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Homossexuais querem respeito e Justiça

Cláudio Amaral*
| Tempo de leitura: 11 min

O maior líder do movimento homossexual do Brasil retornou ao Interior paulista na semana passada. Luiz Mott, 59 anos, estudou em Campinas e foi casado “com uma japonesa de Marília”, com quem teve duas filhas. Reside em Salvador, onde é professor de antropologia na Universidade da Bahia e criador do Grupo Gay da Bahia (GGB), a primeira organização não-governamental (ONG) de defesa dos direitos humanos dos homossexuais na América Latina.

Ele participou de uma banca examinadora na Universidade Estadual (Unesp) de Franca e, fora isso, se limitou a receber a reportagem no restaurante do Hotel Franca Inn, no fim da tarde de quarta-feira. Falou a respeito de tudo: dos pais, dos sete irmãos, dos estudos em tradicionais colégios católicos, do namoro e do casamento com uma ex-colega de faculdade. Detalhou também os dois relacionamentos que teve “com pessoas do mesmo sexo”, um por 18 anos e outro por sete, assim como do atual parceiro, “um rapaz” com quem vive há um ano e meio.

Pergunta - Desde quando o senhor é militante no movimento gay?

Luiz Mott - O movimento homossexual surgiu em 1977, com o jornal “Lampião”. Em 1978, foi criado em São Paulo o primeiro grupo gay, o Somos, que teve aproximadamente seis anos de duração. Em 1980, foi realizado o primeiro encontro nacional, que reuniu dez grupos atuantes pelo Brasil: o Grupo Gay da Bahia, que eu havia criado em Salvador, mais os de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Sorocaba.

Pergunta - Como é o movimento hoje, após quase 30 anos?

Mott - Existe uma associação brasileira de gays, lésbicas e travestis, fundada em 1995, e que reúne 150 grupos de Norte a Sul do Brasil: dez grupos de lésbicas, 15 de travestis e transexuais e o restante de gays. O Brasil ocupa uma posição de destaque no cenário internacional do movimento dos direitos humanos dos homossexuais por estar em São Paulo a maior parada gay do mundo. Em maio de 2005, o evento reuniu aproximadamente 2 milhões e 500 mil pessoas. Em seguida, vem a parada do Rio de Janeiro, com um milhão de pessoas.

Pergunta - Como é a vida dos gays no Brasil?

Mott - No Brasil, os gays, lésbicas e travestis têm uma visibilidade grande nas ruas e na mídia. Porém, o País se destaca também como campeão mundial de assassinatos de homossexuais. Não é o país mais homofóbico, mais intolerante do mundo, porque há países onde há pena de morte contra os homossexuais, como o Irã, o Iraque, o Sudão, ou onde os homossexuais são presos, como no Egito, na Turquia e outros, sobretudo de influência mulçumana, mas o Brasil é o País onde mais são assassinados homossexuais. A cada dois dias, um gay, lésbica ou travesti é barbaramente assassinado, vítima da homofobia, o racismo anti-homossexual. Nos últimos 20 anos, o GGB documentou 2.600 assassinatos, sobretudo em São Paulo, o Estado campeão, por ser o mais populoso do País, seguido de Pernambuco, Bahia e Rio Grande do Sul. São crimes de ódio, praticados com grande requinte de crueldade. As vítimas são pessoas de todas as classes sociais, incluindo professores, funcionários públicos, bancários, padres e homossexuais do povo, como cabeleireiros, travestis, etc. Os assassinos são, em sua maioria, jovens; apenas 10% são identificados e uma porcentagem menor, muito pequena, chega a julgamento, porque são crimes praticados à noite, em lugares ermos e poucas pessoas querem testemunhar, o que faz com que esses crimes hemofóbicos sejam uma verdadeira epidemia nacional.

Pergunta - O senhor diria que existe uma má vontade por parte da polícia e do Judiciário em investigar e julgar os autores desses crimes?

