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Viúva ameaçada vira ‘bandeira’ no Pará

Alceu Luís Castilho*
| Tempo de leitura: 6 min

No dia 21 de novembro de 2000, Maria Joel dias da Costa viu o marido ser assassinado na porta da própria casa. O pistoleiro passou-se por uma pessoa que queria ser ajudada pelo sindicalista, defensor dos direitos dos trabalhadores rurais em Rondon do Pará (PA). Cinco anos depois, à frente do sindicato, ela é quem se vê ameaçada. Há dois meses, teve a casa apedrejada, mesmo com a proteção, há um ano, da Polícia Militar. Na semana do julgamento de dois acusados do assassinato da irmã Dorothy Stang, em Anapu (PA), ocorrido no dia 12 de fevereiro, o JC conversou com Maria Joel, ou Joelma, sobre os conflitos fundiários naquele Estado, onde quase 800 pessoas morreram desde 1980, a mando de fazendeiros.

Joelma já se tornou uma bandeira dos defensores de direitos humanos. Acompanha a Comissão Pastoral da Terra e ONGs como a Justiça Global em eventos em Brasília e até no Exterior - já esteve, por exemplo, em Dublin, na Irlanda. Esta semana, ela esteve na Capital, na sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), para o lançamento de livro sobre a violência na fronteira paraense.

Ela vive com um salário mínimo da pensão do marido e outro pago pela direção do sindicato. Tem 42 anos, quatro filhos e medo de não mais vê-los. Joelma revela um sentimento ambíguo em relação ao julgamento de Dorothy. Fica contente com a velocidade recorde, em relação a julgamentos de outros trabalhadores, mas pergunta: “Será porque ela era americana?”

Pergunta - Por que a senhora está ameaçada de morte?

Maria Joel Dias da Costa, a Joelma - Eu sou a viúva do José Dutra da Costa, o Dezinho, que era presidente do sindicato do qual eu sou hoje a presidente. Ele ficou ameaçado vários anos, fez várias denúncias ao poder público. E parece que nunca levaram a sério. Penso que achavam que não era verdade, porque nunca tomaram pé da situação. Não calei para o fato acontecido com meu esposo, tenho denunciado. Quero que não só o pistoleiro, como os mandantes e intermediários venham a pagar pelo crime cometido. Não só o do Dezinho, naquele município, mas outros trabalhadores foram assassinados pela luta da terra. Recentemente temos o caso do tesoureiro Ribamar Francisco dos Santos, que foi eleito comigo no ano passado no sindicato de Rondon do Pará.

Pergunta - Quantos foram assassinados em Rondon nos últimos anos?

Joelma - Temos uma média de sete a oito companheiros que foram assassinados por conta da luta da terra.

Pergunta - Seu marido foi morto numa emboscada?

Joelma - Fizeram várias, mas não conseguiram. Foi na frente da minha casa, da minha filha caçula, que tinha 11 anos na época, e na minha frente. O pistoleiro Wellington de Jesus foi à minha casa - hoje ele está preso, é o único que foi preso - simplesmente pedir ajuda para o Dezinho. Ele ajudava as pessoas menos favorecidas. Foi uma forma que eles conseguiram chegar à minha casa, entrar, sentar do meu lado, pedir ajuda para o meu esposo. Ele estava na casa do vizinho e eu mandei a minha filha caçula ir chamar. Não pensei que era o assassino do meu esposo, que em poucos minutos ia tirar a vida dele. Foi uma maneira monstruosa que usaram. Fingiu que era humilde, sendo um assassino.

Pergunta - O crime completou cinco anos no dia 21.

Joelma - Sim. Fizemos um ato em Rondon, pois passaram cinco anos e nada foi feito até agora. Não esquecemos e queremos que se faça Justiça. Eu vivo fazendo toda essa trajetória hoje no sindicato, continuando os trabalhos, principalmente na luta pela terra, e denunciando essas questões.

Pergunta - Quem ameaça a senhora?

Joelma - Justamente as mesmas pessoas que o ameaçavam: fazendeiros da região. Hoje temos áreas que estão ocupadas, o Incra é muito lento, não está cumprindo com sua função. Isso cria uma demanda, da luta dos trabalhadores para conseguir a terra. E a demora, tanto do governo estadual como federal, temos terras do Estado e da União. Os dois são muito lentos. Por mais que tenha conflitos naquela região do Pará, ainda não desenvolveram uma política de fato para a questão da reforma agrária.

Pergunta - Quem são exatamente esses fazendeiros?

Joelma - A morte do meu esposo se deu por um grupo de fazendeiros. O principal acusado de ser o mandante do crime, até que prove o contrário, é o que está nos autos, na denúncia do processo, é o senhor José Décio Barroso Nunes. (Não localizado pela reportagem.) Ele é o fazendeiro da região, madeireiro.

Pergunta - Como são feitas essas ameaças?

Joelma - Telefonemas, recados, bilhetes, da mesma forma que se dava com meu esposo. Pessoas me entregaram bilhetes, não assinados, anônimos: “Olha, te prepara que tu vai morrer”. Pessoas escutam roda de conversa de fazendeiros com pistoleiros, planejando a minha morte, (dizem) que eu sou uma viúva teimosa, fazendo a mesma coisa que o meu esposo fazia, lutar pela terra e denunciar.

Pergunta - Quantas vezes a senhora foi ameaçada?

Joelma - Olha, só numa semana que eu contei foram cinco telefonemas, dizendo assim: “O teu seguro de vida é no valor de R$ 50 mil.” Uma voz era masculina, outra de mulher, ou então se passava por mulher. A última vez tem mais ou menos 60 dias, minha casa foi apedrejada. Entendo como uma um recado: “Estamos aqui, te cuida”.

Pergunta - O que a polícia tem feito a respeito?

Joelma - Muito pouco. Primeiro, os mandantes estão soltos, convivendo na mesma cidade. Os intermediários estão foragidos. Por sorte meu próprio esposo, antes de falecer, segurou o pistoleiro, senão nem isso tínhamos. Antes dele morrer, mesmo com três tiros, travou uma luta com o pistoleiro, caiu numa vala. Gritei por socorro e seguraram o pistoleiro.

Pergunta - A senhora tem medo de morrer?

Joelma - Deus deu uma vida para cada ser humano. E queremos viver esta vida. Quem não tem medo? Eu já vi as ameaças e meu esposo foi morto. Tenho quatro filhos e espero em Deus que eu veja o crescimento, o desenvolvimento. Quero viver, e não morrer.

Pergunta - Depois do caso da irmã Dorothy houve algum tipo de recuo dos fazendeiros?

Joelma - Não diria que é recuo, porque eles sempre fazem isso mesmo. Tem período que eles atacam mais, tem momento que eles recuam. A forma que se deu naquele momento, da irmã Dorothy, teve uma equipe do Exército no meu município, em outras regiões, em Anapu, nos municípios mais conflituosos, então deram uma recuada.

*Correspondente do Jornal da Cidade em Brasília

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