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Pobre também quer acesso ao ‘divã’

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 3 min

Admitir que o sofrimento é inerente ao homem é fácil. Difícil é conviver com a dor, especialmente para quem não dispõe de recursos para pagar psicólogo. Atropeladas pelas pressões sociais, resta a essas pessoas dobrarem-se às filas de atendimento gratuito oferecido pelas clínicas-escolas mantidas pelas universidades de Bauru. Preteridas pela política pública de saúde mental, esperam por mais de um ano para serem chamadas.

É o caso de uma manicure que pediu para ter o nome preservado. Em agosto do ano passado, passou por uma triagem e até hoje espera a vez para receber atendimento profissional. “Minha vida é muito carregada, estava perdida, precisando de ajuda. Tem hora que eu acho que pobre só vive de teimoso”, lastima.

Também não tinha como pagar psicólogo outra manicure. Luciana Francischini tentou por um ano obter atendimento para o filho até conseguir o serviço de modo gratuito. “Mesmo com indicação médica é demorado, mas acho que vale a pena”, conta. Ela foi assistida na Universidade do Sagrado Coração (USC), onde 820 pessoas aguardam a mesma oportunidade. Outras universidades não divulgaram números de espera.

Mas, em todas as clínicas-escolas da cidade, os menos favorecidos são priorizados. Eles são selecionados de acordo com o problema apresentado e a abordagem privilegiada pela instituição, cujo objetivo é trabalhar a formação do aluno atendendo a comunidade.

“O sentido é de somar recursos para a população necessitada, oferecendo muitas vezes, trabalhos diferenciados. Todos esses esforços colaboram as necessidades de pessoas carentes e com a formação do aluno”, reitera Marilene Krom, coordenadora do Centro de Psicologia Aplicada da Universidade Paulista (Unip). O esforço, no entanto, não consegue dar fim à demanda reprimida.

A cada dia aumenta o número de pessoas que batem às portas do serviço prestado pelas universidades. “O estresse, a loucura do dia-a-dia desestabilizam o sujeito”, afirma Thelma Margarida de Moraes dos Santos, professora e supervisora de triagem e diagnóstico do serviço oferecido pela USC.

Entre os problemas mais comuns levados às clínicas-escolas estão a manutenção de emprego, dúvida quanto à profissão, angústia associada às mais diversas crises e dificuldade de acompanhar os filhos.

“Têm pessoas que estão em sofrimento, muitas vezes não identificam e acabam adoecendo. A procura pelo terapeuta é um grito da consciência. É uma forma de resistir aos mecanismos de alienação. A pessoa vai rever conceitos, valores e enfrentar modismos. O ganho é a transformação e o desenvolvimento da consciência crítica. É a reapropriação da própria existência”, conclui Luiz Carlos Caneo, coordenador do Centro de Psicologia Aplicada (CPA).

Prática da psicologia

Lançado ontem, o livro Práticas Psicológicas e Reflexões Dialogadas retrata o trabalho desenvolvido pelo Centro de Psicologia Aplicada (CPA) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, em parceria com o Conselho Regional de Psicologia de São Paulo – subsede Bauru.

Suas páginas apresentam o resultado das discussões desenvolvidas no programa “Conversando sobre práticas profissionais em Psicologia”, que teve início em 2003 e até hoje vem sendo realizado no campus da Unesp em Bauru.

No encontro, psicólogos apresentam experiências e reflexões sobre diferentes práticas profissionais, que também por meio do livro vão contribuir para a formação de graduandos em psicologia, psicólogos em busca de novas inserções na área e outros profissionais interessados. Outras informações pelo telefone (14) 3234-3600.

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