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Fristão! Fristão!


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Zé Dirceu foi atacado com golpes de bengala ao sair do plenário da Câmara, por um homem que mais tarde foi identificado como Yves Hublet, 67, escritor de livros infanto-juvenis. O deputado, agora cassado, tentou se proteger com as mãos enquanto Hublet continuava a desferir golpes. Transtornado, ele gritava “Fristão, Fristão”. Os jornalistas entenderam “Cristão” e foram perguntar ao agressor o porquê do uso de um adjetivo de significado tão humanista em tom ameaçador. “Eu disse Fris-tão. Leiam D. Quixote!”. Depois de uma corrida às enciclopédias e consultas aos especialistas em Cervantes, os coleguinhas levantaram que Fristão, personagem do livro recomendado, aparece no Capítulo VI na pele de um feiticeiro que, certa noite, em meio a uma nuvem, montado numa serpente, roubou os livros de D. Quixote, derrubou seu aposento e voou pelo telhado deixando a casa cheia de fumaça. Fristão foi um grande inimigo da esperança e dos sonhos de D. Quixote. Esse mago também transformou gigantes em moinhos, “para me privar da glória de vencê-los; mas no final das contas, hão de poder pouco seus maus ofícios contra a excelência da minha espada”. E dá-lhe bengalada.

As intervenções do “cavaleiro da triste figura” - como foi denominado o personagem de Cervantes – são sempre desastrosas como na investida aos moinhos de vento. Explicam os biógrafos que o autor quis mostrar que o mundo não é feito à medida do nosso ideal. Se nele há muita coisa errada, se está mesmo quase tudo errado, esses erros se articulam de tal forma numa ordem aparente, que pretender corrigi-los, ignorando esse mecanismo que os rege, é provocar a desordem e as mais perigosas reações. Quixote é considerado a personificação do desejo e, ao mesmo tempo, o reflexo de quão implacável pode ser o mundo para aqueles que sonham. Quixote é grandioso e patético. O impossível era a sua medida, porque só na utopia poderia ele encontrar a sua verdadeira dimensão.

O escritor Hublet, o homem da bengala que investiu contra o mago destruidor do “sonho impossível” de uma sociedade mais igualitária, foi enquadrado no crime de injúria seguido de agressão, que tem pena prevista de três meses a um ano de detenção mais multa.

Ao comemorar os 300 anos de D. Quixote, escrevia Rudolf Rocker em 1905: “vivemos num mundo da ciência positiva e nossos corações estão vazios e as almas murchas”. E também: “O caminho das estrelas foi esquecido; hoje o idealismo permanece tranqüilamente no solo e recolhe vermezinhos...” Cem anos se passaram e estas palavras nunca foram tão atuais. Dom Quixote, nobre cavaleiro da Mancha, amigo e protetor dos sofredores, amante da imortal Dulcinéia Del Toboso e dono do fiel Rocinante cobriria seu rosto com ambas as mãos para sua vergonha não ser notada ante tanto desamor à Pátria e tudo o que ela contém: território, povo, instituições, valores ancestrais, nossos heróis, mortos anônimos, folclore, língua, música, literatura... nossa identidade. A verdadeira riqueza de um povo, o orgulho nacional, aviltado por caixa dois, valerioduto, dólares na cueca e mensalões. “Que país é este?” Perguntou uma vez um político diante do elevador enguiçado do Congresso Nacional. Como se fosse a única coisa que não funciona no Brasil.

D. Quixote via gigantes enquanto Sancho só percebia moinhos de vento. É que a verdade absoluta não existe, já que aquilo que denominamos verdade está sempre determinado por nossas condições subjetivas, por nossa convicção interior. Somente por isso a esperança vence o medo embora corramos o risco de nos esborrachar de encontro à pá de um moinho. A vida é assim. Quem contempla o mundo com os mesmos olhos que os outros homens, jamais será D. Quixote. No entanto, devido precisamente ao fato de ter interpretado os fenômenos do mundo a sua maneira é que o seu nome virou imortal. Com mais de quatro séculos o Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha é o livro mais editado do mundo, perdendo apenas para a Bíblia.

Numa época em que se diz que o “sonho acabou”, pior é achar que transformou-se num pesadelo. Quem sabe, ao se comemorar os quinhentos anos de Quixote, alguém possa escrever como deseja o crítico Teotônio Simões: “o sonho voltou e com ele a aventura e a ventura humanas. E o sonho é belo, porque agora é real!” (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

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