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Chico César dribla as falsas novidades em novo álbum

Por Luiz Fernando Vianna | Folhapress
| Tempo de leitura: 2 min

“De Uns Tempos pra Cá” é o melhor disco de Chico César - o que não é difícil. Depois de ouvi-lo, fica a impressão de que lhe fez bem a ressaca dos anos 90, quando era apontado como um dos mais promissores compositores brasileiros. Livre do museu de grandes novidades da indústria, ele encontrou tempo e espaço para criar um CD que, não fosse o desgaste da palavra, poderia ser elogiosamente chamado de conceitual.

Um dos pilares é um anticonceito: nenhuma música foi feita para o disco. São canções inéditas, algumas lá dos anos 80, ou já gravadas por ele ou outros intérpretes, todas costuradas em um roteiro bem particular. Segundo Chico, o CD começa sombrio e termina leve. Inicia-se melhor do que acaba, mas não perde o prumo graças a outro aspecto que dá conceito ao disco: o Quinteto da Paraíba. O excelente quinteto de cordas, conterrâneo do cantor, o acompanha em todas as faixas, conferindo ao CD, além de unidade, beleza e âncora.

O melhor no CD são os temas suaves, como o lamento sertanejo “Moer Cana” e as valsas “Pra Cinema” e “Valsa p/ Três”. A valsa-tango “Utopia” é inferior. A canção “Por que Você Não Vem Morar Comigo?” é bem inferior, mesmo com o atenuante de ser assumidamente brega. O baião “Por Causa de um Ingresso do Festival Matou Roqueira de 15 Anos” é muito barulho - e título - para pouco resultado. Embora se assente em um daqueles jogos de palavras típicos do autor (“Olha, foi jóia/ Mas agora é miçanga”), “Orangotanga” é um bom fechamento de CD, com ótimo arranjo de Ruriá Duprat -sobrinho do mago Rogério - para as cordas do quinteto.

Os cinco também salvam, ao misturar João Pessoa com Nova York, a versão de “Autumn Leaves”, cuja letra de Chico fica pálida diante da de Johnny Mercer. Corajoso, ele ainda gravou “A Nível de”, uma das peças mais sarcásticas de João Bosco/ Aldir Blanc, e “Cálice” (Gilberto Gil/ Chico Buarque), canção de protesto que, apesar de tão colada à época, guarda, ao menos em alguns pontos, uma beleza que transcende a ditadura militar. Ponto para Chico César, que ressaltou essa beleza, driblou as falsas novidades e fez um belo CD.

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