Articulistas

Os retirantes


| Tempo de leitura: 4 min

É dito e sabido que a quantidade de parlamentares cujas únicas convicções são os próprios bolsos e mandatos é grande, muito mais que estes 66 que se venderam ao governo em troca da retirada de suas assinaturas no requiremento de prorrogação da CPI dos Correios até 11 de abril do ano que vem. Todavia, nada disto teria sido possível sem a oportunista assistência do presidente do Senado, Renan Calheiros(PMDB-AL), que postergou por um dia a leitura do requerimento, sob o pretexto da necessidade de se conferir as assinaturas, dando tempo ao governo de patrocinar uma operação de compra de votos no atacado em troca da liberação de verbas aos parlamentares.

Foi assim que os 66 deputados mais o governo se expuseram ao ridículo: Lula pagou - melhor dizendo, prometeu pagar - e não levou, e os vendilhões dificilmente conseguirão cobrar a fatura de tão mau pagador. Por um triz, um só voto, tiveram camprador e vendedores uma derrota fragorosa, e agora que a lista com os nomes de suas exelências circula na internet, nos blogs e nas páginas dos jornais, é interessante ressaltar alguns nomes.

O deputado Luiz Antonio Fleury (PTB-SP), um dos que retiraram a assinatura, teve o despudor de declarar que “agora a CPI terá uma responsabilidade muito maior”.Fleury sucedeu Orestes Quércia no governo de São Paulo e, à época, atribiu-se a Quércia a autoria desta frase: “quebrei o banco (Banespa), mas elegi o meu sucessor”. E o grande Mário Covas recebeu de Fleury o Estado também quebrado, tendo consumido os quatro anos de seu primeiro mandato para pôr as finanças de São Paulo em ordem. Guardadas as proporções, mais ou menos como Serra recebeu a prefeitura de Marta Suplicy.

Vale mencionar os nomes do presidente de nada menos do que o Conselho de Ética, Ricardo Izar (PTB-SP), e Júlio Delgado (PSB-MG), relator do processo de cassação de Dirceu, entre a lista dos “retirantes”.

Cabe também alertar que Alvaro Costa Dias (PDT-RN) - cujo nome tem sido mencionado em algumas das listas dos 66 apenas como Álvaro Dias - não deve ser confundido com o senador Álvaro Dias (PSDB-PR). Outro conhecido que está na lista é Reinhold Stephanes (PMDB-PR), que já foi ministro da Previdência de FHC. Informo que o deputado Inaldo Leitão (PL-PB), um dos “retirantes”, não é meu parente.

De modo que a pizza em preparo não chegou a ser saboreada pelos comensais porque se torrou no forno do acaso.

É claro que todos ficaram indignados com essas coisas de sabotar CPIs, com as mentiras presidenciais de que não interfere nelas e tudo o mais, mas parece existir uma certa resistência em apurar as acusações sobre o tucano Eduardo Azeredo, não se vê, assim, uma vontade explícita do deputado Osmar Serraglio em ouvir seu ex-tesoureiro.

Ora, só pelo fato de que Azeredo diz que não sabia do caixa dois? Para a Justiça Eleitoral isto não conta, pois o responsável pelas contas de campanha é candidato, ainda que as tenha confiado a terceiros. O PT tem, sim, muita culpa, mas veja o leitor se o partido não tem razão de reclamar: foi pedido no relatório parcialda CPI dos Correios o indiciamento de dois meros gatos pingados - é o que foi noticiado -, Delúbio e Marcos Valério. Vale dizer, diante de tantos implicados, só incriminaram mesmo a raia miúda e deixaram para incluir Azeredo no relatório Final, “mas se quiserem, vamos incluir que ouvimos o Cláudio Mourão” (tesoureiro de Azeredo), disse Serraglio.

Ricardo Berzoini, presidente do PT, deixa patente a sua falta de educação e conhecimento das coisas ao dizer que o professor Miguel Reale Jr. se oculta na posição de “suposto jurista”. Deveria se recolher à sua insignificância e pedir desculpas ao professor por sua arrogância, mas isto seria querer demais dele.O pedido de impedimento baseado na última compra de votos, em que pesem os notórios e notáveis conhecimentos de Reale, não parece encontrar sustentação legal porque a tal compra foi com liberação de verbas e isto, se moralmente reprovável, não aparenta configurar crime.

Discordar como ouso fazê-lo em relação à proposta de Reale é uma coisa, desrespeitar o seu direito de opinar e agir, pedindo o impedimento como ele pretende, baseado em suas convicções e conhecimentos, é outra, típica de quem, como Berzoini, não admite o contraditório.

O autor, Luiz Leitão, é administrador e articulista

Comentários

Comentários