Com uma média de apenas uma doação de múltiplos órgãos por mês, a região de Bauru carrega um dos piores índices do Estado, de acordo com a Organização de Procura de Órgãos (OPO), da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu. Os motivos apontados pelos especialistas são a falta de informação da população, o baixo índice de comunicação de mortes encefálicas pelas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) e o número de entidades que podem realizar a captação na região: apenas três.
Para reverter esse índice, a Secretaria de Estado da Saúde irá, a partir do ano que vem, investir na capacitação de equipes próprias para a captação de órgãos em todos os hospitais com mais de 80 leitos no Estado. Na região, mais sete entidades farão o trabalho. Essa medida aumentará para dez o número de hospitais habilitados a realizar a captação na região, que abrange 90 municípios e aproximadamente 1,3 milhão de pessoas.
Cerca de 60 mil doentes no Brasil aguardam na fila única nacional para receber um órgão. Em Bauru, aproximadamente 75 pessoas esperam por um transplante de rim, segundo a Associação Bauruense de Apoio e Assistência ao Renal Crônico. Dessas, 21 estão na lista de espera por um órgão de pessoas com morte encefálica, alguns há nove anos. Em Bauru, a doação de córneas é a mais comum, por conta da simplicidade do procedimento. O Hospital Estadual (HE) “Arnaldo Prado Curvêllo†já captou 218 córneas de junho de 2004 até hoje e realizou seis transplantes. Mesmo assim, a espera ainda é de 150 pessoas, diz Elaine Marchis, coordenadora do departamento psicossocial da entidade.
Para Amélia Trindade, coordenadora da OPO de Botucatu, além das poucas unidades credenciadas para realizar a captação de órgãos na região, outras dificuldades também derrubam o número de doações. A falta de informação da população e a rigidez do processo de certificação de morte encefálica também são obstáculos. “O Brasil possui o protocolo mais rígido do Planeta. Mas nesse momento, ele é necessário para dar transparência ao processoâ€, avalia. Em contrapartida, Trindade garante que a partir do momento em que a família opta pela doação, a região é a mais rápida em concluir o processo de captação. “Na região, somos a OPO mais rápida. Em média, liberamos o corpo de volta à família em 24 horasâ€, conta. O processo deve mesmo ser rápido, pois a captação tem que ser feita com o coração ainda batendo. A de córneas, ao contrário, pode ser feita em qualquer caso.
Segundo Antônio Pádua Leal Galesso, chefe do serviço de transplante do Hospital de Base de Bauru, outro grande problema é a comunicação das suspeitas de mortes encefálicas. Galesso explica que os médicos que suspeitam de mortes encefálicas são obrigados por lei a comunicar à central de transplantes. “Mas muitas mortes encefálicas não são notificadas. Nós temos equipe, temos estrutura, mas não estamos tendo notificaçõesâ€, observa o médico. Até o mês de outubro, das 22 possibilidades notificadas na região apenas dez realmente se converteram em doação. E quando uma morte encefálica não é notificada, quem precisa de uma doação acaba perdendo a oportunidade de ter a vida salva.
Muita fé
Há seis anos aguardando a doação de um rim, Fernando Ramos, 27 anos, na tarde da sexta-feira, fazia a terceira e última sessão de hemodiálise da semana. Apesar da longa espera, ele não desanima. “Entra ano, sai ano, e nada de doação. Mas eu continuo com féâ€, conta.
A determinação de Ramos encontra reposta na atitude de famílias como a Elias, de Avaré. Há dois meses, Maria e Pedro Elias perderam a filha Daniela, de 12 anos, num acidente. A caçula do casal brincava na rua, perto de casa, quando foi atropelada. No hospital, foram informados do quadro irreversível da filha e, após conversarem com a equipe da OPO, decidiram doar os órgãos da menina. “Foi uma decisão muito difícil, mas ficamos felizes em ajudar outras famíliasâ€, afirma Elias. O processo, conta sua esposa, não foi demorado. “No dia seguinte liberaram o corpo dela. Ainda está muito recente, meu coração ainda está apertado, mas ajudamos muita genteâ€, conta.
A família de Sebastiana Félix, de Botucatu, também foi pega de surpresa com a morte dela. Sebastiana Félix sofreu um derrame enquanto lavava roupas no tanque de sua casa e teve a morte encefálica constatada. Como nunca tinham discutido o assunto entre a família, coube à nora dela, Cleonice, sugerir a doação. “Ela tinha um coração muito grande, então achei que seria condizente com a sua vidaâ€, afirma. “Pessoas estão enxergando novamente e puderam parar de fazer hemodiálise por causa delaâ€, afirma.