Um cômodo bastante pequeno com duas camas de solteiro, um fogão, uma cômoda e uma dispensa. Nesse ambiente apertado, a Janaina Aparecida Fernandes, 21 anos, vive com seus três filhos pequenos, um deles ainda engatinha. As madeiras recolhidas da rua, que formam as paredes do barraco, não conseguem impedir que a chuva adentre por causa dos diversos vãos que existem entre uma tábua e outra. A solução encontrada pela moradora foi estender um cobertor na parte interna da parede para evitar que a cama encharque. “Quando isso aqui alaga, a gente tem que ir para a casa do vizinho”, conta Janaina, que mora a poucos metros de distância do córrego que passa pelo Parque das Nações.
Ela teme a chegada das chuvas de verão, mas sabe que nada pode fazer diante da força da natureza. “Quando chove muito, o rio sobe o barranco e a água que entra em casa chega a bater na altura do joelho”, explica Janaina, que recebe um auxílio de R$ 80,00 mensais do governo federal por manter seus dois filhos mais velhos na escola. “Estou procurando emprego, mas está difícil encontrar”, reclama.
A dona de casa Aparecida de Fátima Vicente, 45 anos, também mora num barraco em situação de risco na rua Luís Ferrari, no Parque das Nações. A moradia é um pouco maior do que a da vizinha Janaina, mas as condições de infra estrutura são praticamente as mesmas. O telhado danificado é coberto por lonas que tentam impermeabilizar o teto. Os espaços entre as madeiras da parede são tapados com pedaços de madeira. Até o tabuleiro de uma mesa de jogo de botão foi utilizado para revestir os vãos. Do interior, é possível avistar os buracos por onde entram a água da chuva e os ventos. “Já perdi um tanquinho elétrico e uma geladeira”, relata Aparecida ao relembrar que teve seus eletrodomésticos danificados em chuvas anteriores. “Eu peço para Jesus Cristo me tirar deste lugar. Isso não é lugar de gente”, lamenta, sabendo que não tem para onde ir.
No Parque Jaraguá, as moradias também são humildes, e o risco parecido. O ajudante de serviços gerais Wanderley Martins Reis recorda as noites que passou acordado ao lado do pai escorando os móveis de sua casa em pedaços de pau para impedir que estragassem. “As águas que descem pela rua Benedito Leite de Brito entram pela frente da casa, enquanto que o rio que passa nos fundos do quintal vai enchendo. A gente fica praticamente ilhado aqui”, comenta a dificuldade.
Para tentar suavizar os danos provocados pela chuva, os moradores formam diques com sacos de areia e madeira na entrada das residências, mas nem sempre isso funciona. “Quando a chuva é muito forte ou intensa, não há o que segure”, diz.
Para a viúva aposentada Sebastiana Alarcão Sanches, 79 anos, o período chuvoso traz amargas lembranças. Moradora do Jaraguá há cerca de 30 anos, sua casa desabou duas vezes em conseqüência da força das águas. “Como não tenho para onde ir, a solução foi levantar a casa de novo”, comenta. Cansada e, sem forças nos braços e nas pernas, Sebastiana teme que o mês de janeiro seja muito chuvoso. “A casinha de ferramentas que fica no quintal está quase caindo no rio que passa nos fundos”, explica. A esperança da aposentada é que o filho consiga comprar um terreno em outro local e arrume um canto para que ela possa morar com segurança.