Dizia Octávio Paz, prêmio Nobel de Literatura, que a corrupção da língua corresponde também à corrupção de costumes e da própria nação. Observe que o intelectual mexicano tinha suas razões a partir do exemplo da palavra “denuncismo”, que se começou a usar no Brasil. Segundo os lexicógrafos, existe denunciação, mas denuncismo, nunca. Muito menos existe “mensalão” nos dicionários. Na prática, todos nós sabemos que existe, embora o Zé Dirceu diga que nada se comprovou contra ele e que sequer sabia da sua existência.
Ouvi o ex-ministro cassado “sem provas” alegar em sua defesa que jamais apresentou “qualquer proposta que não fosse republicana”. Li explicações do ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos sobre a atuação da Polícia Federal que chama a TV Globo antes de algemar figurões como “impessoal e republicana, sem perseguir nem proteger ninguém”. A palavra está mesmo em moda porque Tarso Genro também declarou que a política de cotas nas universidades não é populista: “ela é republicana, inclusiva e democrática”. Intrigado, você tenta descobrir nos dicionários qual é esse conceito tão amplo do adjetivo republicano. E se surpreende ao encontrar apenas definições como “relativo à república”, “partidário da república”, “referente a um partido republicano”.
Quando defendi meu doutorado em Sociologia, um dos ilustres professores da banca dizia e repetia, como se estivesse me xingando, que eu era um “republicano!” Deu vontade de perguntar: “e será que tem cura, doutor?” Encontrei explicações mais coerentes, tempos depois, em um livro de Teoria do Estado, onde o autor dizia que o republicano revela interesse pela coisa pública, pelo bem comum, sem preconceitos nem discriminações. Que alívio.
A expressão “campo majoritário” dada à turma do Dirceu, Delúbio, Silvinho e outros companheiros que dominaram o PT nos últimos dez anos vem da palavra russa “bolchevique” (grande, maior), em detrimento a “menchevique” (pequeno, menor). Quando a Revolução Russa de 1917 derrubou o império czarista, os bolcheviques sentavam-se à esquerda na assembléia. Seguiam o exemplo dos jacobinos exaltados da Revolução Francesa, opostos aos moderados girondinos. Daí surgiram “esquerda” e “direita” com conotações de progressista e conservador.
O “baixo clero”, que teve papel relevante na Europa feudal ao ajudar na vitória da Revolução Francesa, aqui no Brasil de hoje conduziu Severino Cavalcanti à presidência da Câmara dos Deputados. Na Idade Média o “alto clero” incluía bispos e cardeais e, o baixo clero, os padres e monges, mais próximos do povo. Incoerente com o que hoje serve para adjetivar o grupo de deputados inexpressivos facilmente cooptado para formar a “base aliada”.
Veja o que fizeram e o que são capazes de perpetrar contra a língua portuguesa, a primeira que praguejou contra a tempestade oceânica, mas também a primeira que traduziu a alma das imensas distâncias – a saudade.
Esse conceito é de João Ubaldo Ribeiro. Cervantes, há quatro séculos chamava o português de “graciosa lengua, dulce y agradable”. Mas há quem consiga torná-la áspera e ininteligível.O ministro Henrique Meirelles, do Banco Central, assegura que “os meios de pagamentos eletrônicos trouxeram uma volatilidade endógena aos agregados monetários”. A decisão do juiz federal no recente caso do Golpe do Avestruz começa assim: “No caso em disceptação, o discurso emergente do intróito do exórdio deixa entrever a existência do negócio entabulado entre o autor e réu”. Em outras palavras: de cara a gente percebe que esse negócio cheira mal.
Quando eu era menino brincava de desarticular as palavras para conversar em código com a turma. Anos depois, no ginásio, o professor disse que palavras invertidas eram “palíndromos”. É a palavra, número ou frases que se podem ler indiferentemente da esquerda para a direita e vice-versa, sempre com o mesmo sentido: osso, orava o avaro, 63736. Era uma aventura. No conto “Catarsa”, de Julio Cortazar, a palavra é “roma” que, lida ao contrário vira “amor”. A exemplo do menino daquela história deixei-me arrastar no embalo das palavras. Elas têm sua magia, mas são insuficientes para transformar o mundo, disse Sartre. De nada adianta escrever que Bauru precisa terminar viadutos se não consegue fazer uma mísera ponte no Mary Dota. Muito menos projetar metrô de superfície, mudar trilhos ferroviários e construir avenidas ao longo do leito da estrada de ferro abandonada se a Prefeitura nem tem como pagar o 13º dos funcionários.
No plano nacional venho tentando uma série de anagramas com o Brasil de hoje. Quem sabe, virando pelo avesso, a gente acha sentido no governo Lula. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)