Típica menina do Interior, ela adora brincar, é criativa, curiosa e gosta de conversar com pessoas mais velhas. Esse é o perfil de Serafina, famosa personagem infantil cuja identidade se confunde com a de sua própria criadora: a autora paulista Cristina Porto, 56 anos, quase metade deles dedicada à escrita.
Nascida em Tietê, Interior de São Paulo, ela se apaixonou pelos livros na infância, quando foi “apresentada†ao universo mágico de “Alice no País das Maravilhasâ€. “A Alice me puxou pelo túnel e aí eu nunca mais saíâ€, conta, em entrevista concedida ao Jornal da Cidade após a inauguração da biblioteca da escola infantil “Espaço Viverâ€, no último dia 10.
Aos 18 anos, Porto se mudou para a Capital e passou a retratar elementos urbanos, histórias extraídas do mundo infantil e experiências vivenciadas no seu próprio cotidiano em mais de 50 livros. A maioria deles dedicados ao público infanto-juvenil.
Entre as principais obras, destacam-se “Marco e Apoloâ€, “O Soldadinho de Chumboâ€, “A Festa no Céuâ€, “Chico Cochichoâ€, “Arroz e Feijão em Qualquer Estaçãoâ€, “Joana Banana†e “Olívia Pirulitoâ€, além de toda a coleção “Serafina†e do “ABC: Turma da Mônicaâ€. Feito em parceria com o cartunista Maurício de Sousa, este último livro traz uma abordagem lúdica para o processo de alfabetização e estimulação da leitura.
A trajetória de Porto - que está terminando mais uma obra da coleção “Serafina†– e o desafio para despertar o gosto infantil pelos livros, entre outros assuntos, foram tema do descontraído bate-papo. Compartilhe os principais trechos.
Jornal da Cidade - Quando teve início sua carreira como escritora?
Cristina Porto – Passei minha infância e juventude, até 18 anos, em Tietê, que é minha cidade natal e para onde estou voltando agora. Desde pequena eu não tinha muitos livros para ler. Uma vez perguntei o porquê e minha mãe disse que não tinha dinheiro para comprar. Me lembro que alguém me emprestou “Alice no País das Maravilhas†e essa obra foi a grande responsável por eu ter entrado no mundo literário. A Alice me puxou pelo túnel e aí eu nunca mais saí. Depois conheci Monteiro Lobato pela televisão, que na época era em preto-e-branco.
JC - Pode-se dizer que gosto pela literatura nasceu com a senhora?
Porto – Eu sempre gostei muito de escrever. A palavra escrita veio antes da leitura, mas uma coisa chamava outra, é claro, e eu queria ver o que os outros autores escreviam.
JC - A senhora foi professora de ensino fundamental por vários anos. Esse trabalho influenciou sua trajetória como escritora?
Porto - Fui para São Paulo com 18 anos me formei no magistério. Em seguida entrei para faculdade de letras e durante esse período também dava aulas numa escola de periferia de São Paulo, digo de periferia porque ela tinha menor poder aquisitivo e os professores tinham que fazer praticamente tudo. Esse período foi fundamental, no qual eu aprendi a falar com os alunos. Falando, convivendo com eles por vários anos e fazendo textos, como o “Chico Cochicho†- que eu fiz para sala de aula - percebi que esse trabalho era muito interessante. Eles fixavam com muito mais facilidade as palavras escritas com “châ€, por exemplo, do que aqueles célebres exercícios que diziam para preencher com “x†ou “châ€. Fiquei ainda mais convencida disso quando dei um ditado e um menino disse: “Professora, chuchu é com ‘x’ ou ‘ch’?â€. E o outro respondeu que havia chuchu na chácara do Chico Cochicho e que portanto, era com “châ€.
JC – Foi por conta do processo de aprendizagem que a senhora decidiu escrever para o publico infanto-juvenil?
Porto – Não foi uma decisão. Eu lecionei, depois acabei saindo, trabalhei na editora Abril e também com revistas infantis que fizeram muito sucesso na época. Nada é por acaso, acho que o caminho das pessoas vai sendo trilhado para que ela seja mais feliz e realizada. E o anjo da guarda também dá uma empurradinha...
JC - Como a senhora avalia o mercado literário brasileiro?
Porto – Eu tive sorte por conta da coleção “Serafinaâ€, que deu muito certo. No passado também haviam menos autores e isso, por incrível que pareça, facilitava porque a avaliação das obras era feita com mais tempo e critério. Era diferente. Na época dos cruzados, onde os preços foram congelados, houve aumento do poder aquisitivo das pessoas. Com a Bienal do livro realizada nos anos 80 apareceram diversos escritores, incluindo alguns artistas, que começaram a “escreverâ€. Surgiram o livro da Xuxa, o livro da Angélica, etc... e a partir daí a oferta aumentou. Acho que sempre deve haver um filtro porque existe muita quantidade. Eu tive muita sorte de ter permanecido no mercado com meus personagens.
JC - A senhora escreveu obras em parceria com o cartunista Maurício de Sousa, como o “ABC: Turma da Mônicaâ€. Como foi esse trabalho?
Porto – Foi interessante porque foi um desafio, de certa forma. Para fazer o “ABC da Mônica†tive que explorar e conhecer mais as características dos personagens e utilizar rimas, como “batatinha como nasceâ€, explorando as sílabas tônicas.
