Há 30 anos, Bauru assistia a um fenômeno nunca antes visto na cidade e, infelizmente, não mais repetido. Sucesso de público, a peça “Errare Humanum Est”, dirigida por Paulo Neves, foi apresentada durante cinco dias consecutivos em três sessões diárias, no antigo cine do Bauru Tênis Clube (BTC), numa época em que a cidade não contava nem com um teatro.
O ano era 1975 e, no elenco, Cylene Garcia, Emir Bechir, Sônia Castellar, Gilson Ribeiro, Álvaro Cunha e o ator global Edson Celulari eram alguns dos jovens talentos que subiram aos palcos para falar de suas angústias e aspirações. Uma época marcante para todos que assistiram e participaram da produção do espetáculo.
“Vivíamos no período uma leve distensão da ditadura, marcado por uma inquietude generalizada que tinha na cultura sua válvula de escape”, analisa o jornalista e historiador Gilberto Maringoni, que foi responsável pela produção e divulgação do espetáculo.
Por todo o País, surgiam jornais alternativos, cineclubes e festivais de músicas. Nas ruas, uma juventude ansiosa e descontente com a situação política promovia debates, passeatas e manifestações de diversos tipos. Em meio a essa efervescência, Paulo Neves, na época professor de história do colégio Preve, propôs a seus alunos uma montagem teatral em que todos poderiam extravasar seus sentimentos.
Desta forma foi produzida “Errare Humanum Est”, homônima à música de Jorge Ben, cujo significado, “errar é humano” reflete o que os estudantes almejavam. “Todos estavam vivendo as pressões da sociedade para entrarem numa boa faculdade e serem profissionais bem-sucedidos, quando, na verdade, esses jovens queriam o direito de errar”, analisa Neves.
Às vésperas do vestibular, os estudantes se preocuparam menos com os exames de dali a pouco, e voltaram-se para a produção da peça. No roteiro, um prédio com diversos apartamentos abrigava tipos humanos diferentes, cada um com seus problemas e aflições. “Levantamos o que afligia cada um e, por meio de colagem de textos que ia de Fernando Pessoa a Berthold Brecht, os personagens falavam de solidão, amor e ditadura”, relembra o diretor.
Produzido o espetáculo, o grupo se mobilizou para divulgar a apresentação. Os adolescentes colaram cartazes, foram a rádios e agitaram os bares para anunciar a estréia. “Não esperávamos esse sucesso. Tivemos que abrir novas sessões para atender a demanda do pública”, lembra Maringoni.
A repercussão também foi grande na mídia e abriu as portas para a produção artística em Bauru. “A peça foi um marco na história cultural da cidade, acostumada a assistir produções vindas da Capital. Todos se surpreenderam com a qualidade do texto e dos jovens que, pela primeira vez, faziam teatro. A partir desse dia, a agitação que se via no Brasil foi também sentida na cidade”, afirma Maringoni.
Neoliberalismo e educação
O descontentamento de 75 mobilizou toda uma geração e é lembrada até hoje por meio de grandes talentos que eternizaram suas obras, como Chico Buarque, Caetano Veloso, Rita Lee e Tom Zé. Passados 30 anos, o descontentamento com a realidade brasileira persiste, mas a juventude está mais apática. “A revolta existe hoje, mas ela ainda não se tornou em rebeldia. Os jovens têm a impressão de que não podem mudar nada”, analisa Marigoni.
O historiador recorda a ditadura e a relaciona com os dias atuais. “Hoje não temos a censura de antigamente, mas vivemos um monopólio global causado pelo neoliberalismo, que é tão inibidor quanto a ditadura. Tudo que produzimos no âmbito cultural segue uma fórmula pronta, imposta pelo gosto da indústria cultural”, lamenta.
Paulo Neves compactua com a visão de Maringoni de que a massificação enfraquece a produção nacional. “Não temos grandes produções teatrais como nas décadas passadas. O ‘Fantasma da Ópera’ (em cartaz em São Paulo) é uma superprodução, mas não tem nenhum sentido para nós, é uma adaptação da Broadway”, diz o diretor. Ele também vê a educação como responsável pela apatia da juventude. “O nível do ensino brasileiro caiu muito. Houve uma banalização da educação que é refletida na cultura”, finaliza.