Cultura

É tempo de festa?

Padre Beto *
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Os convidados chegavam animados para a festa e o anfitrião admirava-se cada vez mais com o número de pessoas que enchia o salão. Ao som da música ,alguns dançavam e outros se deliciavam com as bebidas e os salgadinhos. A animação era total e todos comentavam que a festa era um sucesso. O anfitrião, porém, tinha a nítida impressão que o número de pessoas na festa superava a quantidade de convites enviados. Mesmo assim, a festa tornava se cada vez mais animada, todas as pessoas sentiam-se satisfeitas com o coquetel e aguardavam o jantar que estava para ser servido. Tudo corria bem, quando o anfitrião, já com a “pulga atrás da orelha”, subiu ao palco e pegou o microfone. Os músicos pararam de tocar e o dono da festa tomou a palavra: “Queridos convidados, vamos organizar um pouco a nossa festa. Por favor, os convidados da noiva se locomovam para o lado direito do salão!” Depois de um burburinho, um enorme grupo de pessoas se colocou no lugar desejado pelo anfitrião. “Agora”, disse sorridente o dono da festa, “os convidados do noivo devem se posicionar do lado esquerdo do salão!” Novamente se ouviu um burburinho e um grande grupo se locomoveu para o lado esquerdo. No meio do salão, restaram poucas pessoas, todas elas expressando admiração pela situação formada. O anfitrião, então, continuou: “Bom, eu gostaria de pedir cordialmente aos convidados do noivo e da noiva que se retirassem, pois aqui é uma festa de batizado!”

Sendo um ser essencialmente social, o homem sempre possuiu a necessidade de partilhar com seus semelhantes suas alegrias ou tristezas. Desta tendência comunicativa com o outro surgiram as diversas formas de reunião social: festas, rituais, velórios, enterros... Naturalmente, dentre estas formas de encontro, as mais desejadas são aqueles originadas por uma situação feliz: o nascimento de uma pessoa, a união de um casal, a lembrança de algo bom. O ato de festejar, de alegrar-se mutuamente por algum motivo, não só faz parte da vida humana, mas também ajuda a fortalecer cada vez mais o sentido de comunidade. A este momento, no qual nos alegramos e festejamos com os outros, damos o nome de confraternização. O verbo, “con-fraternizar”, por si só transmite todo o seu significado: reunir-se com quem vivemos a fraternidade, ou melhor, unir-se por amizade íntima, fraterna. Porém, o óbvio nem sempre é percebido. Na verdade, a confraternização presume sempre um caminho anterior. Ninguém se confraterniza com pessoas com as quais não se tenha identidade, amizade ou relação íntima. Para existir a confraternização é necessária a vivência anterior de uma relação fraterna, de uma caminhada em comum união. A fraternidade se expressa na alegria mútua de comer e beber juntos. “O homem não é a criatura das circunstâncias; as circunstâncias é que são criaturas do homem” (Benjamin Disraeli).

O ato de confraternizar-se pertence, por exemplo, ao cotidiano do modelo de todos os cristãos: Jesus Cristo. O Cristo não ficava limitado ao âmbito do templo, da sinagoga, mas possuía uma vida social intensa e participava de momentos de confraternização mesmo com os discriminados de sua sociedade. Esta postura de vida dava coerência à sua mensagem: todos os homens e mulheres possuem a dignidade de filhos de Deus. Assim, o Cristo confraterniza-se com todos os seus contemporâneos em almoços, bodas ou ceias, institui a eucaristia em um jantar e compara o Reino do Céus a um grande banquete. Não é por menos que o Cristo foi criticado pelos religiosos de sua época como “comilão e beberrão”. A confraternização deve ser uma expressão agradável de que seres humanos se entendem como irmãos. “Devemos cultivar nossas qualidades, não nossas particularidades” (Goethe). Porém, um verdadeiro inimigo do ato de confraternizar-se não é a falta de festa, mas sim sua banalização. Quando um determinado costume torna-se preceito social, quase que uma norma obrigatória, seu cumprimento passa a ser mais importante que sua necessidade. A confraternização que ocorre nos finais de ano em empresas, casas comerciais, escolas, estabelecimentos públicos, etc transformou-se em moda. Ceia de natal, amigo secreto ou todo tipo de confraternização tornou-se praxe, quase uma obrigatoriedade em todos os lugares onde pessoas trabalham ou vivem juntas. Pior, confraternização passou a ser data de calendário, agendamento anual ou ordem do chefe. Sem dúvida alguma, não sou contra as festas de fim de ano, muito pelo contrário, mas acredito que é necessário refletir sobre o sentido da confraternização e se ela verdadeiramente expressa nossas relações humanas, caso contrário corremos o risco de sermos convidados do noivo em uma festa de batizado. “O mais importante da vida não é a situação em que estamos, mas a direção para a qual nos movemos” (Oliver Wendell Holmes).

* Especial para o JC

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