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Rebelião dos imigrantes


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São inusitadas as cenas de destruição que tomam conta da França, onde até este domingo, 7 de novembro, já se contam cinco mil carros destruídos, além de mercados, lojas, etc, numa rebelião que já dura dez dias, levada a cabo por aqueles que o insensível e estúpido ministro do Interior da França, Nicolas Sarkozy, ousou chamar de “ralé da sociedade francesa”.

E quem será a elite, então? Aquela que se isola e faz de conta que a pobreza que atinge majoritariamente imigrantes africanos e seus descendentes, cidadãos franceses legítimos, mas que vivem em guetos miseráveis, com índices de desemprego inacreditavelmente acentuados, em torno de 40% circunscritos àquela parcela da população? Outros franceses sofrem níveis muitíssimo mais baixos de desocupação.

O estopim da revolta foi a morte de dois jovens eletrocutados quando tentavam se esconder da polícia - não necessariamente porque estivessem cometendo algum crime - numa cabine de força na localidade de Clichy-sous-Bois, o que indica que a atmosfera já estava perigosamente saturada pela insatisfação e inconformismo dessas pessoas. Para a explosão, bastou uma fagulha, as duas mortes dos adolescentes afro e os graves ferimentos em um terceiro.

E por que razão estas pessoas foram para na França? Um dos motivos talvez seja o fato de os países desenvolvidos e ricos covardemente distribuírem a seus agricultores 360 bilhões de dólares de subsídios por ano.

Este é o cruel preço da subvenção estatal e do alheamento dos mais favorecidos. Se a parcela da França nesta monstruosidade de centenas de bilhões de dólares anuais - literalmente jogados no lixo, um prêmio à incompetência de seus agricultores, que prejudica sobremaneira os produtores dos países pobres, especialmente da África e até do Brasil - fossem investidos em serviços básicos àquela população ignominiosamente chamada de ralé, muito provavelmente nada disto estaria acontecendo.

O recado é simples: olhem para nós, saiam de seu Olimpo e vejam o nosso isolamento, também merecemos as mesmas chances.

Como diziam os africanos que há semanas tentavam entrar no enclave (território estrangeiro dentro de outro país) espanhol de Melilla, no Marrocos, “não temos nada a perder”. Alguns, fuzilados, perderam suas vidas, outros se mutilaram ao tentar vencer as defesas cobertas de arame farpado das muralhas de cercam o enclave.

A insensibilidade do governo e das parcelas mais bem-aquinhoadas da sociedade os impede de olhar para o próximo, de dividir riquezas e compartilhar oportunidades, mas não os protege da fúria daqueles cuja tolerância se finda. Enquanto estão longe, isolados e quietos, não incomodam, mas quando percebem que não têm nada a perder, partem para o vale-tudo. Haverá sinal mais claro e contundente que este “basta” dado por milhares de pessoas esquecidas, rejeitadas a ainda por cima humilhadas por um ministro indigno do cargo que ocupa?

O presidente dos EUA, George W. Bush, declarou que só abrirá mão dos subsídios se outros países o fizerem, e ficamos neste jogo de empurra, enquanto as centenas de bilhões de dólares poderiam estar resolvendo boa parte do problema. Isto, somado às outras centenas de bilhões desperdiçados na invasão e ocupação do Iraque, poderia estar mitigando o sofrimento e melhorando as condições de vida e dando melhores perspectivas a milhões de excluídos, não só na França, mas no restante da Europa e em seus países de origem.

No ano passado o governo francês já havia proibido as estudantes muçulmanas de usar o véu no rosto dentro dos colégios, o que para quem pertence àquela religião significa muito mais do que um mero detalhe ou uma questão cultural, tem a ver com pudor, inclusive. Isto, por acaso, não é intolerância religiosa, tão abjeta quanto o racismo?

Assim, o país da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, o lema que se tornou uma grande mentira, colhe os frutos que plantou, na forma da revolta dos excluídos e discriminados.

O autor, Luiz Leitão, é administrador e articulista

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