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HIV: renda determina qualidade de vida

Lígia Ligabue
| Tempo de leitura: 3 min

O Brasil distribui gratuitamente o coquetel antiretroviral para todos os portadores de HIV. Mas apesar do acesso garantido aos medicamentos, a qualidade de vida do paciente ainda depende de sua renda. E é aí, onde o elogiado programa nacional de combate a aids não atua, que a realidade brasileira se revela: a classe social influencia diretamente na qualidade de vida do soropositivo, apontam profissionais que trabalham com portadores da aids em Bauru.

Para o psicólogo Ricardo Mokdici, o portador do HIV que possui uma renda mais elevada pode ter acesso a uma série de atividades que garantem a qualidade de vida. “Ele tem acesso a lazer, pode freqüentar academias de ginástica, o que é indicado por causa dos efeitos colaterais do coquetel, pode viajar, o que ajuda a controlar o estresse e também pode buscar tratamentos alternativos”, enumera.

A coordenadora social da Sociedade de Apoio à Pessoa com Aids de Bauru (Sapab), Mafalda Sparapan, aponta que a maior diferença entre os soropositivos de classes mais pobres dos que possuem renda maior é que geralmente os últimos passam a viver de assistência. Ela ressalta que é comum ao paciente HIV positivo não conseguir mais trabalhar – ou deixar o emprego por temer que os colegas descubram ou ainda por causa dos efeitos colaterais do coquetel - e passar a depender de alguma instituição e sentir-se constrangido com a situação. “Ao perder a autonomia de gerar renda e ter de depender de instituições, é que o empobrecimento traz conseqüências mais graves”, pondera a coordenadora da Sapab.

Para Sparapan, os soropositivos pertencentes à classe alta têm como grande inimigo a questão emocional. “Eles podem deixar de fazer alguma atividade devido ao psicológico, por temer que outros descubram”, acredita. Mokdici também considera a questão emocional fundamental. “Apesar de oferecer o coquetel, o Ministério da Saúde não disponibiliza o acompanhamento psicológico. Quem tem condições, paga”, frisa.

Em Bauru, conta o psicólogo, a casa de apoio da Sapab oferece atendimento psicológico aos seus moradores. “As vezes você tem dinheiro, mas não recebe o carinho que a casa oferece”, compara. O médico infectologista Marcelo Pesce Gomes da Costa lembra que é fundamental para o soropositivo manter uma dieta adequada e praticar exercícios regularmente.

Costa acredita que o estado de pobreza possui uma conjuntura que só piora com a descoberta da aids. “É um agravante numa situação que já era difícil”, aponta. Para o médico, a questão da informação é determinante. “Quem tem instrução, sabe de instituições, de lugares que oferecem esporte e lazer de forma gratuita. Mas quem não tem, não sabe onde encontrar esse auxílio”, observa.

Em Bauru, os casos de aids estão em queda, mas ainda exigem atenção. Desde de quando começaram a ser registrados, em 1982, já são 1.578 casos, com acentuada queda nos últimos anos, de acordo com o Programa Municipal de Combate DST/Aids. No ano passado foram registrados 60 novos casos de aids no município e neste ano, até o final de outubro, 15.

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Política para negros

A Secretaria do Estado da Saúde anunciou que hoje, Dia Mundial de Luta Contra a Aids, vai criar o Comitê Estadual de Saúde da População Negra. O órgão terá a função de definir um pacote de medidas de saúde específicas para a população negra, como estratégias e ações para ampliar o acesso a serviços de saúde, insumos e informação.

O grupo também irá disseminar boas práticas de superação do racismo e intolerância. No caso da aids, definirá ações prioritárias para negros e irá aprimorar o sistema de informações estadual. “É de extrema importância que as peculiaridades da população negra com relação à saúde tenham uma política específica. Este grupo cuidará para que o Sistema Único de Saúde se adapte a algumas questões”, afirma o secretário de Estado da Saúde, Luiz Roberto Barradas Barata.

Da Redação

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