Ser

No país das letrinhas

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 9 min

Típica menina do Interior, ela adora brincar, é criativa, curiosa e gosta de conversar com pessoas mais velhas. Esse é o perfil de Serafina, famosa personagem infantil cuja identidade se confunde com a de sua própria criadora: a autora paulista Cristina Porto, 56 anos, quase metade deles dedicada à escrita.

Nascida em Tietê, Interior de São Paulo, ela se apaixonou pelos livros na infância, quando foi “apresentada” ao universo mágico de “Alice no País das Maravilhas”. “A Alice me puxou pelo túnel e aí eu nunca mais saí”, conta, em entrevista concedida ao Jornal da Cidade após a inauguração da biblioteca da escola infantil “Espaço Viver”, no último dia 10.

Aos 18 anos, Porto se mudou para a Capital e passou a retratar elementos urbanos, histórias extraídas do mundo infantil e experiências vivenciadas no seu próprio cotidiano em mais de 50 livros. A maioria deles dedicados ao público infanto-juvenil.

Entre as principais obras, destacam-se “Marco e Apolo”, “O Soldadinho de Chumbo”, “A Festa no Céu”, “Chico Cochicho”, “Arroz e Feijão em Qualquer Estação”, “Joana Banana” e “Olívia Pirulito”, além de toda a coleção “Serafina” e do “ABC: Turma da Mônica”. Feito em parceria com o cartunista Maurício de Sousa, este último livro traz uma abordagem lúdica para o processo de alfabetização e estimulação da leitura.

A trajetória de Porto - que está terminando mais uma obra da coleção “Serafina” – e o desafio para despertar o gosto infantil pelos livros, entre outros assuntos, foram tema do descontraído bate-papo. Compartilhe os principais trechos.

Jornal da Cidade - Quando teve início sua carreira como escritora?

Cristina Porto – Passei minha infância e juventude, até 18 anos, em Tietê, que é minha cidade natal e para onde estou voltando agora. Desde pequena eu não tinha muitos livros para ler. Uma vez perguntei o porquê e minha mãe disse que não tinha dinheiro para comprar. Me lembro que alguém me emprestou “Alice no País das Maravilhas” e essa obra foi a grande responsável por eu ter entrado no mundo literário. A Alice me puxou pelo túnel e aí eu nunca mais saí. Depois conheci Monteiro Lobato pela televisão, que na época era em preto-e-branco.

JC - Pode-se dizer que gosto pela literatura nasceu com a senhora?

Porto – Eu sempre gostei muito de escrever. A palavra escrita veio antes da leitura, mas uma coisa chamava outra, é claro, e eu queria ver o que os outros autores escreviam.

JC - A senhora foi professora de ensino fundamental por vários anos. Esse trabalho influenciou sua trajetória como escritora?

Porto - Fui para São Paulo com 18 anos me formei no magistério. Em seguida entrei para faculdade de letras e durante esse período também dava aulas numa escola de periferia de São Paulo, digo de periferia porque ela tinha menor poder aquisitivo e os professores tinham que fazer praticamente tudo. Esse período foi fundamental, no qual eu aprendi a falar com os alunos. Falando, convivendo com eles por vários anos e fazendo textos, como o “Chico Cochicho” - que eu fiz para sala de aula - percebi que esse trabalho era muito interessante. Eles fixavam com muito mais facilidade as palavras escritas com “ch”, por exemplo, do que aqueles célebres exercícios que diziam para preencher com “x” ou “ch”. Fiquei ainda mais convencida disso quando dei um ditado e um menino disse: “Professora, chuchu é com ‘x’ ou ‘ch’?”. E o outro respondeu que havia chuchu na chácara do Chico Cochicho e que portanto, era com “ch”.

JC – Foi por conta do processo de aprendizagem que a senhora decidiu escrever para o publico infanto-juvenil?

Porto – Não foi uma decisão. Eu lecionei, depois acabei saindo, trabalhei na editora Abril e também com revistas infantis que fizeram muito sucesso na época. Nada é por acaso, acho que o caminho das pessoas vai sendo trilhado para que ela seja mais feliz e realizada. E o anjo da guarda também dá uma empurradinha...

JC - Como a senhora avalia o mercado literário brasileiro?

Porto – Eu tive sorte por conta da coleção “Serafina”, que deu muito certo. No passado também haviam menos autores e isso, por incrível que pareça, facilitava porque a avaliação das obras era feita com mais tempo e critério. Era diferente. Na época dos cruzados, onde os preços foram congelados, houve aumento do poder aquisitivo das pessoas. Com a Bienal do livro realizada nos anos 80 apareceram diversos escritores, incluindo alguns artistas, que começaram a “escrever”. Surgiram o livro da Xuxa, o livro da Angélica, etc... e a partir daí a oferta aumentou. Acho que sempre deve haver um filtro porque existe muita quantidade. Eu tive muita sorte de ter permanecido no mercado com meus personagens.

JC - A senhora escreveu obras em parceria com o cartunista Maurício de Sousa, como o “ABC: Turma da Mônica”. Como foi esse trabalho?

Porto – Foi interessante porque foi um desafio, de certa forma. Para fazer o “ABC da Mônica” tive que explorar e conhecer mais as características dos personagens e utilizar rimas, como “batatinha como nasce”, explorando as sílabas tônicas.

