Cultura

Obras de Miró chegam a São Paulo

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 3 min

Liberdade e paixão impressos num colorido intenso e harmônico. Quadros de criança? À primeira vista, essa é a sensação de quem passa pelos corredores da exposição “Mirabolante Miró”, que está em cartaz até o dia 6 de fevereiro no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo. A mostra chega à cidade depois de uma temporada de cinco meses em Porto Alegre, que recebeu a visita de mais de 190 mil pessoas.

Ao todo são 178 gravuras e 28 pôsteres das últimas duas décadas de vida do artista catalão que nasceu em 1893 e faleceu em 1983. Depois de ter passado com maestria por várias correntes artísticas, Miró criou um novo alfabeto, uma nova forma simbólica, abrindo espaço para a arte contemporânea. “Miró não ilustra literalmente. Ele cria uma linguagem simbólica que permite uma liberdade de interpretação. A sua linguagem é tão forte que extrapola fronteiras e tempo”, explica o consultor do projeto Leonel Kaz.

As gravuras, litografias e xilogravuras são do acervo da Galeria Lelong, de Paris, e mostram o espírito de um artista que sempre rompeu limites. As gravuras de Miró parecem feitas a mão. As formas arredondadas gravadas em metal ou madeira e o uso de cores vivas evidenciam a dificuldade desse tipo de trabalho e a capacidade ilimitada do artista. “A obra gráfica é tão ou mais importante do que a obra pictórica do artista. Ele usava diversas vezes a mesma prensa litográfica e fazia pequenas intervenções com cores. Suas obras são palavras e silêncio, por isso a predominância do branco em seus quadros”, afirma Kaz.

A exposição é inédita. Concebida pelo Santader Cultural, a mostra é o resultado de uma parceria entre os curadores Jean Frémon, da Galeria Lelong, e Fábio Magalhães. Além das obras, o público confere a exibição de um vídeo, com sete minutos de duração, editado por Marlise Greice Kieting e com roteiro de Leonel Kaz. “Foi um meio que encontramos de trazer o artista para dentro do espaço expositivo. Quisemos desmistificar Miró e trazê-lo para perto da gente”, informa a superintendente do Santander Cultural, Liliana Magalhães.

Poesia

Miró mantinha uma ligação muito forte com a literatura. Prova disso são as 100 gravuras da exposição que são interpretações do artista para textos poéticos de autores como Jacques Prévert, René Char e o brasileiro João Cabral de Mello Neto. “A letra era impressa em litografia ou em xilogravura e Miró fazia uma intervenção respeitando o texto. Há uma conexão entre a poesia e a criação artística”, informa Kaz.

Joan Miró estabeleceu, no fim da década de 40, uma relação de amizade com o poeta João Cabral de Mello Neto, na época cônsul do Brasil em Barcelona, e realizou seu primeiro livro em xilogravuras ao ilustrar a monografia que o poeta brasileiro escreveu sobre sua obra, hoje considerada uma raridade, de propriedade de George Kornis. “Miró teve muito trabalho para fazer essa ilustração, porque cada cor é impressa com matrizes diferentes. Além disso, a obra representa uma transgressão, porque é assinada em catalão, língua proibida na Espanha na época”, afirma Kornis.

Arte de rua

A linguagem de Miró possibilitou uma nova forma de expressão. O artista estabeleceu novos códigos que se comunicam atualmente com o desinger e com a arte de rua. “designer criou um alfabeto próprio, uma fonte, que abriu as portas para a arte contemporânea e para o grafite”, diz Kaz. O mesmo é compartilhado por Liliana Magalhães. “Todos os movimentos do street art recriam os símbolos feitos por Miró”, acredita.

Por isso, que um dos espaços da exposição é dedicado para a produção em poster do artista. Era um meio muito utilizado por Mirô para se comunicar com a sociedade. “Essa forma de expressão tem sido retomada nos dias atuais com as intervenções que muitos artistas têm feito nas ruas com adesivos e grafites”, afirma Magalhães. A superintendente lembra do fenômemo que aconteceu em Porto Alegre após a exposição. “Acordamos com 12 grandes grafites na cidade feitos por famosos artistas de rua”, lembra.

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