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Obras ligam guerra ao cinema

Por Marcos Strecker | Folhapress
| Tempo de leitura: 2 min

“Se você mata por dinheiro, é um mercenário. Se mata por prazer, é um sádico. Se mata pelos dois, é um Boina Verde.” Os soldados no Vietnã se divertiam com piadas como essa. Junto deles ria Michael Herr, repórter que passeou por meses com a credencial da revista “Esquire”. Não escreveu quase nada. Mas, oito anos depois, produziu o melhor livro já escrito sobre o conflito.

Para Herr e para os anos 60, bem entendido, melhor livro não significa uma análise geopolítica. Para sorte dos leitores e do cinema, ele criou um grande relato autobiográfico que bebe na fonte do “new journalism” e mergulha nos “swinging sixties”, na cultura hippie e no rock. Quanto mais baixa a patente do soldado, mais Herr se sentia à vontade. Descreve o conflito da única maneira racional: como caos. Para ele, a guerra era literalmente “sexy”, uma experiência que deixaria saudades.

Em “Despachos do Front”, explora mitos criados pelo establishment, depois transformados pela cultura pop: as operações de busca e destruição (“search and destroy”), a estratégia de conquistar “corações e mentes” etc. As imagens foram bem aproveitadas por Francis Ford Coppola em “Apocalipse Now” (1979), o filme que criou um novo gênero do cinema americano. Está tudo no livro. O balé dos helicópteros, a pirotecnia ensandecida, a catástrofe transformada em espetáculo irresistível, o olhar perplexo e fascinado dos que caminhavam pelo “vale da morte”. Coppola procurou mimetizar o mergulho metafísico de Joseph Conrad no horror da colonização africana, mas o repertório de Herr (que também cita “O Coração das Trevas”, de Conrad) é mais amplo: Hemingway, Graham Greene, imagens bíblicas, a conquista do Oeste, os traumas da Guerra da Secessão e a memória do fracasso francês no mesmo Vietnã.

Se Herr criou um certo imaginário da guerra apropriado pelo cinema, outro livro faz o caminho inverso. “Guerra e Cinema”, ensaio do francês Paul Virilio agora reeditado, mostra como o cinema abasteceu a guerra desde o início do século 20 - conceitualmente e tecnologicamente. O livro foi escrito no longínquo ano de 1983, mas não perdeu sua atualidade.

Virilio faz um rico inventário do intercâmbio entre cinema e guerra, indo muito além de mostrar a indústria do cinema transformada em propaganda de guerra. Procura indicar como cinema e guerra são indústrias tecnológicas desenvolvidas para manipular a percepção. E como se alimentam mutuamente.

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