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Chuva é com o homem de capa amarela

Ieda Rodrigues
| Tempo de leitura: 12 min

Ele já representou o Brasil no arremesso de peso e disco em campeonatos nacionais e internacionais na década de 70 e chegou a dirigir a Federação Paulista de Atletismo. Foi professor e radialista, mas há 13 anos dedica-se exclusivamente à Defesa Civil de Bauru. Álvaro José de Brito, bauruense, 48 anos, formado em geografia, conhece cada ponto da cidade suscetível a alagamento e desmoronamento em dias de chuva forte.

Se há um incêndio, acidente de trânsito ou com produto perigoso, lá está ele para avaliar a situação, solicitar aos órgãos públicos as ações necessárias e encaminhar as pessoas envolvidas para locais onde possam ser atendidas. Na chegada de mais um período de chuvas, com a sua tradicional capa amarela, orienta: “A população tem de desenvolver percepção de segurança. Não pode sair de um local de nível alto de segurança para outro de baixo. E tem de contribuir não jogando lixo na rua, porque entope bueiro e a água não escoa”, frisa.

Nesta época, ele fica dia e noite em alerta - já chegou a passar quase 22 horas em ocorrências de socorro. Mas está otimista. Conhecedor da cidade, Brito avalia que pequenas obras, como as piscininhas feitas em alguns loteamentos, já estão contribuindo para reduzir as inundações em avenidas como a Nações Unidas. Porém, ressalta que Bauru precisa do ‘piscinão’ na região do Parque Vitória Régia para reter a água da chuva, conforme a Secretaria Municipal do Planejamento (Seplan) já projetou.

Brito, que fez o primeiro curso na Defesa Civil aos 16 anos, quando ainda era estudante secundarista numa época em que todo o Estado de São Paulo se mobilizou para atender vítimas de desmoronamentos no litoral norte, tem um sonho: instalar em Bauru uma central integrada de emergência da Defesa Civil, num espaço físico maior e com mais infra-estrutura, inclusive com telefone 199, semelhante ao do Corpo de Bombeiros e da Polícia Militar.

Por enquanto, ele é presidente da Coordenadoria Municipal de Defesa Civil, órgão ligado ao Gabinete do prefeito. Quando não está na rua, percorrendo regiões de risco ou alagadas, despacha de uma sala no terceiro andar do Palácio das Cerejeiras. Nesta entrevista, Brito conta sobre sua rotina, sua trajetória e fala sobre Bauru.

Jornal da Cidade - Conte como é a sua rotina nessa época de chuva, em que praticamente todo dia chove e tem dia que chove forte. Você acorda a que horas? Já começa a se inteirar das previsões meteorológicas... Como é o seu dia?

Álvaro José de Brito - Acordo por volta de 5h30 e procuro escutar algumas emissoras de rádio para saber o que está acontecendo em termos de previsão do tempo. Então eu já fico por dentro se houve alguma ocorrência no Estado ou até mesmo fora do Estado. Nos interessa as ocorrências no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná e se essas ocorrências estão, digamos, subindo em nossa região.

JC - Isso tudo na sua casa ainda...

Brito - Isso na minha casa ainda. Eu saio por volta de 7h e normalmente vou para algum lugar de risco, como Parque Jaraguá, Vila São Manuel, Vila Santa Filomena e Parque das Nações.

JC - O que você faz nestes locais?

Brito - Faço um corpo a corpo com o pessoal. Por volta de 8h30, 9h, chego na prefeitura. Aí eu subo ao 3.º andar, onde fica minha salinha, e pergunto se ‘tem algo para mim’. Geralmente tem processos, na sua maioria são pessoas solicitando terra, e que colocam no processo que tiveram problemas em função da chuva, então a gente seleciona esses processos para ir nos locais verificar o que está acontecendo. Também faço contato com o IPMet (Instituto de Pesquisas Meteorológicas) normalmente três vezes por dia em períodos normais. E neste período agora, é uma rotina constante, qualquer alteração no tempo eu estou entrando em contato com o IPMet. Neste período também intensifico as minhas idas ao IPMet para conversar com os pesquisadores... E a partir daí, nós temos na nossa viatura um rádio na freqüência do Corpo de Bombeiros, o que permite acompanhar as ocorrências que eles atendem. Pelo menos uma vez por semana também passamos no Corpo de Bombeiros, trocamos algumas idéias, discutimos alguns casos que eventualmente ocorreram.

JC - Você tem horário para sair, ou isso depende da situação?

Brito - Depende da situação. O fim do dia para nós é preocupante porque as chuvas se concentram neste período. Faço contato com o IPMet por volta das 18h e, não tendo nada, entre 18h30 e 19h vou embora, também o motorista (da viatura da Defesa Civil), que nesta altura do campeonato está há mais de dez horas aceso.

