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Quatro patas


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Os cães assumiram tanta importância no Brasil a ponto de superar os da França, em número. E haja cocô nas calçadas às margens do Sena. Dizem que se pisar com o pé direito dá sorte. Estatísticas asseguram estar o nosso País com a terceira população mundial canina. Temos 25 milhões de cães, aproximadamente, atrás apenas dos Estados Unidos e da China. Começo a entender o porquê da minha mulher conversar mais com o Juquinha do que comigo. Mesmo quando estamos viajando ela inventa diálogos com o poodle ausente e troca o tom de voz por outro mais aflautado, como se estivesse se dirigindo a uma criança de colo.

Consultei o “psicólogo de cachorros” - sim, já existe essa profissão – Alexandre Rossi, e fiquei mais tranqüilo. “Normal. O cão supre um pouco a carência de companhia. Depois de muitos anos de casamento as pessoas se distanciam, não há tanto contato físico e o cão preenche essa lacuna”. Ainda mais essa...

Pois é. Só falta querer dormir no meio. Todos os dias surpreendo o Juca na minha cama, às vezes em posição impudica, com as quatro patas para o ar. Xô. Explica o especialista em comportamento animal que o cão permite dar vazão ao instinto de cuidar de alguém, inato em qualquer ser humano. É um bebê eterno: nunca vai se tornar independente e sair de casa. É verdade... Nosso Juquinha sofre de terríveis flatulências e tenho que levá-lo a passeio para que o cheiro se dissipe lá fora. Ele toma lactobacilos vivos para melhorar a flora intestinal, vive a peito de frango desfiado, mas não adianta. O curioso é que no meu bairro os vizinhos pouco conversam, mas quando estou em companhia do Juca as pessoas se aproximam, quebram o gelo. Chamo a isso de “fator-pet de integração”. Fiquei conhecendo gente que eu nunca imaginava.

Incrível a diversidade de brinquedos e outros produtos de pet-shops espalhados pela casa. Juca não é só “membro da família”. É o chefe. Pensa que a casa é dele.

Seria importante um curso de comunicação para entender cachorros. Soube do caso de um rotweiller que resolveu permitir a entrada dos donos somente pela porta do quintal. A passagem pela entrada social só é possível em dias especiais... Para o cão. Quando os humanos recebem visitas de parentes tem que ensiná-los a, primeiro, cumprimentar o cachorro... Se cumprimentar o dono antes, o cão ataca. Ah, e também não precisa se despedir porque ele detesta ouvir a palavra “tchau”. Há casos de marido que, se o cachorro estiver na cama do casal, com a mulher, tem que chegar disfarçadamente, sentar de costas e deitar virado para a parede para não ser atacado.

Lá em casa já se falou em adotar um outro cão embutindo a idéia de duplicar nosso índice de satisfação. Rossi (Adestramento Inteligente, Livraria Cultura) alerta que os bichos têm sentimentos e necessidades reais. Muitas vezes encara com desprezo a chegada de um companheiro canino, como se pensasse: “O que esse sarnento veio fazer na minha casa?” O cachorro se sente meio gente, meio cachorro, porque fica satisfeito com a nossa presença. Pode entrar em depressão por causa de ausências prolongadas dos donos. Isso nos exclui às vezes do convívio social. Cheguei a abandonar férias na praia para voltar correndo porque noticiaram à minha mulher que o Juca permanecia o tempo todo na janela a sua espera.

E eu que pensei que só o bicho-homem fosse tão complicado. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

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