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Entrevista da semana: Jovem ‘conservador’ preocupa Yuka

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 9 min

O compositor e músico Marcelo Fontes do Nascimento Viana de Santa Ana, 39 anos, o Marcelo Yuka, líder do grupo F.Ur.T.O. (Frente Urbana de Trabalhadores Organizados) está preocupado com o conservadorismo na juventude brasileira que, na avaliação dele, foi demonstrado com a manutenção da venda de armas e munição no referendo realizado no último dia 23. Em novembro de 2000, três tiros levaram Yuka à condição de paraplegia. Na época ele era mais conhecido como o responsável pelas principais letras das músicas do grupo carioca O Rappa, no qual tocava bateria.

Depois do incidente, Yuka desenvolveu-se musicalmente com outros instrumentos eletrônicos e agigantou-se, impondo uma personalidade radical, porém criteriosa, quando se posiciona politicamente. Em 2004, conseguiu amplificar suas idéias ao se pronunciar em show do Fórum Cultural Mundial em que participou ao lado dos artistas B-Negão, Paula Lima, Rappin Hood, Edvaldo Santana, Negra Li e Helião, Toma Sidibé, Rossi, Manu Chao e Gilberto Gil.

A apresentação foi na Praça da Paz do Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Desde então, Yuka passou a ser fonte obrigatória de consulta quando se trata de assunto polêmico, principalmente os que envolvem cidadania, violência, engajamento político e afins. Durante a campanha eleitoral do referendo, ele não poupou os pneus de sua cadeira de rodas para se posicionar pela proibição do comércio de armas e munição.

Nascido em Campo Grande, subúrbio do Rio de Janeiro, futebolisticamente se define torcedor do “maior pequeno time do mundo”, o Flamengo. Mencionando um “infelizmente, ele admite que o time está no caminho do rebaixamento neste ano, caindo para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro de Futebol em 2006, ano da Copa do Mundo de Futebol.

Atuando no F.Ur.T.O., Yuka está em turnê de lançamento do primeiro CD do grupo, “SangueAudiência”. A caravana do Frente Urbana de Trabalhadores Organizados passou por Bauru no último dia 27, quando apresentou seu som impactante em show no Serviço Social do Comércio (Sesc). Do alto da arquibancada do ginásio, vários cadeirantes acompanharam a performance instrumental de Marcelo Yuka, que agora manipula sintetizadores e um baixo no teclado.

Entretanto, o som que chega ao público é muito mais pesado do que se o artista estivesse tocando bateria. Na seqüência, os principais trechos de uma entrevista concedida pelo artista à reportagem do JC momentos antes de ocupar seu lugar no palco.

Jornal da Cidade - Em que medida o resultado do referendo, que manteve o comércio de armas e munição no Brasil, é termômetro para se entender a sociedade brasileira atual?

Marcelo Yuka - A gente tem que ficar preocupado porque acho que o referendo mostrou uma mentalidade jovem muito conservadora. Por que eu falo jovem? Porque os jovens são aqueles mais assassinados no Brasil. Por equívocos e propositalmente pelas armas de fogo. E essa classe não se viu na hora do referendo e embarcou na ideologia do medo, de que um objeto feito para matar te protege. Então acho que temos 500 anos de uma repressão feita por armas no Brasil e que não deu certo. Apenas aumentou a violência no Brasil. E na hora da gente mostrar para o mundo uma decisão inteligente e moderna, o povo se retraiu. E por isso que todos os grandes jornais do mundo deram notas pejorativas com relação à decisão que o povo tomou aqui. Eu dei entrevistas para mais de cinco países. Mesmo os de primeiro mundo contavam que o Brasil fosse dar essa cartada para que, consequentemente, começasse uma onda mundial de uma mentalidade mais pacifista. Mas, ressalta, isso infelizmente não se deu.

JC - Você acredita que o referendo deixou alguma mensagem para as nossas autoridades?

Marcelo Yuka - Deixou um recado de que é importante ter um referendo porque é uma ação democrática. Agora, para realmente exercer uma atitude democrática, o povo teria de ter as duas partes (favoráveis à proibição do comércio das armas e contrários à proibição) com capacidade financeiras iguais para defender seus pontos de vista. O que a gente viu foi que a campanha do “não” foi patrocinada pelas indústrias de arma de fogo desse País. Pela Taurus, pela Companhia Brasileira de Cartuchos. Enfim, não dava nunca para você ter uma campanha eleitoral feita sem grana disputando com uma das maiores forças financeiras do mundo, que é o mercado de armas de fogo. Os interesses por trás disso eram muito grandes. Então, acho que a oportunidade foi democrática. Mas como se deu, acabou não sendo.

JC - Qual a sua posição a respeito da venda de armas e munição no Brasil?

