“Atirei o pau no gato, mas o gato não morreu...”. Clássico infantil, a música retrata algumas pequenas crueldades típicas das crianças, como apertar a orelha do cachorro, puxar o rabo do gato, matar e colecionar insetos, bater no irmão menor, entre outros comportamentos considerados típicos da infância. Nem por isso, essas atitudes devem ser toleradas pelos pais, destaca a psicóloga Isabel Cristina Dalco.
“Amor, raiva, ódio e contrariedade fazem parte do desenvolvimento humano. O que vai diferenciar a expressão desse sentimentos são as restrições, limites ou permissões”, diz Dalco. “É normal a criança ter ciúmes ou sentir raiva a ponto de expressá-la, mas deve ser ensinada a não machucar o outro, moral ou fisicamente por isso”, aponta a psicóloga clínica e escolar Cláudia Regina da Costa Chaves.
Segundo ela, quando pequenas, as crianças são mais livres e menos cobradas. Dessa forma, em alguns casos, podem encontrar pessoas que acham o comportamento “bonitinho”.
Dalco acrescenta que diferentemente dos adultos, os pequenos não têm noção exata da crueldade. Por isso, buscam apenas prazer e curiosidade ao cometerem “perversidades”.
“Crianças com 7 anos ou mais podem matar insetos somente pelo prazer de colecionar”, detalha. Em alguns casos, os pequenos chegam a bater e brigar com irmãos mais novos por sentirem ciúmes ou para exigir mais carinho e dedicação dos pais. Essa situação é comum com a chegada de um bebê no lar, exemplifica Dalco.
Paulo*, 7 anos, confessa que “dá uns tapinhas” e puxa o cabelo da irmã de 2 anos para chamar a atenção da família. “Mas ela já fez isso e também me mordeu”, justifica.
Em geral, os meninos têm mais liberdade para praticar pequenas maldades do que as garotas, observa Chaves. “Espera-se que eles sejam mais arteiros. Construímos socialmente que as meninas devem ser mais comportadas. Eles chutam, quebram e falam palavrões. Elas escondem, conversam demais e inventam mil histórias, mas é difícil medir quem faz mais ‘arte’”, diz.
Ana*, 7 anos, conta que seu irmão Luiz*, 1 ano, puxa seu cabelo e belisca seu braço quando a pequena está dormindo ou assistindo televisão. “Eu brigo com ele. Dou uns tapinhas no seu bumbum porque o bebê está com fralda e não deve doer muito. Mas aí ele grita: mamãaaae!”, revela a pequena, que tem mania de colecionar joaninhas e formigas.
Para evitar que os bichinhos morram, Ana os guarda numa caixa com furos para entrar ar. “Mas às vezes não dá certo e tenho dó deles”, diz.
Animais de estimação
Uma das “artes” mais comuns praticadas na infância é judiar do gato, cachorro, papagaio ou outro animal de estimação, aponta Dalco. “Puxar o rabo do gato ou do cachorro pode traduzir curiosidade ou ainda ser uma forma de carinho, uma vez que algumas crianças pequenas não sabem como transmiti-lo de outro jeito.
É o caso de Renato*, 4 anos. “Às vezes o cãozinho está dormindo e meu filho vai mexer com ele. Aí o animal acaba chorando”, conta a mãe, a professora Patrícia*.
Gustavo*, 8 anos, também adora brincar com seu poodle. Ele costuma “rolar no chão” com o animal, brincadeira vigiada pela mãe, a professora Lilian*. “O cachorro gosta muito de pular e correr. Desde que meu filho não esteja machucando o animal, ou vice-versa, eu deixo. Mas quando ele passa dos limites, leva bronca”, conta.
Segundo Lilian, Gustavo se torna ainda mais arteiro quando se une com os outros irmãos: Mariana*, 6 anos, e Diego*, 10 anos. “A menina é agitada: se está vendo a televisão, sobe em cima do sofá, depois pula na cama para dançar. Além isso, ela quer pegar os brinquedos do Gustavo, que fica bravo”, diz.
“Quando estão os três irmãos juntos, brigam mais”, conta Lilian, que constantemente está observando o comportamento dos filhos, buscando orientá-los e corrigi-los quando necessário.
A atitude também é adotada na casa de Patricia. “Meu filho já quebrou brinquedos de propósito e, na escola, empurrou outra criança”, diz. Algumas vezes, Renato amarra os dois cadarços do tênis do pai ou puxa seu cabelo. “Por isso, quando é preciso, eu o repreendo e dou bronca”, afirma.
