Faltam apenas sessenta semanas! Muitas semanas de confusão. Curioso observar que depois de meses na muda, esquivando-se de jornalistas, de repente Lula resolveu dar entrevista. Fala pelos cotovelos nos palanques armados pela assessoria em lugares seguros. Esteve em Assis em inexpressiva inauguração de linha de transmissão elétrica fora da cidade, em lugar remoto e vigiado. Mesmo assim, pôde observar algumas pichações da estrada: “Fora Lula!â€. Evento montado para produzir notícia nos meios de comunicação. Nada contra. Mas a verdade é que Lula, tão faroleiro nos palanques, arrepia de medo de falar com jornalistas. Durante todo o seu governo, deu apenas uma entrevista coletiva cercada de não me toques por todo lado. Antes dos escândalos, temia cobranças sobre o não cumprimento de promessas e sobre a ineficiência da administração. Hoje, foge, como o diabo da cruz, de falar de falcatruas. Gostava, até ontem, de falar de vitórias na economia, mas parece que o tema gorou. Novas confusões no horizont e? A entrevista do Roda Viva foi surpresa. As interpretações de seu pronunciamento não foram unânimes. Alguns acreditam que Lula tenha pisado no fundo do poço e procura apenas manter a cabeça fora d’água e chegar até ao fim de seu mandato. Lula declarou manhosamente que ainda não resolveu se será candidato à reeleição. O futuro de seu governo é incerto e não sabido. Sem alternativa, restaria a Lula procurar uma tábua de salvação. Negar nada saber de bandalheiras até o fim. Rifar não importa que companheiro para manter as investigações longe do Alvorada. Pegar pesado contra a oposição, indicando que o chamado bate- boca, a marcação homem a homem, destrói gregos e troianos. Conseguiria uma trégua com a oposição até o final de seu mandat o?
Alguns petistas são mais otimistas. Apostam no cansaço da opinião pública com as investigações. O desgaste começaria a cobrar tributo ao parlamento. A preferência popular por Lula se manteria nos atuais 30% até o final dos tempos. Índice bom comparado aos índices do companheiro W. Bush, o grande irmão do norte. A estratégia de Lula seria lutar com todas as forças para o encerramento das investigações e encontrar um novo gancho para as eleições de 2006.
Lula vem insistindo com seus ministros para que produzam notícias positivas para se contrapor à sucessão interminável de denúncias. A ministra Dilma Roussef procurou cumprir a missão. Espinafrou para valer a política econômica do companheiro ministro Antônio Palocci. Ou os petistas formam um bando de personalistas, manipuladores, vaidosos, ambiciosos, capazes de ralarem os companheiros sem qualquer escrúpulo, ou são absolutamente irresponsáve is. Ou será que alguma estratégia nova vem sendo urdida nos salões íntimos do Alvorada? Como explicar os ataques da ministra Dilma Roussef à política econômica do governo? Como explicar chamar de “rudimentar†a política do companheiro Palocci? Até agora, Lula considerava a política econômica austera a tábua de salvação do seu governo.
Marcelo Coelho atira na mosca da política nacional: “Tudo gira em torno do mesmo paradoxo. Setores conservadores fazem oposição a um governo que, nominalmente de esquerda, corresponde plenamente às suas expectativas. Enquanto isso, setores do próprio governo, ainda de esquerda, combatem um ministro que é o único a manter esse governo de pé. Ou para resumir: a oposição tem alma governista, enquanto o governo só se sente bem na oposição. Mas esses desajustes se corrigem cedo ou tarde.†Clóvis Rossi, sondando a cozinha do Palácio do Planalto, acalma multidões: “Tensões internas à parte, o presidente acha de verdade que a política de Palocci é a possível para o momento. Se fala em “flexibilizaçãoâ€, não quer dizer que pense em alterações realmente profundas. No máximo, em reduzir o contingenciamento de verbas, com a mão de gato da chefe da Casa Civil.†Joga o jogo de sempre, o vício de sindicalista: “Criar tensões entre seus auxiliares para arbitrarâ€. Oxalá!... (O autor, Ulysses Guariba, é professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP)