Tribuna do Leitor

“Errarum humanum est”, trinta anos depois


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Fiquei entristecido quando li num texto do professor Paulo Neves, nesta coluna, um discurso de protesto, motivado pela indignação do cancelamento da comemoração dos trinta anos de apresentação da peça “Errarum Humanum Est”, ocorrido pela falta de patrocínio.

“Errarum Humanum Est”, trinta anos depois, e não há meios para realizar uma comemoração digna. É triste. É inaceitável. Também fiquei indignado, mas logo acordei, havia sido um sonho. Somente poderia ter sido um sonho.

Afinal, seria inconcebível que a comemoração não pudesse ser realizada simplesmente por falta de patrocínio. É certo que a falta de dinheiro é um fantasma que assombra os artistas, pois sem recursos financeiros é difícil, senão impossível, produzir e divulgar arte de qualidade. Ainda mais quando se trata de uma peça teatral, que requer uma equipe considerável para a produção e realização.

Entretanto, sabia que não era esse o caso de “Errarum Humanum Est”, pois, apesar de muitos não saberem de que se trata, foi uma peça apresentada em Bauru, no dia 11 de novembro de 1975, que foi o divisor de águas da cultura da cidade. Ainda que não tivesse essa pretensão, inspirou inúmeras manifestações artísticas, num período em que a liberdade de criação era assassinada dia após dia pela ditadura militar, através de perseguições descabidas e censuras sem sentido.

Quando era preciso denunciar as arbitrariedades que vinham ocorrendo há pelo menos dez anos no país, um grupo de jovens idealistas, muito talentosos, realizou uma “revolução cultural” na cidade, utilizando o teatro para falar diretamente à alma do ser humano. Ou seja, valeram-se do verdadeiro sentido do teatro, surgido na Grécia antiga, com a finalidade primeira de tornar conscientes o maior número possível de pessoas, cultas ou não, através da vivência de situações cotidianas, emolduradas pela criatividade e beleza.

Antes de acordar e saber que estava sonhando, refleti sobre algumas coisas. Como poderia não haver patrocínio para uma comemoração tão importante como essa? Qual empresa não iria querer ter seu nome vinculado à comemoração pelo aniversário de três décadas de uma peça que fortaleceu a busca pela democracia, pois foi uma das inúmeras manifestações artísticas realizadas no país, ao longo de vinte anos de ditadura militar?

“Errarum Humanum Est” personifica a importância cultural de Bauru, no cenário nacional. Exagero? Não. Essa peça instigou a verve criativa de artistas da cidade, que uniram-se nas mais diversas modalidades artísticas, fortalecendo o elo da corrente dos que lutaram pacificamente, pela liberdade no sentido mais amplo. Essa peça, ao longo de trinta anos, enaltece os que preferiram não permanecer calados, sufocando um grito de protesto, mas foram à luta, e hoje são verdadeiros heróis, não por terem pego em armas, mas por terem se valido da arte própria de cada um, para realizar uma obra de arte conjunta.

Quando acordei, rapidamente procurei o Jornal da Cidade e me acalmei com as notícias que li. Houve uma colossal movimentação de empresários de Bauru, e alguns da região, querendo, a todo custo, patrocinar a comemoração de “Errarum Humanum Est”, afirmando que não poderiam deixar de contribuir com tamanha atividade artística. Argumentavam que arte não é algo menor, sem importância, um mero enfeite, mas, representa a vida do ser humano, com todas as indagações e anseios, com todos os sonhos e realizações. Enfim, arte é o próprio universo do ser humano, ainda que visto de forma mágica.

O professor Paulo Neves, quase uma lenda do teatro bauruense, chegou a não ter tempo para tocar o Curso Livre de Teatro – que, ao longo de vários anos, lançou inúmeros atores talentosos, como Edson Celulari, conhecido em todo o país –, e resolveu dedicar-se totalmente à organização da comemoração. Teve, inclusive, que recusar algumas propostas de patrocínio, tamanha a procura de interessados em investir no projeto. De indústrias a empresas de comunicação, passando por lojas, supermercados e instituições de ensino, todos queriam contribuir com a comemoração. Uma importante rede de supermercados quis patrocinar, sozinha, a comemoração, mas teve que ser convencida a partilhar com outros o título de empreendedora cultural.

Foi o reconhecimento mais que merecido de um trabalho conjunto, cujos resultados vêm sendo obtidos ao longo de trinta anos, pois a arte verdadeira não pertence a uma única época, nem se desatualiza, é atemporal.

“Errarum Humanum Est”. Mas reconhecer a importância e patrocinar são atos sublimes.

Espero realmente ter apenas sonhado e que, com a colaboração dos empresários de Bauru, a comemoração seja realizada com tudo o que tiver direito.

Elson Teixeira Cardoso - escritor

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