JC - Mas se houver alguma ocorrência de chuva forte você não tem horário para sair, não é?

Brito - Se houver alguma coisa nós não temos horário para voltar. A gente emenda o dia com a noite...

JC - Já ocorreu de você ficar até as 2h, 3h, 4h sem ter retornado para casa...

Brito - Já, já ocorreu, sem banho, sem janta... A gente costuma deixar um pacotinho de bolacha - doce de preferência - na maletinha para disfarçar a fome. Nós tivemos um dia de chuva que rodamos dentro de Bauru 570 quilômetros, praticamente 27 horas corridas. Por isso defendo a instalação de uma central de emergência para Defesa Civil, com local para repouso, com alguns beliches. Ás vezes tenho três horas para dormir e ainda perco tempo indo para casa. Na central teria chuveiro, beliche. Local para repousar e dormir um pouco.

JC - Você está falando dessa rotina pesada nesse período, mas você tem mulher, tem filho, como é a sua família?

Brito - Não tenho filho e felizmente a minha esposa é muito compreensiva... É, na verdade, a dedicação é 24 horas por dia, sem sábado, domingo e feriado. Terminou o expediente normal, você está de sobreaviso. A qualquer momento pode surgir uma situação em que você é obrigado a largar tudo o que está fazendo para atender a ocorrência.

JC - Você já atendeu as mais variadas ocorrências na Defesa Civil, de pessoas em situação de risco à quase morrendo... Como é a sua relação com essas pessoas posteriormente ou acaba no momento?

Brito - Há situações em que você nunca mais vê a pessoa atendida e outras em que encontro aquela pessoa em feiras, em mercado, em shopping... Nós já atendemos quase 52 mil pessoas ao longo desses 13 anos. É um universo muito grande.

JC - E elas vão conversar com você?

Brito - Vêm, vêm conversar. Contam que já melhoraram de vida, às vezes que já nasceu uma criança...

JC - De todas essas ocorrências que você atendeu, tem alguma que te marcou muito, que você sempre se lembra?

Brito - Tem, tem. Recentemente, aquele acidente com o caminhão de bóia-fria aqui na rodovia Bauru-Jaú. Foram 15 vítimas fatais no local, depois nós tivemos mais nove vítimas umas 24 horas após. A morte é difícil de você lidar. Tem ainda casos de pessoas desaparecidas na chuva – um é daquela enfermeira e outro de uma criança recém-nascida que desapareceu em 94. Isso causa uma impressão que nunca se esquece.

JC - São imagens que ficam na sua mente...

Brito - Eu presenciei um cachorrinho também morrendo afogado, um animal você já se sensibiliza, imagine um ser humano, então, realmente, isso fica na memória da gente e você não esquece. Qualquer vida que esteja morrendo numa condição adversa - cada ser vivo tem a sua finalidade na natureza. Realmente é uma coisa que impressiona. O acidente em si porque corta a vida muito drasticamente, diferente da pessoa que está doente. O longo período de doença possibilita também que a família vá se preparando ao que possa acontecer... Outro acidente que me marcou foi do Fokker, em que além de uma mulher com o filho, o piloto morreu de intoxicação pulmonar. Hoje nós conseguiríamos tirar o piloto do avião e salvá-lo. Uma ação que levou mais de 40 minutos teria levado um pouco mais de cinco minutos.

JC - Então houve uma evolução no aparelhamento para socorro de vítimas em acidentes?

Brito - Ah, houve, sem dúvida. Grandes investimentos foram feitos no Corpo de Bombeiros, como unidades de resgate, auto-escadas e equipamentos de corte que chegam a cortar chapas de aço em poucos minutos. Antes isso era cortado na serra.

JC - Estamos novamente no período de chuvas, com estragos pela cidade. Mas Bauru já sofreu mais, principalmente na década de 90. Já faz alguns anos que não temos mortes por causa das chuvas? Você acha que a cidade está melhor hoje do que já estivemos há cerca de cinco, dez anos? Está mais preparada para as chuvas. As obras feitas surtiram efeito?

Brito - Na verdade Bauru precisa ainda de grandes obras, os piscinões, que teremos que fazer. Mas algumas obras pontuais amenizaram esse processo, como as leis que trouxeram para os loteamentos as piscininhas. Nós temos vários loteamentos na cidade que hoje retêm a água que cai no local por meia hora, 40 minutos, para depois liberar no sistema público de galeria. Isso possibilita menos água correndo na rua. Normalmente, essa água era lançada na rua e ia cair numa galeria que, às vezes, não estava dimensionada para isso. Eu espero que isso chegue também aos loteamentos populares tipo Cohab, CDHU, pois é uma tendência.

JC - Então você considera que os piscinões são importantes para amenizar os problemas causados pela chuva na cidade?

Brito - Na verdade não há outra solução para as questões de enchentes. Por quê? O rio, normalmente, inunda onde ele sempre inundou, que é a várzea. Nós ocupamos a várzea do rio. O piscinão nada mais é do que uma várzea que nós estamos fazendo para ele novamente.

JC - Atualmente, qual é a estrutura da Defesa Civil de Bauru?

Brito - Nós temos 33 pessoas que trabalham com a gente. São funcionários de empresas e de alguns órgãos públicos que nos dão apoio técnico, operacional e de resposta.

JC - Mas cabe a você, Defesa Civil, fazer a ligação, solicitá-los à medida que for necessário?

Brito - Sim, e infelizmente nós temos só um celular para isso. Quando sair a central de emergência, a intenção é implantar o fone 199 que no Brasil inteiro é o código da Defesa Civil. As pessoas de qualquer aparelho público ou privado poderiam acessar o 199...

JC - E esse é o seu sonho, montar a central da Defesa Civil?

Brito - Montar a central e monitorar algumas áreas de risco por sistema de vídeo, como a avenida Nações Unidas... É possível e existem recursos para isso no Fundo Nacional de Segurança. A própria Defesa Civil do Estado pode incrementar isso. Por exemplo, nós temos uma capacidade aqui hoje para atender em torno de 200, 250 desabrigados. As pessoas podem perguntar: e se tiver 1.000 desabrigados? Bom, eu tenho 250 para atender em dois ginásios de esporte, porque eu tenho colchonete, cobertor, tenho lona plástica, os chuveiros podem ser instalados, eu monto as refeições. Eu posso atender as gestantes, os deficientes físicos, as pessoas idosas, e, o restante, eu aciono o governo do Estado, que vai levar um certo tempo para chegar aqui no município com a ajuda mas eu já tenho o primeiro atendimento.

JC - Brito, nestes 13 anos de Defesa Civil você teve problema de saúde por causa da profissão?

Brito - Eu tive uma micose no ouvido, que gastou um dinheiro violento na farmácia, que os médicos diagnosticaram que poderia ser da água contaminada. Tenho uma infecção pulmonar porque você está dormindo e meia hora depois está com água até o pescoço. Tenho que tomar as vacinas contra todas as formas de hepatite, que eu banco, contra tifo, contra tétano, febre amarela... Agora eu estou vendo alguma coisa contra leptospirose e pneumonia também.

JC - Qual é sua preparação física, porque você também tem que estar bem fisicamente para estar nesses lugares...

Brito - Eu estou um pouco fora de forma. Eu praticava esporte, mas estou com 22 quilos acima do peso normal. Eu faço caminhada no fim do dia, quando é possível, quando não é possível faço uma série de alongamentos abdominais em casa mesmo.

JC - Provavelmente já surgiram outras propostas de trabalho, mas você preferiu ficar...

Brito - Já. Inclusive, um amigo recentemente falou que eu tinha de trabalhar numa reflorestadora porque quando chovesse eu dormiria, mas meu sonho realmente é fazer uma Defesa Civil. Eu tenho também a intenção de montar núcleos comunitários de Defesa Civil. Tem um trabalho que a gente faz com jovens na faixa de 15 a 19 anos, que eles chamam de bombeirinhos, que são voluntários que têm bicicleta na região do Parque Jaraguá. Eles caminham lá, verificam bueiro entupido, é um posto que está com os fios, com árvores, lixo, o problema do lixo em Bauru é grave. Por mais que o município vá investir no combate à enchente, a população tem que se preparar também.

JC - E qual é a sua expectativa para essa temporada de chuva que chegou? Você acha que vamos ter os pontos tradicionais de alagamento?

Brito - A população tem que ficar atenta porque a cidade tem vários problemas estruturais. Normalmente, as pessoas costumam, caminhando ou dirigindo, ter uma ação mecânica em relação ao caminho que fazem, mas é importante que a percepção esteja mais aguçada nesse período de chuva. Às vezes uma caixa de papelão pode sinalizar um buraco. Um poste balançando, um fio balançando é sinal de perigo.

JC - E na hora da chuva, você sempre orienta as pessoas a ficar num lugar de segurança...

Brito - Quando você está em um local seguro e vai para outros locais, automaticamente seu nível de segurança muda ou para mais ou para menos. Então, a percepção de segurança ela tem de ser uma coisa individual do ser humano. Por exemplo: se você tem uma rua tomada de água, você não sabe se tem um bueiro que está estourado lá no meio, você não sabe se vai surgir um buraco grande. Às vezes, você acha que porque passou um carro, você vai passar também. Pode ser que o primeiro carro se livrou daquele buraco sem perceber também e você vai ser uma vítima fatal. Ao perceber um alagamento, é preferível dar uma volta ou esperar a chuva passar e a água escoar.

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