Lula vive se comparando a Juscelino e, nesta semana, foi além: comparou-se ao ex-presidente norte-americano Franklin Roosevelt, a quem se atribui a preparação da economia dos EUA para a segunda metade do século 20. O petista, que jura ter ficado à margem, sem saber de nada do mar de lama que molha seus homens no governo, parece acreditar que é o messias brasileiro, aquele que veio para nos salvar.
Logo Lula, que sequer conseguiu ter um rosto para seu governo, que na economia segue FHC, na política com o Congresso é um fiasco e no social, pouco além de uma promessa.
Bento 16, longe de se comparar a João Paulo 2º, viveu ao lado do “papa pop”, gerenciando com mãos de ferro cláusula por cláusula do rigoroso dogma que ecoa da Idade Média. Nesta semana, também foi além: vetou a participação da cantora brasileira Daniela Mercury em concerto natalino no Vaticano. Daniela, que se preparava havia três meses para a apresentação -após ter sido convidada pelo próprio Vaticano- participara no último Carnaval de uma campanha contra a aids feita pelo Ministério da Saúde brasileiro. A campanha defendia o uso da camisinha, motivo que causou o veto papal, já que a Igreja é contra o preservativo e prega a abstinência sexual contra o HIV.
Logo o papa, que não consegue evitar que seus próprios fiéis deixem de usar a camisinha, assim como sequer consegue evitar casos de pedofilia envolvendo padres, que juram celibato.
Lula e Bento -sem querer fazer nenhuma comparação entre ambos- são o retrato de um mundo maniqueísta, onde se imagina haver anjos versus demônios, bons versus maus, castidade versus orgia, moral versus amoral. Lula quer ser Juscelino, o homem dos 50 anos em 5. Ou Roosevelt, o líder em plena guerra. O papa quer fazer crer que o mundo é habitado por católicos castos, imunes à aids, imunes ao pecado, quase próximos ao céu imaginário onde habitam apenas e tão somente as virtudes –tão distantes do comportamento humano.
Nosso presidente e o chefe da maior igreja cristã do planeta parecem negar a humanidade e todas as suas contradições, apegando-se a modelos ideais -e irreais. O que vale para a Lula é vestir a imagem de JK ou Roosevelt, mesmo que seu país não saia da subserviência econômica e do abismo vergonhoso entre ricos e pobres. O que vale para o papa é manter a rigidez do dogma, mesmo que a maior parte até dos que estão nas filas de comunhão use camisinha, porque não tem aptidão para anjo, tampouco quer morrer de aids.
Sob a barba de um e a indumentária do outro, bem diferentes do que eles sonham, estão os homens e as mulheres, está todo tipo de vida cuja riqueza parece morar justamente na contradição, na diversidade. Está o mundo, imperfeito e, talvez por isso, fantástico.
O autor, Marcos Brogna, é jornalista graduado pela Fundação Cásper Líbero e editor-chefe do jornal O Liberal, de Americana - e-mail: marcosbrogna@oliberalnet.com.br