Mott - Para erradicar a homofobia no Brasil e tirar nosso País dessa constrangedora posição internacional como campeão de assassinatos de homossexuais são necessárias basicamente três medidas de impacto: 1.ª) a instituição de cursos de educação sexual em todos os níveis escolares, ensinando a verdade sobre o sexo, os direitos dos homossexuais, o respeito à diversidade sexual; o arco-íris é o símbolo do movimento homossexual porque representa a diversidade e nós queremos direitos iguais, nem menos, nem mais; 2.ª) a polícia deve ser mais rigorosa na investigação dos crimes e a Justiça mais severa na aplicação da lei; infelizmente, a polícia brasileira ainda está fortemente imbuída do machismo, vê o homossexual como suspeito de crime que não cometeu, já que a homossexualidade deixou de ser crime desde 1821, quando foi extinta a inquisição; portanto, os policiais têm de ser melhor capacitados; 3.ª) a homogeneização da Justiça no tratamento dos homossexuais, porque, enquanto no Rio Grande do Sul, particularmente, a Justiça tem sido moderna, concedendo a casais homossexuais o reconhecimento de sua situação de união estável, ou seja, os cartórios já podem registrar contratos de união entre homossexuais, e no Paraná e na Bahia, por exemplo, já reconheceram o direito a herança por parte de um sobrevivente de uma união sexual, no geral os juízes ainda são muito homofóbicos.

Pergunta - E a comunidade homossexual, o que tem a fazer?

Mott - A comunidade homossexual deve assumir sua condição e afirmar sua identidade enquanto gay, lésbica, travesti, protestando e denunciando qualquer tipo de discriminação, dando exemplo de cidadania, para que as pessoas vejam os homossexuais como seres humanos normais e não como marginais, delinqüentes e anormais.

Pergunta - Qual é a idade média em que a homossexualidade se manifesta, se é que isto existe?

Mott - A sociedade tem muita curiosidade em relação ao homossexual. Tem, de um lado, uma repulsa, mas por outro lado, uma atração. Uma das curiosidades é quanto à origem da homossexualidade. Existem mais de 70 teorias que tentam explicar por que uma pessoa é gay ou lésbica. Segundo o Relatório Kinsey, de 1948, e até hoje a mais importante pesquisa sobre a sexualidade humana, os seres humanos são aproximadamente 60% heterossexuais, 30% bissexuais e 10% homossexuais. Freud e outros psicólogos dizem que é por volta dos seis anos, à beira da idade da razão, que se define a orientação sexual do ser humano. Ainda mesmo antes do exercício do erotismo e da sexualidade, o menino ou a menina, começa a dirigir a sua curiosidade, a sua preferência sexual para o mesmo sexo, para o sexo oposto ou para os dois sexos.

Pergunta - O que é importante para o menino e a menina nessa idade?

Mott - É importante que eles sejam respeitados e que nas escolas de ensino primário e secundário os professores e funcionários saibam que ser homossexual é um direito humano fundamental dos jovens, que o Estatuto da Criança e do Adolescente determina que nenhuma criança ou adolescente pode ser discriminado devido à sua condição existencial, nem sofrer humilhação, nem constrangimento, que ele tem de ser respeitado e impedindo que esses jovens ou crianças homossexuais sejam vítimas de maus tratos, de humilhação, de insultos, como ocorre com freqüência nas famílias, nas igrejas, nas escolas etc.

Pergunta - O senhor costuma recomendar que o homossexual assuma-se?

Mott - Nas minhas muitas entrevistas, tenho sempre tocado nessa mesma tecla, porque é fundamental que quem é gay ou lésbica não tenha vergonha, porque o erro não está em ser homossexual. O erro está na discriminação e no preconceito. Quando o indivíduo se sente homossexual, ou seja, sente desejo pelo mesmo sexo, ele é reprimido pela família, humilhado e, muitas vezes, expulso de casa. Há casos documentados até de assassinatos por parte de pais e mães, que cumprem um ditado popular corrente no Brasil que diz: “Prefiro ter um filho ladrão do que homossexual ou uma filha morta ou prostituta do que lésbica”. Então, quando algum jovem se sente homossexual, ele tem de se informar, saber mais sobre a homossexualidade, não ter vergonha, lembrando-se que grandes personagens da humanidade tiveram esse mesmo tipo de amor: Miguel Ângelo, Leonardo Da Vinci, Santos Dumont, Elton John e pessoas que contribuíram para o bem-estar da humanidade.

Pergunta - Mas o senhor reconhece que isso não é fácil?

Mott - Felizmente, as coisas estão mudando. Já existem 72 municípios e quatro Estados do Brasil, inclusive São Paulo, onde a legislação proíbe qualquer tipo de discriminação contra homossexuais. Infelizmente, ainda não conseguimos incluir na Constituição Federal a proibição de discriminar por orientação sexual, mas há projetos no Congresso Nacional insistindo para que os gays sejam respeitados. Atualmente, mais e mais estudantes, professores e artistas, por exemplo, estão saindo da gaveta, abrindo a porta do armário e dizendo: â€œÉ legal ser homossexual”. Esse é um direito fundamental e as pessoas têm de aprender a conviver com a diferença porque a Constituição diz: “Todos são iguais perante a lei”.

