Cultura

Ubá fecha o ano com esperança

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 4 min

O cenário é um dos cartões-postais de Bauru, que, todos os meses, recebe um novo significado com a instalação de barraquinhas e a movimentação de pessoas e artistas. Trata-se da tradicional feira de artesanatos da cidade, a Ubá, que será realizada hoje no parque Vitória Régia, com o apoio da Secretaria Municipal de Cultura.

Assim como o nome de Bauru é indígena e significa “cesto de frutas ou flores”, a Ubá remete à mesma origem e possui uma base semelhante: uma planta herbácea utilizada pelos índios na confecção de balaios e cestos. “O nome da feira está estritamente ligado ao da cidade, porque quisemos mostrar a importância de uma a outra”, afirma Rosângela Beatriz Monge, artesã e tesoureira da Ubá.

Monge reaproveita madeiras e panos e os transforma em objetos de decoração e materiais pedagógicos. Além dela, expõem regularmente na feira 63 profissionais, entre artesãos, artistas plásticos e culinaristas. Na cidade, destacam-se os trabalhos em couro, crochê, biscuit, com reciclagem, móveis, esculturas e bijuterias.

Único meio de sobrevivência para a maioria dos artesãos da cidade, a feira, que completa quatro anos em 2005, tem sofrido uma queda na movimentação e na arrecadação financeira nos últimos dois anos. As razões vão desde a falta de verba da prefeitura até a escassez dos produtos expostos pelos profissionais. “Eu vivo da feira, mas ela tem decaído a cada ano, assim como o dinheiro que eu retirava, que caiu pela metade. Antigamente, a prefeitura organizava eventos no local, além de fornecer uma melhor infra-estrutura”, argumenta Maria Ferreira Frutuoso, que vende na feira o tradicional lanche bauru.

Para a culinarista, o fato da periodicidade da feira ter passado, por um período, de mensal para quinzenal foi decisivo para a queda na arrecadação. “Muitos artesãos não têm produtos para expor com essa freqüência e também são poucas as pessoas que podem gastar com artesanato a cada 15 dias. Ainda bem que voltou a ser mensal”, comemora Frutuoso, para quem o artesanato de Bauru e da região é de ótima qualidade. “Deveria haver um investimento maior na Ubá, porque a feira é uma vitrine da produção de toda a região”, ressalta.

Adesão

O conselho gestor da Ubá está aberto para a participação de artesãos de Bauru e região. Para isso, os interessados devem procurar a Secretaria Municipal de Cultura de Bauru, localizada na avenida Nações Unidas, 8-9, para se cadastrar na Superintendência do Trabalho Artesanal nas Comunidades (Sutaco). Após o processo de avaliação, é emitida uma carteirinha de registro válida em todo o Estado, que permite aos artesãos a regularização do trabalho por meio da emissão de nota fiscal e a participação em feiras de artesanato, como a Ubá.

A Sutaco é vinculada à Secretaria Estadual do Emprego e Relações do Trabalho. O órgão fornece uma espécie de identificação do profissional, cujo documento facilita sua atuação em feiras e na compra e venda de produtos. “Todos que expõem na Ubá são profissionais qualificados que passam por uma avaliação. Os culinaristas também precisam de prévia autorização fornecida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)”, explica Monge.

Novos rumos

A fim de retomar o sucesso inicial da feira, foi eleito, há três meses, um novo conselho gestor, composto por seis pessoas, sendo duas representantes do setor de artesanato, duas de artes plásticas e duas de culinária. Os membros ficam no cargo por dois anos.

Uma das prioridades do grupo é divulgar a feira, fechar parcerias privadas e atrair mais expositores. Desde o seu início, em 2001, a Ubá perdeu 87 artesãos. “A exemplo do que ocorre em cidades menores que Bauru, como Embu das Artes, queremos transformar a Ubá numa verdadeira feira cultural, onde as pessoas passeiam e adquirem conhecimentos sobre os costumes e folclores da cidade e do País”, informa o vice-presidente da Ubá, Guillermo Jaque Molina, que também expõe na feira esculturas em metais, cobre, alumínio e bronze. Alguns trabalhos do artista também podem ser conferidos no site www.gajendra.1br.net.

O chileno, que há dois anos reside em Bauru, vê com preocupação o cuidado dado aos artistas do município, mas crê no potencial da feira como forma de divulgar o trabalho dos artesãos. “A vivência artística é difícil em todo lugar do mundo e em Bauru não poderia ser diferente. Mas, se os artesãos se unirem e se houver um prestígio dos órgãos públicos e das instituições privadas, o artesanato da cidade pode se fortalecer e se transformar até mesmo em pólo turístico”, acredita Molina

O mesmo pensamento é compartilhado por Vilma Zumiani Navarro que desenvolve trabalhos em cerâmica e é integrante da Ubá desde o início da organização. “O nosso trabalho é coletivo. Ninguém é concorrente de ninguém. É preciso união da classe para que a gente se fortaleça”, afirma. A artesã ainda aponta como empecilho para o progresso da feira o baixo poder aquisitivo da maior parte da população da cidade. “Bauru é uma cidade rica de gente pobre”, brinca Navarro.

Serviço

Feira de artesanato “Ubá” hoje no parque Vitória Régia, das 9h às 18h A feira é realizada no segundo domingo de cada mês, com o apoio da Secretaria Municipal de Cultura. Mais informações: (14) 3235-1072 ou 3227-6391.

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