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Acidentes domésticos podem levar à morte

Roberta Mathias
| Tempo de leitura: 8 min

A cada dia que passa, as crianças estão mais “sabidas”, falantes e ávidas por informação. A forma como se comunicam, inclusive com os adultos, muitas vezes causam a falsa impressão que já sabem de tudo e podem se cuidar sozinhas. Errado! Por mais bem informada, a criança ainda não tem noções de perigo e de responsabilidade de um adulto. Para a criança, tudo pode parecer um brinquedo ou alguma coisa interessante. O cabo Ernesto Villares, 36 anos, do Corpo de Bombeiros de Bauru costuma chamar a atenção dos adultos para o assunto. “É importante ter em mente que criança não é miniatura de adulto, criança não tem consciência total dos riscos e perigos, isso é dever dos pais e responsáveis”, salienta.

Em sua história na corporação militar, Villares já viu muitos acidentes domésticos e de trânsito causarem vítimas fatais. Ele acredita que a conscientização é o melhor caminho para diminuir os riscos de acidentes. A responsabilidade é dos adultos, mas nada impede que a garotada também esteja informada para multiplicar as informações e evitar os perigos domésticos e de trânsito. Para isso, Villares conta que realiza palestras e cursos enfatizando três temas: primeiros socorros; prevenção e combate a incêndio; e acidentes domésticos.

Ele relata que ao sair da Unidade Resgate – onde atendia diretamente a vítimas de acidente -, chegou a pensar que não estaria salvando vidas, como fazia antes. “Mas um dia, eu estava ministrando mais uma palestra quando um senhor chamou a minha atenção. ‘Villares, lembra daquele curso de primeiros socorros que eu fiz com você? Então, dias depois meu netinho engasgou e eu tive que agir com aqueles ensinamentos. Você salvou a vida dele’. A partir de então, me sinto colaborando ainda mais em salvar vidas”, diz o bombeiro.

A prevenção é a chave do caminho, por isso, várias instituições, associações de moradores, escolas, empresas e indústrias têm procurado o Corpo de Bombeiros para que sejam ministrados cursos para adultos e crianças. “Nossa missão é a preservação da vida, do ambiente e do patrimônio e a conscientização é um dos melhores caminhos para evitar os acidentes”, diz Villares. Ele abordou os principais causadores de acidentes domésticos para a galerinha ficar atenta e bem informada. Telefone dos Bombeiros 193.

Trânsito

Entre os acidentes que mais causam morte de crianças, o trânsito está em primeiro lugar. O cabo Ernesto Villares do Corpo de Bombeiros de Bauru dá sugestões para que a galera também se preocupe com a prevenção de acidentes. “Achar que nunca vai acontecer com você é o maior equívoco das pessoas, principalmente dos adultos. Mesmo em um trajeto curto, é fundamental se posicionar corretamente no carro, usar cinto de segurança e respeitar as leis de trânsito”, salienta.

Picadas de inseto

As pessoas que sofrem de reações alérgicas devem ficar atentas às picadas de insetos. O cabo Villares do Corpo de Bombeiros de Bauru enfatiza o perigo da reação anafilática. “A reação alérgica pode fechar as vias respiratórias, nesses casos, é fundamental um socorro rápido e mantendo as vias aéreas liberadas”, orienta o profissional. Outros produtos também podem causar reações alérgicas, por isso, é importante ficar atento.

Pontiagudos e cortantes

A cozinha é uma verdadeira vilã para o público infantil, com acidentes graves, a maioria envolvendo objetos pontudos e cortantes. “Quando a criança começa a ajudar a lavar louça, muitos acidentes ocorrem”, recorda o cabo do Corpo de Bombeiros. Além do risco de copos e pratos quebrados, que se transformam em verdadeiras navalhas, há também as facas e outros objetos pontiagudos. “Se há um corte de um tendão, por exemplo, a criança perde aquele movimento e isso é irreversível”, lembra Villares. Por isso, nada de brincar com objetos cortantes e perfurantes.

Intoxicação

A prefeitura da cidade de São Paulo é responsável pelo Centro de Controle de Intoxicação (CCI), no Hospital municipal ArthurRibeiro e Savoia. Lá, eles têm uma equipe especializada em intoxicação 24 horas por dia. Além do atendimento local, o hospital possui uma central de atendimentos por telefone (0800-7713733), com médicos que orientam pessoas em situação de risco. De acordo com a funcionária do CCI Tayza Macedo, antes de acionar a instituição por telefone, é importante ter em mãos a embalagem do produto/remédio, o que facilitará a orientação. Informações sobre o paciente (idade, como está se sentindo) e sobre o produto (quantidade ingerida, princípio ativo do produto) são fundamentais para agilizar o atendimento. Ela também comenta que a maioria dos acidentes ocorre com criança entre 2 e 4 anos e com adolescentes com idade entre 15 e 20 anos. O serviço também é voltado para profissionais da área médica e funciona inclusive nos finais de semana e feriados.

