Advertência: devo dizer logo de início, e que sobre isto não paire dúvida, que a comparação a seguir traçada tem um único e exclusivo objetivo: alertar para a possibilidade do “enforcamento público de um só” como forma de proteção aos demais. Não há, no paralelo traçado, a intenção de vincular a imagem, as conseqüências e as intenções dos inconfidentes aos responsáveis pela atual crise política que o país enfrenta. São situações distintas, mas paira o receio de que o desfecho venha a ser o mesmo... Em 1789, ganhou corpo um movimento cujo objetivo era libertar o Brasil do jugo português. Integrada por militares, escritores, poetas, magistrados e sacerdotes (muito embora não seja notório o nome de nenhum deles) e por um dentista, a Inconfidência Mineira não pôde ser ultimadas.
Em março de 1.789 o coronel Joaquim Silvério dos Reis traiu aos seus companheiros e denunciou o movimento ao governador. Como conseqüência, os inconfidentes foram presos e enviados para julgamento no Rio de Janeiro. Na ocasião, declarado líder do movimento pelos demais, Tiradentes foi condenado à morte. Foi enforcado, teve sua cabeça cortada e levada para Vila Rica; e seu corpo esquartejado e espalhado pelos caminhos de Minas Gerais.
Quanto aos demais integrantes do movimento, e quem dentre os não estudiosos da história que mencione um nome sequer, estes tiveram a condenação convertida em prisão e foram esquecidos pela história.Diversas obras, sendo precursora a de Joaquim Norberto de Souza Silva, publicada já em 1973 (História da Conjuração Mineira. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1.948) contestam a liderança de Tiradentes. Dentista, mestiço e dentre os mais humildes do movimento, é difícil imaginar que ele tivesse tanta ascendência sobre magistrados, sacerdotes e militares. O fato é que, líder ou não, Tiradentes foi considerado pelas autoridades responsáveis por seu julgamento, pelos meios de comunicação e pela própria sociedade com tal e, elevado à alçada de mártir, a ele foi imposta a mais impiedosa e infamante condenação. Seus companheiros, por sua vez, tiveram seus crimes convenientemente expiados pelo exemplo de Tiradentes.
Desde o início do presente ano, têm sido apuradas e levadas a público inúmeras articulações político-financeiras de licitude duvidosa, cujo objetivo principal era garantir ao governo a maioria necessária para aprovação de assuntos de maior relevância no Congresso. Exposto por denúncia do “traidor” Roberto Jefferson, o esquema do Mensalão teve sua existência constatada e já conta com a punição de um membro ilustre da atual base governista. Em votação presenciada por 495 dos 513 deputados, o ex-deputado José Dirceu (PT-SP) teve seu mandato cassado e seus direitos políticos suspensos até 2.015 por seus consortes à 0:01h do dia 1 de dezembro de 2.005.
Líder estudantil, deputado, presidente do Partido dos Trabalhadores, articulador da campanha eleitoral que levou à eleição do presidente Lula e ex-ministro chefe da Casa Civil José Dirceu foi ontem manchete nos principais jornais do país. Ao contrário do dentista, o ex-deputado tem currículo de líder. Sua influência no cenário político atual é evidente. Já sua responsabilidade pelo atual quadro de corrupção... Submetido a uma situação de “agonia, inferno e fuzilamento político”, nos dizeres do próprio José Dirceu, o ex-deputado teve sua execução convenientemente decretada antes que o escândalo alcançasse mais gabinetes na Câmara e no Senado e, por que não, o próprio Palácio do Planalto.
Torço para que estar errado, mas o destaque, a resistência teatral do ex-deputado e, sobretudo, a impassividade dos Poderes Executivo e Judiciário diante do escândalo levam a crer que mais uma vez o “esquartejamento” de um vai implicar na expiação dos demais. Estejamos atentos, por que de mineira essa inconfidência no Congresso não tem é nada!
O autor, Marcelo Specian Zabotini, é advogado, bacharelando em História e especialista em Direito Ambiental e Empresarial pela PUC-SP. E-mail: mzabotini@gmail.com