Marcelo Yuka - Eu sou contra. Acho que é uma maneira muito simplória pensar que um objeto, capaz de matar alguém, pode te dar proteção. Eu não vou entrar nem nas 500 estatísticas que existem sobre isso. Vou discutir um conceito moral que é portar uma arma, um instrumento fatal. Vou entrar na sensibilidade e na inteligência que a gente acabou deixando de lado, uma vez que a gente não optou por uma atitude moderna nesse referendo. Uma atitude moderna de pensar em oportunizar as pessoas e não reprimir através da violência. O medo venceu. O dinheiro que estava por trás dessa campanha venceu estimulado pelo medo, dando a entender às pessoas que um simples objeto, que é capaz de matar, dá proteção. Eu acho que se a pessoa acredita em armas, coisa que eu não acredito, ela pode ter acesso a armas não letais. Você vê o caso do Jean Charles de Menezes em Londres (Inglaterra). Ele foi assassinado (em julho deste ano) pela polícia britânica. Menos de uma semana depois, a própria polícia britânica pegou os reais culpados da explosão no metrô com armas de projéteis elétricos não matando ninguém. Isso significa que há saída sem arma. Essa concepção de que arma é uma defesa é uma concepção de quem está ganhando com isso, de quem está ganhando dinheiro com o sangue dos outros. Mas foi isso.

JC – Você acha que a arte é mesmo espelho da sociedade? E qual o papel da classe artística brasileira?

Marcelo Yuka - Hoje o artista está muito isento. Tem medo de ter um ativismo maior e o mercado cortar, editar ele do cenário. Não precisa ter envolvimento que a gente tem, que é tão profundo ou uma poesia que é voltada para as questões sociais como a gente tem. Pode ser um comediante que fora do palco usa sua imagem pública para participar de coisas importantes para o País. Acho que isso hoje não é muito estimado. Tem várias pessoas que fazem, mas não é o esteriótipo do artista ter esse envolvimento. Ainda mais num país que, nos anos de ditadura militar, teve um envolvimento muito grande dos artistas. Acho que a violência hoje é ainda maior. Os problemas hoje são maiores do que naquele período (anos 60 e 70) em que a gente não tinha uma liberdade democrática explícita.

JC - A medicação que você utiliza para suportar a dor resolve alguma coisa?

Marcelo Yuka - Eu tomo... Como é mesmo? (pergunta a um colaborador). Tranxilene. Mas não ajuda muito não.

JC - Você optou por não se trancar em casa, o que ocorre ainda com muitos portadores de deficiência. O que te motiva diariamente?

Marcelo Yuka - Às vezes você não tem muita opção. Além de ganhar a vida com o que faço, trabalhando ela tem mais sentido. E também o que me difere de um deficiente comum não é só a notoriedade que tenho, mas o que eu faço com a notoriedade que eu tenho. Então isso me leva adiante porque teria outras maneiras mais fáceis de chegar ao mercado, musicalmente falando. Mas eu acho que nesse tempo todo eu consegui uma coisa que é mais forte do que discos vendidos. Eu consegui respeito e hoje vejo, até mesmo como deficiente, que eu tenho outras responsabilidades. Não são todos aqueles que podem trabalhar e estar na mídia assumindo seu estado físico. Olha, eu vou fazer hoje show de bermuda, estou mostrando a minha perna. Então o preconceito é muito forte. Existe uma barreira arquitetônica também que é pesada. Mas não dá para voltar atrás. Só resta continuar trabalhando e fazendo o que eu sei fazer, que me proponho fazer de melhor.

JC - Como você enfrenta o preconceito social somado às barreiras arquitetônicas?

Marcelo Yuka - O preconceito é muito pior. Esse preconceito se faz valer até nas barreiras arquitetônicas, nas leis que a gente tem. A constituição brasileira é muito bonita em relação aos deficientes, mas é pouco usual. Ninguém leva em consideração os direitos que a gente tem. Eu deixava isso rolar e me adaptava às dificuldades. Hoje eu tenho que bater de frente porque sei que talvez hoje eu esteja representando uma grande maioria e não uma minoria de pessoas que têm o mesmo problema que eu.

JC - Quais outras dimensões da violência você acabou descobrindo a partir do ponto de vista de uma cadeira de rodas?

Marcelo Yuka – Cara, são tantas... Mas o pior é o fato de eu ser visto como doente quando sou apenas deficiente. Outra coisa é que eu não quero favor. Eu quero direito. E eu não quero favor não é por orgulho, mas se eu tenho tantos direitos que me protegem, então eu não preciso que esses direitos cheguem para mim na forma de favor. Eu quero que eles sejam exercidos porque são leis. E isso é muito difícil no Brasil.

JC - A sua visão de Brasil mudou após o tiro que lhe deixou de cadeira de rodas há cinco anos?

Marcelo Yuka - Não. Ou melhor, a única coisa que mudou foi ter no poder um trabalhador, de nível médio, sem o dedo, etnicamente parecido com nós e com um sobrenome muito peculiar. Mas essa esperança não se concretizou de fato. Mas acho que, cada vez mais numa sociedade moderna, um povo tem que estar organizado. Eu acredito na organização civil até mesmo para pressionar quem manda neste País. Não dá para esperar muito. Tem que fazer com o que a gente tem. E acho que meu trabalho musical dentro e fora do palco é muito centrado na organização civil. Acho que a própria banda (F.Ur.T.O.) é isso. Pessoas que não se conheciam estão defendendo uma proposta sonora e uma proposta poética e de engajamento social diferentes.

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