“Uma revolta primitiva, rudimentar, sem nenhum plano, nenhum objetivo ou coordenação”, assim definiu Gilles Lapouge a explosão social que fez vir à tona a escalada da violência, evidenciando a terrível chaga social que o Primeiro Mundo vinha tentando ignorar e agora não sabe como lidar com a problemática em questão. O furor do vandalismo chegou a um nível de barbarismo que pegou a Europa de surpresa, sacudindo-a da sonolência que vinha desde os anos 90, após a queda do muro de Berlim. A França foi sacudida pela revolta das minorias excluídas, com a novidade de que agora esta minoria não é motivada por nenhuma ideologia. “O que prevalece é o furor de destruir, o furor do nada”, completa Lapouge.
Os franceses não sabem o que fazer com a presença dos estrangeiros, especialmente os africanos, que há décadas foram chegando na França, na esperança de encontrar um lugar ao sol, oportunidades de melhores condições de vida, de estudo, de trabalho, que no continente africano, não conseguem obter. Mas nada disso aconteceu. Não há igualdade de oportunidades na nação que tanto defendeu a libertè, a egalitè e a fraternitè. Na prática, nada disso funciona. Nem todos discriminam, mas há uma barreira social enorme para os negros africanos obterem alguma chance no mercado de trabalho francês, não conseguindo nem ao menos as migalhas do sistema. Então, chegou a hora de se revoltar contra a lógica desumana, da pior forma possível, com o horror da violência. É a forma de responder à brutal injustiça que vivem, como cães acuados.
Conta Lapouge que os “que ateiam fogo nem sequer apresentam reivindicações. ‘Nós num sabe falar’, disse um dos amotinados. ‘Nós só sabe falar pondo fogo’. Um outro se dá conta de sua estupidez: ‘Nós não somos cachorros, mas reagimos como cachorros’.
Além de queimar veículos (símbolos da sociedade de consumo), os revoltados escolheram outros alvos estratégicos, como as delegacias de polícia, as agências do fisco, as Prefeituras, alvos estes que simbolizam o Estado, e o desprezo que eles têm para com as instituições públicas. ‘Depois de 11 dias – continua Lapouge – todo político fala da República, da ordem republicana, da justiça republicana. Já os amotinados, à deriva, respondem: ‘Não queremos a sua República. Ela não quis saber de nós porque nos meteu nos guetos. Estamos fora da República”.
Gilles Lapouge também chama atenção, em seu artigo, para outro alvo da rebelião: “Na França, estamos vivendo um psicodrama”, sobre a agressão às escolas. Para os educadores franceses, “o alvo das escolas não foi escolhido ao acaso: a nulidade da instrução dispensada é a causa primeira do desespero e da revolta”. Todos concordam que o ensino dispensado é medíocre, e os professores sofrem de esgotamento nervoso. Falido o sistema educacional, estrangulado o suporte familiar, desmoralizado o Estado, o que resta senão a barbárie? E isso tudo num dos países que deu ao mundo uma das civilizações mais brilhantes da nossa História. O caso francês expôs a gravidade da situação social na Europa. Resta saber que respostas serão dadas a esta tão complexa problemática da atualidade.
O autor, Valmor Bolan, é doutor em Sociologia, reitor da Universidade Guarulhos – UNG, vice-presidente do Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras