Cotas para negros e feriado da Consciência Negra são medidas necessárias perante as estatísticas que comprovam que somos muitos, mas ainda vivemos em piores condições de vida
Trabalhador negro brasileiro: boa qualificação profissional ainda não garante salário igual ao branco. O povo brasileiro precisa saber mais sobre a realidade do negro no Brasil antes de criticar as chamadas “ações afirmativas”, que visam incluir os negros em universidades, empresas públicas e até em algumas particulares, através do sistema de cotas. Apesar da tese de que no Brasil não há discriminação racial entre negros e brancos, as oportunidades não são as mesmas e isso fica mais evidente quando confrontamos a realidade com dados de institutos de alta credibilidade, como o Dieese.
Pesquisas apontam: o trabalhador negro ganha menos que o trabalhador branco mesmo quando o tempo de estudo, grau de instrução e experiências são iguais. Essa informação se agrava quando essas estatísticas estão presentes na maioria dos estados brasileiros e o valor do salário do trabalhador negro chega a ser quase metade do que recebe o trabalhador branco. Além disso, a maioria dos negros trabalha na informalidade, são os maiores em índices de desemprego e mesmo com curso superior raramente ocupam cargo de chefia.
É deprimente para os negros saber destes dados porque quando falamos de estatísticas estamos confrontando com uma prova real dos fatos. Dizer que os negros são acomodados, ou desocupados, são na verdade estereótipos (preconceitos não fundamentados), e podemos justificar essa teoria, uma vez que o negro demora mais tempo para ser recolocado no mercado de trabalho, conforme a pesquisa. Infelizmente, em pleno século 21 medidas discriminatórias, ao contrário, como são as cotas, tem que ser empregadas simplesmente para dizer que o semelhante de pele negra tem direitos iguais. Resta saber se formados oriundos das cotas não serão discriminados pelo mercado de trabalho porque usufruíram deste direito para a sua formação.
Mesmo depois de formado, o negro enfrenta a resistência para entrar no mercado de trabalho e vejamos que só agora a mídia está tendo consciência de que negro consome: come, veste, escova os dentes, usa sabonete, mora e estão investindo na imagem publicitária do negro para valorizá-lo como consumidor potencial. Chama a atenção o fato de que em atividades elitizadas o negro não está presente, devido à falta de oportunidades, por isso o estardalhaço quando o Heraldo Pereira foi o primeiro negro a apresentar o Jornal Nacional, e Netinho virou apresentador na Record. Na televisão do interior, a presença do negro é praticamente inexistente, mesmo sabendo que a audiência e o consumo dos produtos veiculados numa emissora também dependem do cidadão negro. O jornalista Cláudio Henrique Faustino, negro, formado pela PUC, roterista treinado pela Rede Globo, com documentário no acervo da TV Cultura: "Numa ocasião fui convidado por uma emissora do Sul de Minas para um teste e a chefe de Rh se surpreendeu que eu tivesse o tal currículo, liguei para saber a resposta do teste e fui mal tratado. Ainda hoje atuo como jornalista free-lancer."
O feriado homenageiou Zumbi dos Palmares, negro culto que resistiu contra o sistema escravista. Zumbi dos Palmares é o maior símbolo da resistência do negro, porque resistiu contra o sistema escravista no Quilombo que ele liderava, segundo relatos históricos. Portugal teve que enviar uma força militar especial para combater os soldados do Zumbi. Criado por um padre, Zumbi era um negro muito culto, tinha conhecimentos de matemática, astronomia, história da Bíblia e latim. Preparado, Zumbi comandava seu exército de quilombolas garantindo a sobrevivência dos escravos foragidos, por isso no dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, Zumbi é homenageado sendo estabelecido feriado em diversas cidades brasileiras. Vale salientar que iniciativas como a do Senador Paulo Paim, entre outros que têm projetos para a inclusão dos negros, são medidas de grande importância para os afrodescendentes.
Gaspar Reis Moreira - assistente social - CRESS/SP 6647 - secretário do Conselho Municipal da Comunidade Negra de Bauru