JC – Além disso, a senhora estagiou na Biblioteca Infantil de Munique, na Alemanha. De que forma essa experiência contribuiu para sua carreira?

Porto – Ela foi muito interessante porque eu e uma amiga ganhamos uma bolsa para organizar o acervo em língua portuguesa. Nós organizamos todo o acervo, que é segundo maior do mundo, depois da biblioteca de Nova Iorque. Foi uma experiência muito boa em vários sentidos, mas a realidade do nosso País é única. É bom conhecer pessoas novas e o jeito como elas trabalham. Na Inglaterra, por exemplo, se vendem muitos livros de jardinagem para crianças, mas no Brasil temos outra realidade.

JC - Como despertar o interesse infantil pelos livros?

Porto – Em primeiro lugar, o adulto, quer seja professor, pai, tio ou madrinha, também tem que gostar de ler. Se o adulto não gosta de ler, será muito difícil para a criança. O ideal é oferecer bons livros, começar com a história oral e colocar sempre o livro ao alcance deles. Eu sempre digo: quem tem um livro nunca vai estar sozinho, a pessoa pode dormir com ele, levá-lo em uma viagem e colocá-lo na bolsa porque o livro é um grande companheiro. Para estimular a criança, indico uma leitura mais leve, como poesia, que é mais fácil, ou ainda contos e crônicas, cujos textos são mais curtos.

JC – A contação de histórias também pode ajudar nesse processo?

Porto – Sim. Contar história é uma arte especial. Existem pessoas em São Paulo, por exemplo, que são atores e contam de maneira maravilhosa. Essa arte eu não tenho, mas. contando a minha vida fatalmente estou contando alguns traços do livro. Com criança pequena não adianta programar muito, são elas que dão o tom da história.

JC - Qual é o papel da escola nesse cenário?

Porto – Os professores devem ler com as crianças, escolher e perceber qual assunto interessa mais para determinada faixa etária. Por exemplo, na coleção “Boi Cavaco e Vaca Valsa” eu trabalhei com o galo e galinha, o boi, a vaca, gato e cachorro. Fui trabalhar como voluntária na creche de uma favela e queria montar a semente de uma biblioteca e levei esses livros, que traz uma história muito simples: um cachorrinho encontrou uma cachorrinha, os dois se casaram e tiveram filhotinhos, mas era uma realidade que as crianças não tinham. Elas olhavam para o livro e diziam: “papai, mamãe e filhinho”. Por isso professor ou o diretor da escola deve estar atentos à essa realidade.

JC – Faltam políticas públicas para incentivar a leitura entre o público infantil?

Porto - Faltam. Na favela, trabalhei como voluntária em uma creche. Às vezes, a pessoa que tomava conta do berçário faltava, outro dia faltava alguém para distribuir os lanches, depois a prefeitura cortou a verba e o subsídio. Eu virei uma espécie de assistente social.

JC – Como são escolhidos os temas de suas obras?

Porto – Às vezes a editora pede um tema, por exemplo, uma vez a FTD me chamou porque queria uma coleção para crianças um pouco maiores e que tratasse de conflitos que elas pudessem viver. A coleção se chamou “Como Sair Dessa”. O livro “Leo Marinho”, que tem sido lido nas escolas, fala da separação dos filhos de pais divorciados. Esse tema saiu do consultório de uma amiga minha que é psicóloga especializada em crianças. Ela contou que um menino estava fazendo terapia porque tinha muitos amigos com pais separados e achou que seria o próximo. Então aproveitei esse fato. Depois escolhemos o tema ciúme, mas para não cair no ciúme entre irmãos, falamos do ciúme da melhor amigo. O livro “Pirulito” mostra um triângulo amoroso entre duas amigas e um menino novo que aparece na história. Já o livro “Marco e Apolo” trata de crianças auto-suficientes, que querem fazer tudo sozinhas desde pequenas. Na história o personagem tem um cachorro que ele adora e de repente o animal foge e aí surge o conflito: como pedir ajuda?

JC – O público infantil é sua principal fonte de inspiração?

Porto - Me inspiro na vida, de uma maneira geral, no cotidiano, que é dele que a gente vive e que temos que extrair os momentos de felicidade, alegria, beleza e emoção. O importante são as coisas mais simples do mundo. Uma vez contei em uma escola que estava cuidando dos meus cachorrinhos e quando eles beberam água pela primeira vez nem imaginei que ficaria emocionada. Aí olhei, observei a água e veio tudo na minha cabeça: pensei que precisamos economizar água porque ela é a melhor bebida do mundo.

JC - Qual é o personagem mais famoso de sua coleção?

Porto - O personagem mais conhecido e que surgiu no primeiro livro é a Serafina. Agora será publicado o sexto livro da coleção, que deverá ser chamado de “Escolinha da Serafina”.

JC – A senhora se identifica com algum deles?

Porto – Dizem que a Serafina é a minha síntese.

JC – Por que?

Porto – Ela é um pouco do que eu fui, do que gostaria de ter sido e do que ainda vou ser. Ela é a típica menina do Interior, que mora numa rua sem saída para poder brincar, é curiosa, é xereta – no bom sentido - quer perguntar tudo. E também nas atitudes: ela não faz um presente e não precisa comprar. Ela gosta dos velhinhos, assim como eu. Eu só deixo ela comer bastante e não engordar, pelo menos ela (risos).

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