São Paulo - Em depoimento ontem à CPI dos Bingos, os acusados do seqüestro e morte de Celso Daniel sustentaram a tese de crime comum para o assassinato do prefeito de Santo André, ocorrido em janeiro de 2002. Na noite de ontem, até o preso Elcyd Oliveira Brito - apontado pelo Ministério Público como testemunha de um crime político- endossou a versão dos demais integrantes da quadrilha, de que a vítima fora escolhida “no estalo”.
Conhecido com “John”, Elcyd seria o autor de uma carta endereçada ao empresário Sérgio Gomes da Silva, o “Sombra”, para cobrar o pagamento de R$ 1 milhão pelo assassinato do prefeito. Sombra estava ao lado do prefeito, de quem foi segurança, no momento do seqüestro.
Ontem, em depoimento colhido pelo senador Eduardo Suplicy (PT-SP), Elcyd confirmou ter enviado uma carta ao advogado de Sombra. Mas, para “perplexidade” do promotor Amaro Tomé Filho, negou que, nela, tenha ameaçado contar que o crime fora encomendado. Ele também descartou que tenha negociado o benefício da delação premiada. “Confirmo a apuração da Delegacia de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP)”, disse.
O promotor supôs que estivesse intimidado pela exposição da audiência, marcada por troca de farpas entre a polícia e o Ministério Público. Um dos momentos mais tensos foi o do depoimento de José Edson da Silva, apontado como executor do prefeito. Negando até ter participado do seqüestro, ele disse ter sido confessado sob tortura dos delegados Edson de Santi e Armando Costa Filho, os dois sentados à mesma mesa.
Diante de Armando Costa, ele acusou o delegado de quebrar-lhe os dentes ao tentar pôr o aparelho de choque na sua boca. Os delegados afirmaram que esse era um “ardil” do acusado, e listaram dados sobre a participação do preso no seqüestro. Sentado a seu lado, Santi chegou a gritar: “É um bandido cujas palavras não merecem confiança e respeito”. José Edson jurou inocência, mas o dono da fazenda onde Celso Daniel fora mantido em cativeiro - chamado às pressas por Suplicy- o identificou como responsável pelo aluguel do local.
Num depoimento marcado por contradições e lapsos de memória, o preso Ivan Rodrigues da Silva - o “Monstro”, apresentado como chefe da quadrilha - disse que o prefeito foi seqüestrado por ocupar um carro importado -um jipe Pajero- depois da frustrada perseguição a uma Dakota, na noite de 18 de janeiro. Pela primeira vez, “Monstro” reconheceu, no entanto, que esteve em Campinas no dia seguinte.
Segundo o Ministério Público, ele teria participado de uma reunião em Campinas, na manhã do dia 19, para discutir o “pagamento de R$ 1 milhão pelo seqüestro”. “Monstro” admitiu sua passagem por Campinas ao ser confrontado com o rastreamento do celular que usava, mas alegou que levara uma família para visitar um presidiário na cidade.
Ele se contradisse ao falar como teria descoberto a identidade de sua vítima. Primeiro, disse que pegara seu crachá ainda no carro, no momento do seqüestro. Depois, que soube pela TV. Ele também se confundiu ao tentar explicar por que optou pelo passageiro em vez de seqüestrar Gomes da Silva, que dirigia o automóvel.