptor seria seqüestrar a menina, mas outros acreditam que elas estava sendo raptada para que os seus órgãos fossem vendidos no mercado ilegal de transplantes.

Esta lenda ficou tão popular dentro de Bauru e até na região que chamou a atenção da mestre em comunicação Tamara Brandão Guaraldo, que pesquisou o assunto e apresentou-o durante a 5.ª Conferência Brasileira de Folkcomunicação (Folkcom), realizada na cidade de Santos em 2002.

A polêmica fez Guaraldo ir a campo e investigar a fundo o assunto. Conversou com moradores do Jardim Bela Vista, Jardim Carolina, Vila Falcão e Jardim Bela Vista, bairros pertencentes às regiões norte, leste, oeste e sul do município. Entrevistou desde pessoas com pós-graduação até donas de casas, empregadas domésticas e analfabetos. “As narrativas mantinham as mesmas características básicas: a criança desaparecida, o local e a data da ocorrência, situada entre 2000 e 2001”, afirma.

Guaraldo chegou a conversar com os responsáveis pela administração do supermercado e pesquisou os arquivos do Jornal da Cidade para tentar encontrar algum elemento que pudesse comprovar a veracidade dos relatos que ouvira, mas não conseguiu nem um simples depoimento que confirmasse a história narrada pelos populares. “A lenda do nenê sensibilizou muito mais as mulheres que eram mães, por se identificarem com a narrativa. Muitas chegavam a afirmar que ela era real”, relata.

A professora sempre se interessou por “histórias que o povo conta”. Neste caso, Guaraldo concluiu que o surgimento do mito está relacionado com o protecionismo do comércio local, que teria se sentido ameaçado com a chegada de um supermercado de fora na cidade. “O fato da criança desaparecer naquele local reflete o medo do desconhecido, porque não é possível conversar com o dono do mercado, bater um papo com ele”, explica.

Segundo ela, essa lenda assustava as pessoas, ainda que de forma inconsciente, como um aviso: cuidado com locais que você não conhece.

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