Raul Togni Filho é sinônimo de basquete. Não só em Bauru, mas por onde passou. É também sinônimo de título. Integrante da “geração de ouro†do basquete bauruense, que conquistou o Campeonato Paulista e Nacional, este mineiro de Poços de Caldas já dedicou 28 dos seus 41 anos ao esporte.
Filho de um ex-goleiro de futebol, que tentou levá-lo a seguir seus passos, Raul conseguiu escapar dos gramados, mas não de usar as mãos para jogar. Dos tempos da Caldense, onde praticava também natação e vôlei, ficou o basquete, que surgiu através de uma escolinha. Hoje, depois de passar por Minas Tênis Clube, Flamengo, Franca, Corinthians-RS, Dharma, Ribeirão Preto e Bauru, Raul é tricampeão brasileiro, tetra paulista e mineiro, bi sul-americano, campeão pan-americano de clubes, carioca e gaúcho. O ex-aluno virou professor e comanda o Plasútil-Sukest.
Em seu novo desafio, Raul já conquistou o primeiro título. Foi campeão dos Jogos Abertos do Interior por Bauru, na categoria sub-21. Agora, o desafio é com o time profissional. Para vencê-lo, tem como referência os dois treinadores que mais marcaram sua carreira: Hélio Rubens e o norte-americano Mike Frink.
Nesta entrevista ao Jornal da Cidade, Raul falou sobre a carreira dentro e fora da quadra, Seleção Brasileira, NBA, CBB, Nossa Liga e até sobre técnico que infarta durante o jogo. Leia a seguir os principais trechos.
JC - E o que você faz? Qual é sua filosofia de basquete?
Raul - Primeira coisa é defesa. A defesa no esporte coletivo é fundamental, porque depende única e exclusivamente, ou pelo menos 80%, do coração. É vontade, é superação. Os outros 20% é a parte tática, posicionamento. Mas boa parte da defesa é coração. O ataque tem dia. Tem dia em que você não está bem, principalmente no basquete, que é um esporte de precisão, onde você precisa estar com a mão muito boa e tem que estar livre para ter um bom aproveitamento. Se você tem uma defesa forte, consegue, em um dia em que não está bem de ataque, superar o adversário. No jogo em que ganhamos de Franca aqui (dia 11 deste mês, pelo Paulista) nós mostramos isso. Fizemos Franca provar de um remédio que é tradição da cidade há muito tempo. Essa é a tônica do Hélio (Rubens) e quero trilhar por este caminho. A defesa tem que ser prioridade dentro da minha equipe. Quem vier para cá, vai ter que marcar.
JC - Dentro do seu ponto de vista de defesa forte, com qual estilo você se identifica mais: o da NBA, com marcação individual e ênfase no jogo físico, ou com o europeu, que também tem defesa forte, mas prioriza o coletivo e arremesso nos últimos segundos?
Raul - NBA é o basquete show. O último colocado da NBA, no ano que vem, tem continuidade no trabalho. Então, eles marcam forte e todos têm muito fundamento de ataque, mas é um jogo solto. É lógico que tem responsabilidade, mas o ataque não precisa ser tão sistemático. Já na Europa tem este lado sistemático. Os placares são 65 a 62, quando muito 80 a 70. Eu tento aqui, até pela nossa condição de latino, sangue quente, de saber viver sob condições de improviso, mesclar as duas coisas, achar um ponto de equilíbrio. Então, uma defesa forte e um ataque que tem que ser controlado, mas nem tanto. Tem o momento de contra-ataque, que tem que usar o improviso. A partir do momento que esse improviso não deu certo, tem que ter mais cabeça, um jogo mais inteligente.
JC - O Brasil nunca teve tantos jogadores na NBA. Você acha isso positivo? E como vê o caso do pivô Nenê, que atua no Denver Nuggets, que se recusou a defender a Seleção Brasileira?
Raul - A NBA, de uns dez anos para cá, começou a fazer uma abertura para o mundo. Então, tem vários jogadores estrangeiros e isso é muito bom, pois mescla o estilo norte-americano com o estilo do resto do mundo. Sobre a questão do Nenê, muita coisa não vem à tona. Houve um problema entre a CBB (Confederação Brasileira de Basquete) e o Nenê quando da liberação dele pelo Vasco (para jogar no Denver). Existia uma multa que a NBA tinha que pagar. Só que excedia um valor e quem tinha que completar era o próprio Nenê. Ele achou que a CBB não agiu de maneira correta com ele e isso criou um atrito. Por outro lado, existe o fato da CBB ser extremamente autoritária, ditatorial. Precisou aparecer a Liga do Oscar, a Nossa Liga, que a gente chama de Liga do Oscar, mas é uma liga do basquete brasileiro, para só aí haver mudanças na forma de gerenciar o Campeonato Brasileiro. Todo mundo sabendo que essas mudanças já eram necessárias. Então, essas polêmicas, esses conflitos, às vezes, se tornam necessários para que as coisas melhorem. Mas acho que o Nenê deveria deixar isso de lado. Ele não participou da Seleção Brasileira, e isso ele deveria ter deixado claro para o público, mais pelo fato de que ele necessitava de uma recuperação no joelho para poder iniciar essa temporada em condições melhores.
