O Roda Viva da Rede Cultura, exibido no dia 7 de novembro, foi um acinte à inteligência dos telespectadores mais avisados. Nunca se viu tanta bajulação e tanto conformismo dos entrevistadores às respostas do entrevistado. Esperava-se que participantes de tanto brilho tivessem a competência e a coragem de fazer ao convidado do programa as perguntas que o povo brasileiro está se fazendo a si mesmo, durante estes últimos meses de escândalos e maus exemplos. O que se viu, porém, foi uma pletora léxica, contrastando com a severidade que o momento exigia.
O entrevistado, comandante do nosso povo, por isso mesmo, sentiu-se dono da situação, prodigalizando a primeira pessoa do singular, em mais uma de suas crises de megalomania. A expressão “eu acho” voou solta, descontrolada, como borboleta saída de uma garrafa de aguardente... Foi um verdadeiro balé no qual o poder e a altivez fizeram um pas-de-deux para ninguém botar defeito. Como conseqüência, o telespectador teve de tragar dezenas de erros de divagação e conclusões baseadas na ambigüidade de metáforas, afirmações, falsas analogias e divagações de linguagem. As colocações sobre o ex-ministro, os gastos com a nave aérea, o acerto do projeto sobre transposição das águas do São Francisco e quejandos não deixaram dúvidas sobre a intenção dos entrevistadores de permitirem-se enganar por falsas estruturas de referência tomadas do mundo exterior. O “vocês vão ter de me engolir” transformou-se, de futuro próximo, num presente imediato, incontestável e sem direito a réplicas.
Como um parvenu, o comandante preferiu falar de seu time de futebol predileto, a explicar as mazelas políticas, como, por exemplo, o caso Cuba. Que rude a saída usada para abafar a questão! Arrogância e grosseria inimagináveis pontuaram a fala final sobre o caso: -“Quem falou? O morto.” Ficou o recado: inexistem problemas neste paraíso chamado Brasil. Tudo vai bem no melhor dos mundos, como afirmava o Cândido ingênuo de Voltaire. “Mensalão”, não houve. Caixa dois, nem pensar! Jamais passou pela cabeça de alguém afirmar que Roberto Jefferson faria jus a um cheque em branco. Também não houve envolvimento do PT no caso Celso Daniel. O que se viu, do princípio ao fim do programa Roda Viva, foi uma postura de negativas peremptórias a tudo de ruim que rola entre os filhos deste solo. Nosso mandatário é o pai gentil da pátria e uma espécie de seu descobridor: tudo ele fez primeiro. Ele é o melhor, o pai dos pobres, o gerador de empregos, o ético etc.
“À força de querermos ser o que não somos, acabamos nos julgando outra coisa do que somos; eis como se enlouquece”, disse Rousseau. Significa que o espírito também se embriaga como o corpo. As sugestões da fantasia são capitosas: quando exageradas geram paixões inimigas do equilíbrio. Pena que o Roda Viva de número mil, que elegeu o timoneiro da nave nacional como o entrevistado ilustre, não tenha percebido a importância de repassar um ideal austero aos telespectadores, em lugar de uma ficção enganosa que desmoraliza e desespera.
Dra. Maria da Glória De Rosa - mgderosa@walk.com.br