Afogamento

“A maioria das pessoas que morrem afogadas sabe nadar, porque quem não sabe, nunca se arrisca”, diz Villares. O afogamento pode se dar em várias situações, como em rio, lago, piscina e mar. A melhor receita é previnir. Antes de ir se refrescar nos dias quentes de verão, verifique como é o lugar, a profundidade; leve equipamentos de segurança, como bóias e salva-vidas, e se há pessoas responsáveis que irão passar todo o tempo sem ingerir bebida alcoólica, sem colocar ninguém em risco.

Mas, por que as pessoas se afogam? “O afogamento se dá em várias fases. Primeiro começa a tentar nadar, às vezes porque teve uma cãimbra ou caiu de uma moto aqüática, e não consegue. É nesse momento que a pessoa entra em pânico e o ácido lácteo agindo nos músculos provoca uma sensação de desconforto, somada à ação da adrenalina, que causa o aumento do ritmo cardíaco e respiratório. É quando a pessoa começa a descoordenar a respiração. A glote (responsável por direcionar os alimentos e água para o estômago e o ar para os pulmões) fica desregulada podendo causar duas situações: travar e não entrar ar nos pulmões ou entrar água. Nesse período, que leva pouco tempo, a pessoa desmaia e começa a afundar. Com a perda da consciência, a glote relaxa e volta a funcionar, a pessoa está submersa, respira e alaga os pulmões, afogando-se. Agora, em outro caso, a glote mantém-se travada e não entra água, mas também não entra ar e há um afogamento seco”, explica Villares.

Ele diz que normalmente quando uma pessoa despreparada tenta socorrer uma pessoa em situação de afogamento, o que acaba acontecendo é a morte de duas pessoas.

“Como dizem os bombeiros no litoral: ‘água no umbigo, sinal de perigo’”, enfartiza o bombeiro. O melhor a fazer é procurar lugares adequados para as atividades aqüáticas.

Mito: muitos filmes mostram a pessoa afogada sendo socorrida na praia e após uma massagem, cuspir água e ficar ótima. Villares explica que é um grande equívoco, pois a água que sai pela boca estava no estômago e não no pulmão. “A água do pulmão só sai com medicamentos, que são diferentes para água doce e salgada. É preciso atendimento médico.”

Queimadura

Em acidentes com fogo, a primeira ação após avaliar o local e mater a vítima em uma situação segura, conforme o cabo Villares, é lavar com água limpa, fresca e corrente. “Você também deve retirar os excessos, principalmente se for queimadura por produto químico. Deve tirar também parte da roupa que estiver solta, qualquer coisa que estiver colada na pele não deve ser retirada, seja tecido, plástico, etc. Recorte o que puder ser retirado, em seguida coloque embaixo da água.”

Ele explica que é o princípio físico do equilíbrio térmico. “O nosso corpo está em uma temperatura média de 36.5 graus, grande parte do nosso corpo é formado de líquido (70%), se recebe um calor de uma água a 100 graus, por exemplo, a tendência é esse calor ir passando para o corpo. Se você coloca na água fresca, interrompe esse processo. Evita que o calor chegue a outros órgãos.” Ele, porém, dá um alerta em caso de queimadura em todo o corpo. “Nunca jogue uma pessoa queimada na piscina, pode causar uma hidrocussão (choque causado pelo banho frio culminando em afogamento).” O correto é envolvê-la em um cobertor e ir refrigerando com garrafas de água, aos poucos.

Todo acidentado que estiver com sinais de queimadura no rosto, sobrancelhas, nariz ou boca deve ter suas vias aéreas examinadas imediatamente. “A mucusa das vias aéreas é mais sensível e seu inchaço pode causar uma parada respiratória”, acrescenta o cabo Villares. Outra dica importante, em vítimas de queimadura, retirar todos os seus acessórios, como brincos, piercing, anéis, pulseiras e colares. Acidentes domésticos no fogão são bastante freqüentes, por isso, os adultos devem deixar as crianças longe deles. “A altura da criança contribui, quando ela mexe na panela, cai tudo sobre ela.”

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Acidentes

Casos mais comuns por faixa etária

• De 0 a 1 ano: asfixias e sufocações, quedas, queimaduras, engolir corpos estranhos

• De 2 a 4 anos: quedas, asfixia ou sufocação, queimaduras, afogamentos, intoxicação

• Acima de 5 anos: quedas, atropelamentos, queimaduras, intoxicação, afogamentos

Em 2003, o número de mortes de crianças com até 10 anos

• 1.456 por acidentes de trânsito

• 215 decorrentes de quedas

• 978 por afogamento

• 151 por correntes elétricas e radiações

• 286 por homicídio

Fonte: Ministério da Saúde e Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP)

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