JC - Como você vê o atual momento da Seleção Brasileira? Enquanto o País tem número recorde de atletas na NBA e disputando ligas na Europa, não conseguiu se classificar para as duas últimas Olimpíadas e vive uma crise, vencendo torneios sobre equipes B de outros países.
Raul - É uma coisa surpreendente. Nos últimos anos, nunca se teve uma Seleção tão jovem e de tão boa qualidade como esta que temos hoje. No entanto, a gente não consegue transformar isso em resultado. Caso conseguisse, com certeza os patrocínios, a mídia, tudo reverteria em prol do basquete. Com relação ao último pré-olímpico, fiquei um pouco decepcionado, porque achei que faltou um pouco de comando na forma de conduzir a Seleção Brasileira. Uma vez que você tem jogadores que vêm da Europa e da NBA e outros jogadores de qualidade, você não pode deixar que o Brasil jogue da forma que jogava na época de Oscar e Marcel. Eu achei que houve isso. Sem querer desmerecer o Marcelinho, achei que ele concentrou demais o jogo e, com jogadores como o Nenê e o Varejão trabalhando no garrafão, Guilherme, o próprio Tiago Spliter, a gente querer ganhar jogo simplesmente com arremesso de fora... Não compartilho deste estilo de jogo. O arremesso é um fundamento necessário, mas tem que ser usado muito comedidamente. A batida para dentro causa o desequilíbrio da defesa, a falta que surge e você vai para o lance livre, carrega o time adversário de faltas. Acho que foi mal explorada a capacidade do grupo.
JC - Você citou Oscar e Marcel, que são da sua geração. É possível comparar a aquela época com a atual?
Raul - Eu acredito que a geração de hoje quer muito resultado, mas não trabalha a base. Vejo alguns meninos, mesmo na minha equipe, que carecem de fundamentos que são essenciais para o basquete. Junto com isso, a arbitragem é muito tolerante e houve uma mudança no basquete, acho que isso ocorreu até no próprio futebol: entrou o basquete força. O basquete clássico, técnico, está perdendo espaço. O jogador que tem técnica, pode até não ter tanta força, ainda joga. Mas o jogador que não tem tanta força e não tem a técnica não consegue jogar hoje em dia. Os detalhes técnicos foram se perdendo. Eu vejo que a preocupação na base é com resultados. Mas a base tem que estar preocupada com continuidade, pois o resultado que realmente pesa é o quê? É aquilo ali (aponta para os banners na Panela de Pressão, que registram as conquistas do Campeonato Paulista em 1999 e Nacional em 2002 pelo Bauru Basquete), ser campeão brasileiro e paulista na categoria top. Os outros têm importância? É lógico que têm, mas não tanto quanto na categoria principal. Então, tem que ser dada ênfase na preparação. Na minha geração, você vê jogadores, como Pipoka, jogando até hoje. Eu não sei se estes meninos que estão começando hoje vão conseguir, aos 42 anos, jogar. Pelo desgaste físico, às vezes, pela falta de aprimoramento técnico. O Oscar jogou até há pouco tempo e ainda dando canseira. Hoje, o basquete é muito violento, é uma intensidade muito grande. Aquela geração minha, eu acho, tinha uma qualidade técnica melhor. Apesar de que o Marcelinho é um dos jogadores mais completos que o Brasil tem. Só que ele focou que vai ser o substituto do Oscar. Não sei se isso é o ideal. Falo em termos de Seleção Brasileira, não de clube. Na Seleção, existem outros valores que podem diluir, fazer um jogo mais coletivo.
JC - Como foi sua experiência na Seleção Brasileira?
Raul - Em 1994, eu pedi dispensa em função do nascimento do meu filho. Eu também não estava realizado, porque um ano antes eu tinha feito uma bela temporada em Franca e, no ano seguinte, me transferi para o Minas e achei que não tinha ido tão bem como deveria. Achei que não estava sendo convocado por mérito, que era um coisa mais política, porque o Mike Frink, que era meu técnico na época, era assistente do (José, ex-técnico da Seleção) Medalha. Em 1997, eu estava no Minas, mas fui com a equipe de Franca numa excursão para a China. Lá, eu tive uma boa atuação e o Valtinho (armador do Uberlândia) teve uma fratura no tornozelo. O Hélio (Rubens, técnico da Seleção Brasileira na ocasião) me convocou, eu já tinha 30 anos. Disputei uma Copa América, que classificou o Brasil para o Mundial. A gente ficou em terceiro lugar. Em um dos jogos, ganhamos do Uruguai, mas estávamos perdendo por um ponto e houve uma cesta do Rogério no último minuto. O técnico uruguaio foi parar no hospital. Teve um infarto. Foi impressionante.
JC - É possível destacar um campeonato ou jogo inesquecível para você? Raul - O título que mais marcou para mim foi em outubro de 1994 (pelo Franca). Foi um Pan-Americano que ganhamos na Argentina e, quando voltei para o Brasil, meu filho Gabriel nasceu. Acho que foi mais marcante por isso. Porque minha mulher segurou para ele nascer no dia do meu aniversário, 23 de outubro. Voltei e ainda vi o nascimento de meu filho. Qualquer vitória é marcante, mas essa foi especial.
