O brasileiro é um povo que vive de esperança! Mesmo assim, está cada vez mais comum ver as pessoas cabisbaixas. Qual será a razão? O curioso é que são indivíduos das mais diferentes origens e condições sócio-econômicas, mas todos caminham olhando para o chão! Isso, muitas vezes, as impede de notarem, reconhecer e cumprimentar até pessoas conhecidas. Olhar para frente ou para os lados parece um risco! Assim, perdem a cordialidade e a civilidade, tão em falta nos centros urbanos. Será que não há nada para ver no horizonte?
Ôpa! Às vezes elas cambaleiam; outras irrompem em imprecações impublicáveis... O que provoca isso? Será paranóia urbana? Será a vida difícil? Será o medo do presente? Será o medo do futuro? Será o peso de mentes cansadas de suportar as sujeiras e deslizes que nossos políticos espalham pelas ruas? De fato, tudo isso poderia abater o espírito alegre e otimista do brasileiro, mas não dizem que nosso povo é capaz de ironizar a má-sorte e dar a volta por cima, em qualquer circunstância, por pior que pareça?
Sim, mas mesmo assim é preciso olhar atentamente para o chão, antes de dar a volta por cima, pois os obstáculos e armadilhas são muitos, como pedras no caminho... Só que pedras, dependendo do tamanho, podem ser, ludicamente, chutadas, sem maiores conseqüências. Dependendo da distração, da chateação ou da idade, um tropeço ou uma topada podem ser inevitáveis; mas, normalmente, até uma dor pode ser passageira, esquecida num átimo.
Estariam, então, todos ébrios? Não!
Algo cheira mal em tudo isso; e, por mais que se tente separar as coisas, e não levar as ruins, da rua para casa, às vezes, inconscientemente, elas nos acompanham, entranhadas. E quando chagamos ao que deveria ser nosso sagrado refúgio, elas contaminam o ambiente, e geram nojo e revolta, em nós mesmos e nos outros! É... As pessoas podem ter muitos motivos: políticos, profissionais, esportivos ou existenciais, para andar assim, cabisbaixos...
Pois é... Tudo isso é porque, mesmo quando não há motivo para tristeza, sempre existirá a preocupação com as fezes de animais. Elas existem, espalhadas pelas ruas e, diariamente, repostas, com a cumplicidade de donos, socialmente reprováveis e higienicamente irresponsáveis. Parece que acreditam que sujar as calçadas dos outros e as áreas públicas, inclusive a areia de praias e parques infantis, é um direito seu, ainda que haja leis que inibam esses atos! Mas parece não haver legislação que corrija a falta de respeito ao próximo, que esses proprietários exercitam e descarregam em nossas ruas.
Felizmente, cresce a quantidade de donos que recolhem as fezes de seus animais de estimação e as dispõem em locais adequados; mas ainda existem os “convictos”, que insistem em exercitar sua “civilidade”, mal-cheirosa e pegajosa, pelas ruas das cidades.
Para os outros, que têm seus direitos esquecidos, resta a alternativa de caminhar olhando para o chão, para não pisar na m...
O autor, Adilson Luiz Gonçalves, é escritor, engenheiro, professor universitário, articulista e cronista, autor do livro: “Sobre Almas e Pilhas”, Editora: Espaço do Autor