Tribuna do Leitor

UM MONUMENTO EM HOMENAGEM AO NADA


| Tempo de leitura: 5 min

Achei muito interessante o projeto de recuperação do pátio ferroviário de Bauru, com um novo centro, proposto pelo arquiteto Jurandyr Bueno Filho e publicado neste jornal há algumas semanas. Da mesma forma, o texto que escreveu recentemente, abordando o tema, que gerou uma certa polêmica, acirrando os ânimos daqueles que são contrários à idéia, pelos mais variados motivos, ou se sentiram ofendidos por certas observações feitas pelo arquiteto, idealizador do Parque Vitória Régia, até hoje, cartão-postal da cidade, além de tantas outras obras importantes. Não vou entrar no mérito da viabilidade de execução do projeto, pois isso cabe aos estudiosos da área. Considero importante manter a história da cidade em relevo, e os muitos quilômetros de trilhos que cortam a cidade, são próprios para isso, pois todos sabem que Bauru foi fundada em torno da estrada de ferro.

Todos sabem que Bauru, numa determinada época, foi importante por ser entroncamento rodo-ferroviário do Estado. Quero, apenas, refletir um pouco sobre o tão falado “viaduto” sobre o pátio ferroviário. Isto mesmo, “viaduto” com aspas. Creio que as aspas são pelo fato de não estar em funcionamento. Mais ainda, pelo fato de ainda não ter sido concluído, depois de anos do início da construção. Realmente, não temos um viaduto, mas escombros de uma obra inacabada, que, de uma maneira ou de outra, contribuiu para o aumento da dívida da cidade de Bauru, e que, hoje, ainda não tem função rodoviária nenhuma. Para isto, não há argumentos, por melhores que sejam, que justifiquem.

Sempre que passo pelas imediações, contemplo a construção mastodôntica do “viaduto” e penso como poderia ser utilizado, já que a conclusão parece ser improvável devido ao custo. E já que o arquiteto Jurandyr Bueno Filho, que foi chamado de “implosivo”, mas que, na verdade, é inventivo, realizou um belíssimo desenho de como seria o novo centro de Bauru, proponho que prepare um estudo sobre o “viaduto”, desconsiderando a finalidade original e pensando numa imensa instalação artística. Que tal? Estarei divagando? Creio que não. Divagar é começar uma obra como aquela e não dar continuidade. Mais ainda, é delirar. Alguma coisa precisa ser feita, e com urgência. E é melhor que o “viaduto” sirva como instalação artística, que como “viaduto de lamentações”, ou “viaduto de indignações”.

Imaginem como o “viaduto” seria se fosse pintado e cada bloco servisse como uma única Plataforma Cultural, onde, inclusive, poderia ser encenada uma peça teatral. Loucura? Não. Em São Paulo, há uma peça teatral que vem sendo encenada no rio Tietê, e, por isso mesmo, é assistida de dentro de um barco. O que poderia ser mais absurdo que isso? Somente a encenação de uma peça teatral num quase-viaduto, numa construção suspensa que liga o nada a lugar nenhum. O que poderia ser mais futurista que o nada sendo ligado a lugar nenhum? É abstrato. É quase arte, somente precisa de algumas adequações para ser arte por completo, e ninguém melhor que o arquiteto inventivo Jurandyr Bueno Filho para fazer isso.

Imaginem o que aconteceria se centenas, milhares de pessoas permanecessem à volta do “viaduto”, já caracterizado como Plataforma Cultural, e, gratuitamente, assistissem a uma encenação teatral! Certamente, seria a popularização da arte, no sentido pleno, e o município de Bauru seria notícia no Estado, no país, talvez no mundo, por se atrever a utilizar um lugar aparentemente nada lúdico para encenar uma peça teatral. E não pararia por aí, pois a Plataforma Cultural também serviria para a exposição ao ar livre de obras de diversos autores, que poderiam ser contempladas a distância, de vários pontos da cidade. À noite, holofotes iluminariam a Plataforma Cultural, de modo à beleza artística permanecer em conjunção com a beleza natural da noite.

A essa altura, a Plataforma Cultural estaria caracterizada de várias maneiras. Entre elas, com uma cabeça de elefante, ou mastodonte, ou dinossauro, ou baleia, ou qualquer outro animal gigante. Por que? A estrutura é própria para exageros dessa natureza. Também, poderia ser utilizada para práticas esportivas. Inclusão cultural e inclusão esportiva, juntas, no mesmo espaço aberto! Na Plataforma Cultural-Esportiva, poderiam ser realizadas diversas modalidades de esportes radicais, como alpinismo, rappel (será que a estrutura agüenta?), vôo livre - asa-delta e para pent. Neste caso, talvez a altura não seja adequada. Os entendidos deverão ser consultados a respeito.

Por fim, uma enorme placa, com a inscrição “monumento em homenagem ao nada”, deverá ser fixada em local visível, pois será o título da instalação artística, o coroamento da obra. E quando perguntarem: “Por que monumento em homenagem ao nada?”, ouvirão que o nada pode conter alguma coisa, ainda que somente o vazio. E, no caso, o nada pode ser tudo aquilo que for imaginado, tudo aquilo que a imaginação for capaz de liberar. Acima de tudo, é uma homenagem ao que não foi feito há vários anos, e, ao que parece, não é responsabilidade de ninguém. A cidade não é litorânea, nem é banhada pelo rio Tietê, mas contará com um atrativo especial, único, um “viaduto” que foi transformado em monumento. Turistas virão de várias partes.

Tirarão fotos em cima e embaixo, de vários ângulos, comprarão souvenirs nas lojas espalhadas em torno do monumento, movimentarão a economia local e pesquisarão como tudo foi iniciado, num centro preparado para isso. Outras cidades do Estado e do país, imitarão o monumento e aproveitarão construções sem finalidades, esquecidas pelo descaso e corroídas pelo tempo, para implantarem serviços diversos, mas o original, a obra prima, permanecerá aqui, imponente e útil. (Elson Teixeira Cardoso - escritor)

Comentários

Comentários