Política

Pré-candidato, Goldman ataca PT

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 6 min

O período de pré-campanha eleitoral no País e, em particular, no Estado de São Paulo, levou o deputado federal Alberto Goldman (PSDB) a reforçar críticas ao PT e ao governo Lula em sua peregrinação pelo Interior do Estado, nesta semana, em busca de apoio para sua pré-candidatura à sucessão do governador Geraldo Alckmin (PSDB).

Mas, ao criticar o PT e sua concepções, Goldman admite erros em determinados períodos da trajetória tucana na condução do Plano Real. De olho na escolha do nome tucano para suceder a Alckmin, o deputado federal tenta ajustar o conceito de continuismo para uma espécie de continuidade reformada. Leia os principais pontos da entrevista:

Jornal da Cidade - O senhor integra a lista dos que querem suceder Alckmin, como José Aníbal, Emanuel Fernandes, Paulo Renato e outros pelo PSDB?

Alberto Goldman - Eu sou um pré-candidato à sucessão do Geraldo e existem alguns nomes que já estão colocados, como o José Aníbal, Paulo Renato. Tivemos reunião em Marília e Presidente Prudente discutindo isso com eles e o Aloísio Nunes também é pré-candidato. Temos formalmente quatro e podem aparecer mais até março de 2006, quando é o momento da definição. É um leque de alternativas com nomes de experiência política e administrativa expressivas. Vamos tirar um nome e vai chegar o momento de afunilar para escolher o melhor para a continuidade do governo Mário Covas, Geraldo Alckmin. Uma continuidade olhando pra frente, não para repetir o passado. É para aproveitar a base de mudanças e princípios e valores implementados por essas figuras mas olhando para frente, nos pontos em que temos que avançar.

JC - Qual o peso do continuismo tucano no discurso a ser oferecido de novo à sociedade paulista?

Goldman - Se você pensar em continuismo é ruim, é repetir passado. É diferente de continuidade, onde se mantém certos princípios e valores, forma de gerir, interesse público acima do privado, valores éticos, de conduta. Mas precisa avançar em políticas para enfrentar temas que não puderam ser resolvidos no período. O tema da qualidade educacional é um deles. Avançamos muito na quantificação, uma estrutura educacional bem espalhada em todo o Estado. Mas temos que pensar no ensino infantil. Isso é competência principal dos municípios, mas não pode deixar só com eles que eles não têm capacidade financeira de enfrentar essa questão. E tem o ensino médio, onde a qualidade precisa de avanços.

JC - O País não perde muito em 2006 se não houver alternativa além do PT e PSDB, disputa que se reforça desde o período pós-Collor?

Goldman - A gente não coloca isso artificialmente. Isso pode vir a aparecer se a gente tiver uma terceira, quarta ou quinta via alternativas. Eu diria até que não tínhamos essa polarização e nem na eleição do Lula nós tivemos de fato essa polarização. Um pouco antes do processo eleitoral haviam figuras muito bem postas, que por várias razões saíram do contexto. A Roseana Sarney era uma candidata fortíssima. O Ciro Gomes foi um candidato que durante o processo eleitoral parecia uma força alternativa.

JC - Mas o senhor aponta alternativas focadas na personalidade, em pessoas, e não em projeto político de partido, alternativa real?

Goldman - É verdade, temos pessoas com projetos mais ou menos semelhantes. Mas se você pensar na realidade brasileira hoje você não tem mais de dois projetos. Não quer dizer que seja bom ou que seja ruim. Quer dizer que é o fato concreto, você tem dois projetos. Bom e o PT tinha uma coisa que agora não se sabe mais o que é, virou um Frankstein o que seria projeto. Junta a perna do trotskismo, misturado com um pedaço de uma posição nacionalista quase com concepção militarista, com visões do esquerdismo infantil tipo leninista. Enfim, com mistura de populismo e juntado com posições conservadoras de defesa de interesses corporativos e uma postura até neoliberal. O Palocci defende teses que nunca ninguém defendeu, de aumentar ainda mais o superávit fiscal para baixar a relação dívida-PIB (produto interno bruto). O programa do PT virou um Frankstein. O PSDB tem uma conformação um pouco mais coerente, ainda que não esteja totalmente bem definida.

JC - O senhor não reconhece que esse modelo de política econômica tucana também usada pelo PT merece revisão, tendo em vista seu sacrifício social?

Goldman - A gente que o PT colocou era a possível no período pós-Real. Naquele momento precisa continuar combatendo a inflação. Não bastava aquele momento de transição entre a unidade de valor (URV) e a nova moeda, precisava do período de transição. Os princípios básicos foram colocados pelo PSDB, como responsabilidade fiscal, ajuste fiscal, câmbio flexível, plano de metas de inflação. Tudo isso era necessário. A operação pelo governo Fernando Henrique Cardoso deixou até a desejar em alguns momentos, quando se segurou, através do câmbio, a inflação, transformando em uma âncora. Foi além do que seria desejável e causou danos. Mas essa política mudou no segundo mandato. Agora o governo Lula retomou essa agenda de uma forma mais ortodoxa e não buscou outros caminhos.

JC - Não é perigosa a provocação do Legislativo ao Supremo, reacendendo a questão da nomeação de ministros pelo presidente?

Goldman - Neste momento isso não parece mesmo uma boa colocação. Porque você faz uma colocação de que o ministro indicado pelo presidente da República e aprovado pelo Senado é um processo que não serve. E dai é dizer que os ministros atuais não têm legitimidade e eu acho isso um erro. É usar no momento de uma crise a crítica de que as instituições não funcionam e isso não ajuda. Essa crise foi um pouco superdimensionada. Viajei de quinta-feira para sexta passada de Brasília para São Paulo num avião fretado junto com os ministros do STF Nelson Jobim e o Eros Graus. Marquei para conversar sobre esse problema.

JC - E qual foi o resultado da conversa?

Goldman - Conversamos para buscar um modus vivendi entre Congresso, Câmara e Supremo Tribunal Federal. Já que os presidentes da Câmara e do Senado não fazem essa conversa institucional, eu me meti a fazer. Acho que encontramos saídas. Porque os ministros defendem a tese jurídica deles. Eles votaram inclusive a favor da liminar no processo do Zé Dirceu. Eu não fui lá para mudar voto. A opinião e o voto é deles. Mas o Congresso está ansioso por votar o processo do Zé Dirceu. Você passa na rua e só se pergunta disso. Falam em pizza todo dia. Meu argumento foi político e não jurídico. Nenhum cidadão nesse país teve tanto direito de defesa quanto o Zé Dirceu. O cidadão só pode falar meia dúzia de palavras nos autos. O Zé Dirceu fala na televisão, no plenário, dá entrevista, faz atos de desagravo, o presidente Lula fala bem dele, o vice José Alencar vem apoia-lo, os ministros falam.

JC - E qual a saída para votar o processo contra o Zé Dirceu?

Goldman - Os ministros argumentam que se adotar como critério algo jurídico como este, a cada decisão sobre outro assunto tem que levar em conta esse mesmo critério, ou seja o direito de defesa fora do âmbito do processo. O caminho para o processo do Zé Dirceu ser liberado para votar, hipótese admita pelos ministros do STF, é o de retirar do processo o depoimento que entendiam que deveria ter sido feito anteriormente ao da defesa e foi feito depois da defesa. É mais ou menos o voto do ministro Pelluzo. Retira esse depoimento e o Zé Dirceu vai a julgamento sem essa parte.

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