Chaves aponta que a educação é essencial para o processo de formação da criança. Acolher os sentimentos vivenciados pelos pequenos e orientar sobre quais atitudes devem ser tomadas é uma forma de lidar com as pequenas maldades infantis, diz. (leia abaixo outras dicas apontadas pela psicóloga).
“É importante considerar que os sentimentos são espontâneos. É diferente dizer a uma pessoa que ela errou do que colocar que sua atitude não foi adequada. Os adultos também precisam rever como estão lidando com esses aspectos para serem mais livres e firmes na hora em que precisam corrigir uma postura inadequada da criança”, ressalta Chaves.
Nesse cenário, pontua Dalco, atitudes como gritar ou bater nos filhos devem ser evitadas. “É preciso orientar sobre o fato, com carinho, atenção e firmeza. A criança necessita formar suas opiniões sabendo dos limites existentes”, observa.
Além da família, a escola desempenha um papel importante na educação das crianças. Isso porque os professores e diretores podem auxiliar a reconhecer posturas inadequadas, impedindo que a agressividade entre as crianças extrapole os limites da convivência, explica Chaves.
Segundo ela, os docentes podem avisar os pais sobre as atitudes dos filhos e, se for o caso, orientá-los. “A escola ajuda a educar, mas quem de fato pode assumir o papel são os pais. O primeiro limite vem deles”, enfatiza. “Mas quando a família soma suas ações à dos professores, normalmente a dinâmica se resolve mais rapidamente”, acrescenta.
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Sinais de alerta
Se praticadas de vez em quando e seguidas de sentimentos de culpa ou arrependimento, as pequenas maldades infantis podem ser consideradas típicas da infância. Mas o quadro se torna patológico quando as atitudes são freqüentes e encaradas de forma indiferente pela crianças, explica o neuropediatra Plínio Ferraz.
Denominado transtorno ou distúrbio de conduta, esse tipo de comportamento necessita de tratamento médico e psicológico. “Nesses casos, a criança faz inúmeras maldades e quando é chamada atenção, seja na escola ou em casa, não demonstra a mínima culpa. Aí é um sinal de alerta”, diz.
Apesar do transtorno de conduta existir desde o século passado, seu diagnóstico é novo dentro da neuropediatria, aponta Ferraz. Segundo o especialista, sua causa é indeterminada e pode estar ligada a componentes genéticos ou ao contexto familiar. Há casos ainda em que ambos os fatores não interferem no distúrbio.
“A personalidade da criança só é formada a partir dos 18 anos. No adulto, um transtorno semelhante é chamado de transtorno de personalidade ou personalidade anti-social”, detalha o especialista.
O transtorno é mais freqüente entre os meninos, que têm mais tendência à hiperatividade e agressividade do que as garotas, aponta Ferraz. Alessandro*, 7 anos, possui sintomas parecidos, conta sua mãe, a representante de vendas Amanda*.
Segundo ela, seu filho é hiperativo e há alguns anos tinha muitas dificuldades no aprendizado em sala de aula e não conseguia se socializar com os coleguinhas. Em casa, era extremamente agitado e fazia inúmeras “artes”. Quando repreendido, ficava um pouco agressivo.
“Ele não entendia a palavra ‘não’. Não tinha limites”, revela Amanda, que ao perceber o problema procurou ajuda especializada. Atualmente, Alessandro toma medicamentos específicos e faz psicoterapia individual e familiar – procedimento indicado por Ferraz.
Segundo o neuropediatra, embora ainda não tenha cura, o transtorno pode ser controlado com ajuda dos pais, de profissionais especializados e também da escola. “Assim como os pais, ela tem um papel fundamental na formação do indivíduo”, ressalta.
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Dicas
• Observe atentamente a seqüência dos fatos em que seu filho aparece envolvido em confusões
• Ofereça suporte afetivo, advertindo a criança sempre que necessário
• Acolha os sentimentos e oriente sobre as atitudes dos pequenos, demonstrando outras relações e possibilidades de se resolver o conflito
• Valorize atitudes positivas e nas quais a criança tenha sido genuinamente boa e amiga
• Considere que para a criança é difícil decepcionar os pais e assumir suas más ações. Daí vem a necessidade de mentir para sustentar sua imagem. Portanto, separe quem ela é do que ela fez para ajudar no diálogo
• Se as orientações não forem suficientes, procure ajuda profissional para aprofundar as causas e melhorar o bem-estar da criança e da família