Tribuna do Leitor

TRADIÇÃO X MALDIÇÃO


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Bauru centenária acumula em todas as áreas experiências e, principalmente, pessoas ilustres que orgulham nossa cidade. São eles esportistas, artistas, empresários, cientistas, pessoas ligadas ao terceiro setor e até astronauta. Pessoas, enfim, que fazem com que Bauru possa se orgulhar de seus filhos, alguns nascidos aqui e outros adotados com muito carinho por esta terra. Esta semana, com saudade, pois tenho permanecido por razões profissionais pouco tempo na cidade, decidi saborear um sanduíche Bauru, e desta vez não fui ao Skinão, como sempre, e resolvi experimentar numa lanchonete próxima ao shoping, que também oferece o tradicional sanduíche. Lá chegando comecei a observar a arquitetura muito interessante e original e a decoração com o tema Bauru, com fotos de Pelé, Toninho Guerreiro, Mauro Rasi, e sua Pérola, Edson Celulari e muitos outros, além de CDs do Zimbo Trio e o livro de Lucius de Melo, que retrata a cafetina Eny, tudo isso compondo realmente um clima de uma Bauru que me fez viajar no tempo e também relembrar e me imaginar como um viajante de outra cidade chegando aqui e conhecendo nossas tradições como o sanduíche e todas aquelas figuras marcantes e que imagem esta pessoa ficaria de nossa cidade. Positiva, diria eu sem medo de errar, mas quando eu continuei nesta análise lembrei-me que faltavam pessoas muito ilustres como o sr. Molina, da Ájax; o patriarca João Coube (Tipografias e Livrarias Brasil, depois Tilibra), o time de basquete campeão brasileiro Tilibra-Copimax e ainda o Bevilacqua do vôo a vela, o ex-ministro Osires Silva, fundador da Embraer e muitos outros. Em compensação, vi pelo menos três fotos em várias situações da enigmática cafetina Eny, aquela que ensinava e preparava moças simples para fazerem “carreira” na prostituição. Pensei o que isto significaria hoje e, sem dúvida, não fiquei, como bauruense, nem um pouco orgulhoso do resultado. Esta senhora era precursora de um tipo de turismo sexual, com razão tão combatido em nossos tempos, tornou a cidade famosa pelo melhor bordel do Brasil, trazendo uma estigma que, sem dúvida, não é justa para nossa cidade nem a seus habitantes. Me lembro que quando dizia que era de Bauru, em viagem, muitos imediatamente me perguntavam pelo Bordel da Eny e que sempre brincando eu ainda dizia que era a cidade de Pelé e quando um mais atento dizia que Pelé é de Três Corações, eu imediatamente retrucava dizendo, que foi em Bauru que ele aprendeu a jogar bola. O que consegui ver por traz dos enigmáticos olhos da Eny, sem dúvida, não foi a felicidade dos vencedores que existe nos demais notáveis das fotos naquela parede, mas um olhar triste de alguém que bem provavelmente no fim de sua vida, teria talvez como melhor legado para os filhos de sua terra dizer: não sigam o caminho que trilhei. (Márcio M. Carvalho - RG 7.778.792)

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