A Secretaria de Cultura de Bauru não quis apoiar um evento comemorativo aos 30 anos da estréia da peça “Errare humanum est” nos palcos municipais. Tudo bem. É um direito que assiste aos dirigentes da área fazer suas escolhas. Mas é uma pena que a cidade seja privada de refletir mais profundamente sobre um momento luminoso de sua história cultural.
O que era “Errare”? Constituia-se numa colagem de textos, alinhavados com engenho e arte por um então jovem professor de História, Paulo Roberto Alves Neves. Entre trechos de Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade e outros, Paulo traçou um roteiro ágil das inquietações da geração que chegava à idade adulta nos idos de 1975.
Muita tinta foi gasta para se falar do ano de 1968 e dos malefícios que a repressão política acarretou ao País na fase mais cruel da ditadura. É muito justo que se faça isso. Mas pouco se escreve sobre as ebulições da década seguinte. Se o ano do AI-5 representou uma derrota para a democracia, o ano de 1975 - “Ano Santo” e “Ano da Mulher”, lembram-se? - foi marcado pela rebeldia. Foi o ano do assassinato de Vladimir Herzog e do primeiro ato coletivo de protesto contra o terror reinante, a sua missa de sétimo dia na Catedral da Sé. Foi o ano em que uma legião de escritores, de norte a sul, resolveu acionar mimeógrafos - havia disso! - para colocar seus contos, poemas, desenhos e rabiscos na rua. Falava-se num boom da literatura brasileira. Por todas as áreas havia uma espécie de religação de um fio condutor político e cultural cortado em 1964 e impedido de se desenvolver novamente em 1968. Foi o auge da imprensa alternativa, do cineclubismo, dos debates, das artes. 1975 foi o ano em que o Brasil voltou a dizer que rumo queria seguir.
Em meio a esse torvelinho é que “Errare...” foi escrita e montada. Se a estréia acontecesse em tempos diversos, é pouco provável que o espetáculo fosse tão impactante.
A rapaziada que subiu ao palco se revelou em talentos ímpares. Entre outros, havia um impagável Emir Bechir a brandir um dos bordões prediletos dos pais de classe média: “Filho, é preciso ter um ‘Dr.’ na frente do nome para ser respeitado”. Gilson Ribeiro, brilhante em várias frentes, conseguia, aos 18 anos, um domínio de palco invulgar até mesmo em atores maduros. A lista era enorme. Alvaro Cunha, Sonia Castellar, Renata Coelho, Cylene Garcia e por aí vai. O único a seguir adiante nos palcos e telas foi Edson Celulari, já marcante a declamar em monólogo o “Não sou nada, nunca serei nada...”, de Fernando Pessoa. Foram nove apresentações, com casa lotada, precedidas de uma intensa agitação em bares, rádios, jornais e escolas.
Nem sei se Paulo Neves tem idéia de como seu texto condensava aquela época. A narrativa sintetizou o que se veria também nos anos seguintes, um embate entre a rebeldia e a pasmaceira. Uma disputa que se mostrava semelhante em todo o País.
Como seria comemorar os 30 anos de “Errare”? Certamente não deveria se constituir num gesto de saudosismo estéril entre garotos que hoje beiram o meio século de existência. Mas poderia ser a oportunidade de se recuperar outra linha interrompida. Dessa vez, a responsabilidade pela quebra não foi a censura, ou o autoritarismo, como nos anos 60 e 70. Seria religar um veio bloqueado pela catatonia dos anos 1990, pelo deslumbramento yuppie, pela jequice da cultura fast-food e pela babaquice pós-moderna. Entulhos do neoliberalismo. Seria novamente colocar em pauta - através de debates, filmes e mostras - que o fazer cultural deve provocar ao mesmo tempo em que diverte. Deve combinar prazer e incômodo, como entes indissociáveis da natureza humana. Em suma, ou a cultura é subversiva, ou de pouco lhe vale o nome.
Daria para fazer algo bacana. Legal mesmo. Mas a vida é dura e a Secretaria de Cultura tem outras prioridades. No fundo, a vida real repete uma bola já cantada pela arte. Era esse o conflito exibido na peça “Errare humanum est”. Dessa vez, venceu a pasmaceira. Tenho certeza que momentaneamente.
O autor, Gilberto Maringoni, é cartunista, jornalista e escritor