JC - E o melhor time no qual atuou?
Raul - É duro comparar. Na época em que joguei em Franca, eu era mais jovem e tínhamos uma equipe muito boa. Mas aqui, a equipe que foi campeã brasileira, também era muito boa. Tirando o Leandrinho e alguns jogadores que eram mais jovens, era uma equipe madura, com uma capacidade tremenda e com muita vontade. Apesar das dificuldades de ordem financeira, o grupo se fechou e conquistou o título de 2002. Foi minha última conquista. Eu, quando fui para o COC, tinha uma frustração, porque tinha conseguido algumas conquistas em Franca e Minas, mas eu queria um maior reconhecimento para encerrar minha carreira. Eu vim aqui e fui campeão paulista e brasileiro.
JC - Qual jogador mais o impressionou?
Raul - Passei por vários bons jogadores. Posso citar o Rocky Smith, que foi excelente e ficou no Brasil durante muito tempo. Joguei com ele e contra ele. Mas talvez um dos melhores que eu vi jogar aqui no Brasil foi o Dexter Shouse. Jogou em Franca e, com certeza, só não estava na NBA porque tinha muitos problemas com drogas. Ele foi o melhor jogador que já vi atuando.
JC - Qual a diferença fundamental entre ser jogador e técnico?
Raul - O jogador consegue extravasar dentro da quadra. Correndo, marcando, arremessando, dando cabeçada aqui e lá... O técnico não. Acaba o jogo, eu confesso que estou exaurido, minhas energias parece que se esgotaram. Você está ali do lado de fora tentando olhar o adversário, seu time, o comportamento de um e outro jogador. Tentando criar situações favoráveis à sua equipe e desfavoráveis ao adversário. Isso causa um desgaste muito grande. O jogador não, ele chegou, colocou o uniforme, vai lá. Ele encontra o prato feito e eu tenho que cozinhar tudo para pôr no prato para eles.
JC - Qual é a função desse “cozinheiroâ€?
Raul - É orientar, compor o melhor quinteto para estar em quadra naquele momento. Porque inicia-se com cinco jogadores, mas eu tenho mais sete para poder revezar ali. Então, eu tenho que estar descobrindo, a cada momento, de acordo com as situações, com faltas, com a defesa adversária, qual é o quinteto que vai se acomodar melhor dentro da quadra naquele momento. Passar muita confiança para o grupo. Fazer com que o grupo entenda e respeite a filosofia que está sendo traçada. E fazer com que cada um, dentro de seu potencial, se desenvolva ao máximo. Às vezes, o próprio jogador não tem a noção exata do quanto ele é bom naquele fundamento e quer fazer algo além da conta e isso não traz produtividade para o grupo.
JC - Qual seu perfil como técnico: linha dura ou mais companheiro?
Raul - Eu tento dosar os dois lados. Algumas coisas é difícil mudar. Por exemplo, eu sou muito sistemático com horário. Se os meninos chegam um, dois minutos atrasados, eu já não gosto. Aí, entra o profissionalismo. Mas o jogador, a partir do momento em que fez um acerto financeiro para ganhar um real e está satisfeito, tem que ser profissional acima de tudo. Até porque a recompensa vai reverter para o grupo e automaticamente para ele.
JC - O que se pode esperar do Bauru Campeonato Paulista?
Raul - A minha expectativa é que a gente fique entre os oito. Sei que não é fácil. Apesar da nossa campanha estar sendo, até certo ponto, surpreendente. Nesta fase (classificação aos playoffs), tracei um objetivo para o grupo de ficar entre os seis (apenas os seis primeiros avançam). Sei que é muito difícil. Eu acho que, pelo que foi investido e pela estrutura, número de jogadores que eu tenho, estando entre os oito dos playoffs do Paulista, já é uma grande conquista. Só que isso é teoria. Eu costumo falar para os atletas que na teoria é isso, mas, na prática, temos que mudar este quadro para que todos se valorizem, para que o resultado traga mais investimento para o basquete. É a superação. O maior aprendizado do esporte é esse: superar seus próprios limites.
JC - Você considera que Bauru já tem uma identidade no basquete?
Raul - Em toda cidade é assim: quando a equipe está no auge, há um maior envolvimento da comunidade no aspecto de ir, torcer e vibrar. Quando a equipe é mediana, este envolvimento já cai muito. Aqui, tem um envolvimento razoável, em função da história do basquete, pelo fato de ter sido campeão paulista e brasileiro. Os nossos patrocinadores também tentam colocar o basquete como uma extensão da própria fábrica. Isso eu acho legal. Você vê funcionários das empresas vindo aqui, torcendo por nós. A torcida vir, fortalece o grupo, fortalece os próprios patrocinadores e vão surgindo outros investidores. Uma equipe vencedora mexe com a auto-estima da cidade, do cidadão, que passa a ter orgulho da comunidade.