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Leituras do mundo


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Enquanto a emissora de TV, ao noticiar o Dia Nacional da Consciência Negra, transmitia imagens de uma bela negra Ashanti (carregando seu filho amarrado ao colo), um jornalista pontificava sobre a situação de miséria em que se encontram muitos negros brasileiros.

Suponho que não foi intencional a associação entre más condições de vida e a terna atitude de dar ao bebê a condição de manter o contato quente com a pele da mãe. Imagino que a edição do telejornal não saiba que as imagens foram geradas muito longe das favelas do Rio de Janeiro. Em suma: acho que os jornalistas não agiram com “maldade”.

As técnicas de informação se globalizam, imagens são difundidas internacionalmente, mas não há “informação internacional”. O que existe é uma visão ocidental do mundo, tanto do ponto de vista dos valores, quanto dos interesses. No caso desta reportagem, uma visão branca e masculina.

Os jornalistas ultrapassaram perigosamente o seu papel. Informaram, sem discernimento, milhares de espectadores. As imagens e o texto, produzidos e apresentados, são incoerentes entre si, embora a leitura provável possua uma coerência arrebatadora e reacionária.

O monopólio de comunicação ocidental, branco, cristão e masculino supõe produzir um ideal universal de informação. Produz, também, numerosos erros de “leitura” do mundo. Os jornalistas simplesmente não possuem os códigos que lhes permitam interpretar os acontecimentos que se desenvolvem em regiões da África Negra ou em recantos da favela da Rocinha. Não, não existe informação mundial; não há senão acontecimentos interpretados mais ou menos diversamente pelos jornalistas e que, mesmo difundidos de maneira internacional, serão sempre recebidos e interpretados de maneira particular.

Talvez tenha chegado o momento de dizer aos jornalistas que estamos diante de uma situação paradoxal: todos os profissionais de imprensa desejaram, por mais de um século, mais informações, mais imagens sobre todos os acontecimentos; de repente, descobre-se que, ingenuamente, muitos jornalistas ficam soterrados sob uma pletora de informações, imagens e boatos. A profissão de jornalista é hoje, como ontem, difícil de exercer. Mas os motivos são opostos: ontem era difícil de informar por falta de informações; hoje, pela superabundância delas.

Por dever de ofício, o jornalista precisa, nos dias atuais, ser muito culto. Boa parte de seu trabalho é o de fazer triagem entre imagens, fatos, boatos e discursos. O risco de manipulação (por técnicos, políticos, agentes econômicos ou culturais) é imenso. O problema principal não é mais o segredo, mas a dificuldade de desentranhar a verdade de um universo saturado de informações, onde todo mundo sabe como se expressar, construir seu discurso, integrar o olhar e a objeção do outro.

O grande objetivo não é mais dar um “furo”. É dar condições de que as pessoas possam fazer escolhas. A escolha não é entre o obscurantismo e a irracionalidade dos valores religiosos ou tribais, e o racionalismo da democracia pluralista de outro. Alternativas assim fechadas lembram aquelas defendidas nos últimos anos, que opunham o “obscurantismo” do capitalismo às “luzes” do socialismo. Vimos em que deu isso e precisamos sair desse processo de feitiçaria e suspeição. Jornalistas cultos ajudariam muito!

O autor, Ney Vilela, é jornalista e historiador

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