Cultura

Funk caipira

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 3 min

O som começou na periferia do Rio de Janeiro, mas bastou aparecer na novela “América”, da Rede Globo, para virar balada freqüente em São Paulo e chegar de mansinho ao Interior. O cenário, no entanto é diferente, bem diferente. Longe das favelas, o som é tocado nas principais casas noturnas da capital, três anos depois da primeira onda do funk, que estourou músicas como “Dança da Motinha” e “Cerol na Mão”, já ganha as noites de Bauru.

“Depois que o pessoal viu na televisão uma patricinha revoltada subindo o morro para dançar, a elite começou a gostar”, analisa a estudante de relações públicas da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Caroline Morgado, que, apesar da crítica, admite gostar do som.

Prova de que o som desceu o morro e subiu à cabeça das classes média e alta é o preço salgado das apresentações dos artistas do gênero. “Teve um show da Tati Quebra Barraco em Rio Preto que custou R$ 50 a portaria, no clube mais chique da cidade”, relata Morgado.

O som da cantora que virou sucesso nacional tem um “pancadão” forte e letra que dispensa comentários. A banalização do sexo, o uso exagerado de palavrões e a exploração do corpo feminino são temas recorrentes nas músicas, mas nada que impeça a estudante de se divertir. “Acho legal para dançar e se soltar. As letras chegam a ser engraçadas de tão horríveis”, ironiza a universitária.

A estudante divide um apartamento com mais quatro jovens e afirma que o funk é presença garantida nas confraternizações organizadas pelas colegas. “Aqui em casa todo mundo gosta. Nós baixamos as músicas da Internet e sempre colocamos quando queremos nos distrair”, diz. Fato confirmado pela carioca Jacqueline Vidal, uma das moradoras da casa. “Eu conheço o funk desde a minha infância no Rio, mas não era esse estilo tão malicioso que toca hoje em dia. O que eu admiro é a batida, mas as letras são apelativas”, ressalta.

A presença da música carioca é marcante também nos repertórios das festas de adolescentes, adultos e até mesmo crianças. “Em todas as festinhas que toco, não tem como, todo mundo pede funk. É uma febre”, salienta o DJ Silvinho, que lamenta o fato de tantas crianças saberem de cor as canções, repletas de palavras “pouco elegantes”.

Nas danceterias da cidade, as músicas começaram a ser tocadas depois do sucesso da novela. “Independente da classe social, quando começa o funk o pessoal delira. Tudo por causa da Raíssa (personagem de Mariana Ximenes)”, descreve DJ Dedinho. Mas, na sua visão, com o fim da trama, a tendência é de que o estilo perca espaço. “Na última perfomance que fiz, a reação do público já não foi a mesma. Acho que a onda do funk vai passar”, afirma.

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Só funk

Ao contrário do que ocorre na Capital, é raro encontrar no Interior uma programação noturna dedicada apenas ao estilo carioca. “Em Bauru, nunca fui em um lugar que tocasse apenas funk”, lamenta Morgado. Mas este espaço começa a se formar.

Todas as sexta-feiras o Recanto Caipira, localizado na estrada Bauru-Piratininga, volta-se exclusivamente para o estilo. “O lugar é bem simples e é freqüentado por todo tipo de público, que vai lá para dançar”, afirma a atriz Marisa de Oliveira, que costuma ir ao local para se esquecer do estresse do dia-a-dia. “O funk é uma onda legal, que mistura classes sociais e tira você da rotina”, enaltece.

O vestuário é leve, mas não tão quente como os das tchutchucas do Rio. Shorts, blusinhas e tênis são o uniforme de quem tem um único objetivo: dançar. A coreografia apela para o sexo mas, na visão da atriz, a malícia existe apenas na cabeça das pessoas. “Lá, cada pessoa respeita o seu espaço. Nunca me senti ofendida por ninguém, ao contrário do que já aconteceu em lugares badalados da cidade”, ressalta Oliveira, que acredita que a febre do funk esteja apenas começando.

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