JC – Além disso, a senhora estagiou na Biblioteca Infantil de Munique, na Alemanha. De que forma essa experiência contribuiu para sua carreira?
Porto – Ela foi muito interessante porque eu e uma amiga ganhamos uma bolsa para organizar o acervo em língua portuguesa. Nós organizamos todo o acervo, que é segundo maior do mundo, depois da biblioteca de Nova Iorque. Foi uma experiência muito boa em vários sentidos, mas a realidade do nosso País é única. É bom conhecer pessoas novas e o jeito como elas trabalham. Na Inglaterra, por exemplo, se vendem muitos livros de jardinagem para crianças, mas no Brasil temos outra realidade.
JC - Como despertar o interesse infantil pelos livros?
Porto – Em primeiro lugar, o adulto, quer seja professor, pai, tio ou madrinha, também tem que gostar de ler. Se o adulto não gosta de ler, será muito difícil para a criança. O ideal é oferecer bons livros, começar com a história oral e colocar sempre o livro ao alcance deles. Eu sempre digo: quem tem um livro nunca vai estar sozinho, a pessoa pode dormir com ele, levá-lo em uma viagem e colocá-lo na bolsa porque o livro é um grande companheiro. Para estimular a criança, indico uma leitura mais leve, como poesia, que é mais fácil, ou ainda contos e crônicas, cujos textos são mais curtos.
JC – A contação de histórias também pode ajudar nesse processo?
Porto – Sim. Contar história é uma arte especial. Existem pessoas em São Paulo, por exemplo, que são atores e contam de maneira maravilhosa. Essa arte eu não tenho, mas. contando a minha vida fatalmente estou contando alguns traços do livro. Com criança pequena não adianta programar muito, são elas que dão o tom da história.
JC - Qual é o papel da escola nesse cenário?
Porto – Os professores devem ler com as crianças, escolher e perceber qual assunto interessa mais para determinada faixa etária. Por exemplo, na coleção “Boi Cavaco e Vaca Valsa†eu trabalhei com o galo e galinha, o boi, a vaca, gato e cachorro. Fui trabalhar como voluntária na creche de uma favela e queria montar a semente de uma biblioteca e levei esses livros, que traz uma história muito simples: um cachorrinho encontrou uma cachorrinha, os dois se casaram e tiveram filhotinhos, mas era uma realidade que as crianças não tinham. Elas olhavam para o livro e diziam: “papai, mamãe e filhinhoâ€. Por isso professor ou o diretor da escola deve estar atentos à essa realidade.
JC – Faltam políticas públicas para incentivar a leitura entre o público infantil?
Porto - Faltam. Na favela, trabalhei como voluntária em uma creche. Às vezes, a pessoa que tomava conta do berçário faltava, outro dia faltava alguém para distribuir os lanches, depois a prefeitura cortou a verba e o subsídio. Eu virei uma espécie de assistente social.
JC – Como são escolhidos os temas de suas obras?
Porto – Às vezes a editora pede um tema, por exemplo, uma vez a FTD me chamou porque queria uma coleção para crianças um pouco maiores e que tratasse de conflitos que elas pudessem viver. A coleção se chamou “Como Sair Dessaâ€. O livro “Leo Marinhoâ€, que tem sido lido nas escolas, fala da separação dos filhos de pais divorciados. Esse tema saiu do consultório de uma amiga minha que é psicóloga especializada em crianças. Ela contou que um menino estava fazendo terapia porque tinha muitos amigos com pais separados e achou que seria o próximo. Então aproveitei esse fato. Depois escolhemos o tema ciúme, mas para não cair no ciúme entre irmãos, falamos do ciúme da melhor amigo. O livro “Pirulito†mostra um triângulo amoroso entre duas amigas e um menino novo que aparece na história. Já o livro “Marco e Apolo†trata de crianças auto-suficientes, que querem fazer tudo sozinhas desde pequenas. Na história o personagem tem um cachorro que ele adora e de repente o animal foge e aí surge o conflito: como pedir ajuda?
JC – O público infantil é sua principal fonte de inspiração?
Porto - Me inspiro na vida, de uma maneira geral, no cotidiano, que é dele que a gente vive e que temos que extrair os momentos de felicidade, alegria, beleza e emoção. O importante são as coisas mais simples do mundo. Uma vez contei em uma escola que estava cuidando dos meus cachorrinhos e quando eles beberam água pela primeira vez nem imaginei que ficaria emocionada. Aí olhei, observei a água e veio tudo na minha cabeça: pensei que precisamos economizar água porque ela é a melhor bebida do mundo.
JC - Qual é o personagem mais famoso de sua coleção?
Porto - O personagem mais conhecido e que surgiu no primeiro livro é a Serafina. Agora será publicado o sexto livro da coleção, que deverá ser chamado de “Escolinha da Serafinaâ€.
JC – A senhora se identifica com algum deles?
Porto – Dizem que a Serafina é a minha síntese.
JC – Por que?
Porto – Ela é um pouco do que eu fui, do que gostaria de ter sido e do que ainda vou ser. Ela é a típica menina do Interior, que mora numa rua sem saída para poder brincar, é curiosa, é xereta – no bom sentido - quer perguntar tudo. E também nas atitudes: ela não faz um presente e não precisa comprar. Ela gosta dos velhinhos, assim como eu. Eu só deixo ela comer bastante e não engordar, pelo menos ela (risos).