Pesca & Lazer

História de Pescador: O Pescador que não mentia


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“Nos meus quase 40 anos de serviço nos Correios, tive o privilégio de conviver com pessoas extraordinárias, como os companheiros Zezinho Brianez, Jaime de Souza, Onofre Alves, José Morgado, só para citar alguns, entre centenas de outros. Estes já se foram desta vida e estão me esperando do outro lado; muitos não sei por onde andam. Tipos interessantes, cada um deles um mundo singular, de qualidades e defeitos, que me ensinaram regras de convivência e que muito ajudaram no meu desenvolvimento profissional.

Saudades do Darcy Moreira, carteiro dos bons, caçador e pescador que nunca mentia e que passava todos os fins de semana e feriados nas barrancas do rio Pardo, pescando ou caçando, tanto que foi apelidado de ‘Capivara’, sua caça predileta. Tinha um parceiro inseparável, o ‘Zoinho’, um condutor de malas já falecido, a quem não conheci e que diziam que era estrábico, com os dois olhos apontando para o nariz.

O Darcy Moreira defendia que a Sexta-Feira Santa era dia de jejum e oração e que preferia morrer a caçar ou pescar nesse dia. Uma noite, numa festa de casamento da filha de um colega de trabalho, sob o efeito de algumas cervejas, ele me confidenciou o motivo pelo qual tinha profundo respeito por aquele feriado:

- ‘Óia’, seu Sebastião, o que vou lhe contar eu nunca disse para ninguém. Eles iriam dizer que é mentira, e eu não minto. É tudo verdadeiro como essa luz que está nos ‘lumiando’. Só vou contar para o senhor, porque eu o considero muito e sei que não vai rir de mim. Há muitos anos, eu não acreditava em religião, e numa Sexta-Feira Santa eu estava arrumando as ‘traias’ de pescaria quando minha ‘muié’ me alertou: - Darcy, hoje é um dia santo que deve ser guardado, fica em casa, não vá pescar que é pecado e Deus castiga . Eu não lhe dei atenção, respondi-lhe que Deus castiga é quem mata para roubar e fomos, eu mais o Zoinho, para as beiras do rio Pardo. Lá chegando, esticamos o encerado e, quando preparávamos os anzóis, caiu a maior tempestade que já passei na vida. Parecia que a nuvem tinha descido e nos engolido, que a gente estava no seu ‘estrômago’ e que íamos morrer ou de raio ou afogados. A zoada era de deixar qualquer um surdo. Estava tudo ‘lumiado’ por relâmpagos que parecia que batiam nas árvores e passeavam ao nosso lado. ‘Oiei’ para o Zoinho e vi que ele estava ‘ajoeiado’ rezando. Seus cabelos estavam arrepiados e deles pulavam faíscas. Eu também me ‘ajoeei’ e começei a rezar para a Santa Bárbara, para Jesus Cristo e para tudo quanto é Santo, pedindo que perdoassem os meus pecados, me protegessem e me salvassem daquele dilúvio. Prometi, de coração, que se eu escapasse nunca mais caçaria e pescaria na Sexta-Feira Santa. Deus escutou a minha prece e da mesma maneira como tinha começado, a chuva parou. Naquela hora nós ouvimos uma pequena explosão e vimos que tinha caído alguma coisa numa moita de capim, bem pertinho da gente, onde começou uma chiadeira que parecia o ‘chocaio’ de uma cascavel. Curioso em saber do que se tratava, eu pedi pro Zoinho para que ele pegasse um ‘gaio’ de árvore e fosse verificar o que é que estava na moita e fazia aquele chiado. O Zoinho, com um pedaço de pau, fuçou na moita, e quase caímos de costas quando vimos o causador daquele fenômeno. O senhor nunca, nem de longe, pode imaginar o que era.

Sem conter a impaciência, eu perguntei:

- E então, o que era?

- O senhor não vai acreditar, pode parecer mentira, mas eu juro que é verdade ...

- Ó homem - insisti - diga logo o que era, deixa de fazer suspense.

- Pois bem, seu Sebastião, o que fazia ‘baruio’ na moita e que mais parecia uma cascavel... Era um raio, um raio ‘faiado’!!”

Sebastião Terçariol é autor do livro “Carteiros, Inspetores e outros Postalistas”

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