Articulistas

Entre o discurso e a prática


| Tempo de leitura: 3 min

A história começa em uma das muitas relações familiares quando um pai atribulado com o trabalho diário assume um compromisso com seu filho de presenteá-lo após um determinado favor. O filho, por sua vez, estimulado com a promessa e ávido para realizar aquele pequeno desejo, cumpri com suas obrigações e atende ao pedido do pai. Na hora de receber o presente, com toda a ansiedade que o momento produz, é surpreendido com um simples pedido de desculpas e uma nova promessa postergando a entrega do presente.

Que decepção! Este certamente seria o sentimento de qualquer pessoa no lugar deste filho. Assim como nas histórias do cotidiano da vida, na política é sempre a mesma coisa. Infelizmente os compromissos de campanha viram sempre justificativas superficiais para explicar o sempre inexplicável. Quem não se lembra do slogan “uma Bauru mais justa e mais democrática”. Sempre a mesma verbalização de efeitos sonoros que infelizmente não resistem nem as primeiras horas de governo. Cabe aqui destacar que este texto não se trata de uma crítica destemperada, evasiva, mas apenas uma constatação de quem viveu mais de perto, o último momento político da cidade.

Os assuntos que tantas vezes discutimos nas palestras, debates e conferencias durante a campanha eleitoral de 2004 começam agora a tomar forma, ou melhor, começam a se formar as verdadeiras intenções. Alguns temas me chamam a atenção, como os sucessivos problemas gerenciais da Emdurb, com denúncias graves e pouca ação prática para esclarecimentos dos fatos, o atropelo do encaminhamento do orçamento municipal, sem que se fizesse qualquer consulta pública e agora o encaminhamento deste projeto de revisão da planta genérica com planilhas de aumento absurdo dos valores de IPTU, com o argumento de que o mesmo está baseado na lei de mercado, na opinião de tecnocratas e nos anseios da sociedade, sem o qual tudo pode parar.

Quais são estes anseios da sociedade? Quem são os técnicos responsáveis pelo projeto? Quais as instituições ou entidades de classe que concordam com ele? Isto precisa ser esclarecido, pois este assunto foi abordado e discutido durante a campanha eleitoral, e agora vejo que tudo foi propositadamente feito de forma superficial, para que a população pouco entendesse do que estava sendo tratado.

Para quem ainda não entendeu as conseqüências deste projeto, é só refletir sobre os anseios de seu voto na ultima eleição. Se suas expectativas estavam relacionadas à diminuição da carga excessiva de impostos municipais, certamente ficará frustrado em saber que o projeto da Prefeitura, que revisa a planta genérica, irá aumentar significativamente o valor de seu IPTU. Uma proposta como esta deveria ser precedida de uma ampla reforma estrutural da Prefeitura, passando pelas modificações das ferramentas administrativas, enxugamento dos cargos comissionados, melhoria e refinamento dos gastos públicos e principalmente pela reforma no sistema gerencial. Sem isto, a proposta de revisão do IPTU não se fundamenta, e as justificativas viram sempre a velha retórica requentada pelos políticos de plantão, de que sem o imposto, não será possível atender as necessidades socioestruturais da cidade.

Felizmente a Câmara de Vereadores agiu de forma correta e coerente ao manter o projeto na tramitação regular, devido à complexidade do assunto e o impacto do mesmo na vida de todos os cidadãos. Ao meu ver, a Câmara deve cobrar ainda do Executivo um projeto mais cristalino, transparente, e que seja discutido de fato com a sociedade, assim como está sendo feito com o Plano Diretor, como forma de até mesmo vincular os prováveis aumentos do IPTU, com os projetos e anseios das comunidades em cada bairro.

Assim como o filho, na história que inicia este texto, certamente irá cobrar de seu pai o presente prometido, a sociedade bauruense saberá cobrar dos seus representantes os compromissos assumidos, mesmo que agora sejam apenas considerados como frases de efeito.

O autor, Clodoaldo Armando Gazzetta, é biólogo

Comentários

Comentários