Política

Mensalão usa alambique fantasma

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 3 min

Um alambique desativado desde o início do ano 2000 no sítio Santa Maria, bairro Barra Grande, na cidade de Coronel Macedo (SP), 210 quilômetros ao sul de Bauru, está na lista de empresas beneficiárias de recursos do esquema do mensalão, conforme relatório parcial da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) em andamento em Brasília (DF).

Listada como sacadora de R$ 300 mil das contas de Marcos Valério, com remessa, em seguida, para a corretora Guaranhuns - empresa supostamente intermediária para envio do dinheiro para o Partido Liberal (PL) - da Destilaria de Álcool e Aguardente da Barra Ltda não há mais nem vestígio das instalações, na cidade, município com pouco mais de 5.700 habitantes, no sul do Estado, próximo à divisa com o Paraná. O proprietário, Nelson Batagim, esdtá perplexo

O local que abrigava o engenho da modesta destilaria hoje é só pastagem, no sítio Santa Maria, às margens da estrada vicinal, distante cerca de 12 quilômetros do centro urbano da cidadezinha paulista que tem a maior parte de seus moradores trabalhando no campo, como bóias frias, sobretudo nas culturas locais de feijão ou de cana-de-açúcar.

Contudo, na Receita Federal a empresa está ativa, no papel, até 04/10/2003, embora não tenha comercializado mais cachaça a granel para o Sul do País desde bem antes. Contudo, em abril do mesmo ano em que “foi dada baixa nos seus documentos”, a destilaria registrada no cartório de imóveis de Taquarituba (SP), comarca de Coronel Macedo, serviu como sacadora dos R$ 300 mil.

O relatório parcial da CPMI ainda menciona documentos que demonstram que o dinheiro do alambique foi endereçado à corretora Guaranhuns, apontada no esquema em investigação em Brasília como intermediária do dinheiro pago ao PL, comandado até então pelo deputado Valdemar Costa Neto.

Cachaça evangélica

O que a CPMI ainda não conseguiu verificar é porque a destinação de recursos para o partido do deputado evangélico Valdemar Costa Neto foi realizada a partir de um alambique desativado. Valdemar alegou, na televisão, que o dinheiro foi investido na campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002, embora a operação tenha sido efetuada no ano seguinte.

Essas respostas, segundo a CPMI, virão vir de inquéritos individuais solicitados à Polícia Federal para esmiuçar as transações do esquema que ampliou a crise no governo petista. “A relação de pessoas apresentadas não conclui que todos participaram de operações ilegais, mas os colocam sob indício de terem participado a partir da análise contábil-financeira efetuada”, relata o deputado Osmar Serraglio, relator da CPMI dos Correios.

Conforme o relatório parcial do deputado Serraglio, o fato “requer a continuidade das investigações para que sejam identificadas as motivações desses depósitos e a responsabilização de cada um dos envolvidos por possíveis operações ilegais, caso se concretizem”.

A investigação na CPMI mostra que o esquema pode ter se valido de outras tantas operações inusitadas, como a que envolve o alambique de Coronel Macedo. A lista de saques e depósitos confirma o caminho dos recursos. “A análise dos gráficos e das planilhas leva ainda à conclusão de que os recursos obtidos nos bancos entravam nas empresas do senhor Marcos Valério de forma esparsa, enquanto a distribuição dos recursos era feita de forma sistemática e ao longo dos meses”, conclui o relator.

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