Pergunta - Assim como entre os negros, existe preconceito no meio dos homossexuais?

Mott - Infelizmente, os homossexuais não formam uma comunidade homogênea, tanto no Brasil quanto no Exterior. Estão em todas as classes e religiões e têm todas as idades. Eu considero que dos mais de 17 milhões de homossexuais existentes no Brasil, 95% ainda estão sufocados dentro do armário. São portadores de uma doença chamada homofobia internalizada. É o que os psicanalistas identificam como homossexuais ego distônicos, ou seja, em que o ego está fora de sintonia com a respectiva realidade existencial. Então, como os homossexuais são muito heterogêneos e não foram socializados para se assumir e desenvolver laços de solidariedade com os iguais, infelizmente, muitas vezes os homossexuais são preconceituosos contra outros tipos de pessoas que exercitam uma sexualidade diferente da sua, ou seja, gays que não gostam de travestis, travestis que insultam gays, lésbicas que têm dificuldade de se relacionar com homossexuais masculinos.

Pergunta - O senhor sente discriminação, apesar de sua fama, posição e destaque na mídia?

Mott - A homofobia, a intolerância e o racismo anti-homossexual, infelizmente permeiam todos os extratos e camadas sociais. É chocante a experiência que eu passei mais de uma vez e observada em qualquer lugar do Brasil. Na rua, por exemplo, uma pessoa, por mais desclassificada que seja, quando vê um gay, seja um adulto, seja uma pessoa de condição superior, não tem o menor respeito. Ele se sente superior, a ponto de insultar e de eventualmente agredir, jogar uma pedra. Já passei por essa experiência. Eu fui discriminado quando entrei na Universidade Federal da Bahia, porque, apesar de ser a pessoa mais qualificada para ocupar o cargo de chefe de departamento, um velho professor perguntou, na minha ausência: “E veado pode ser chefe de departamento?”

Pergunta - O que o senhor diria para um jovem que descobre, solitariamente, que a preferência sexual dele é por uma pessoa do mesmo sexo?

Mott - O conselho é o mesmo que recebi de um escritor homossexual famoso, Jean Genet (Paris, 1910/1986): “Pra mim, a homossexualidade foi uma benção”. Eu digo: pra mim, a homossexualidade foi graça. Eu não me arrependo um dia sequer, depois de cinco anos casado, com duas filhas, quando percebi que estava errado na condução da minha vida, fingindo e tendo uma vida dupla, de ter tido a coragem de ser honesto com a minha ex-mulher, dizendo que precisávamos nos separar porque, vivendo uma vida falsa, eu iria desgraçar a vida dela e das minhas filhas. De modo que, para o jovem, o conselho que eu dou é que se informe mais sobre a homossexualidade, leia, pesquise na Internet, converse com gays ou lésbicas bem situados na sociedade, pessoas honestas, converse para saber as experiências deles, evite más companhias.

Pergunta - Por quanto tempo o senhor foi casado com sua ex-mulher?

Mott - Cinco anos. Eu nasci em uma família católica de classe média, no Sumaré, em São Paulo. Somos oito irmãos. Estudei no Liceu Coração de Jesus, depois com os dominicanos em Juiz de Fora e Belo Horizonte, onde fiz um ano de filosofia. Entrei na Faculdade de Filosofia da USP (Universidade de São Paulo), de São Paulo, centro do esquerdismo e do comunismo. Terminada a faculdade passei dois anos na França e depois em Portugal, onde tive muitas experiências homossexuais e algumas heterossexuais, mas, como não tinha nenhum modelo positivo de homossexualidade, porque nunca alguém me disse que poderia ser gay e uma pessoa de respeito ao mesmo tempo, achei que deveria me casar. Procurei superar essa tendência homossexual e me concentrar apenas no meu casamento. Mas, depois de cinco anos eu me desquitei e a partir daí tive relações com o mesmo sexo bastante estáveis: um caso de sete anos, outro de 18 anos, que terminei há pouco tempo, e há um ano e meio vivo com um outro rapaz, numa nova relação. Minhas filhas e eu mantemos um excelente relacionamento. Elas já estiveram na minha casa. Se orgulham da minha militância e o mesmo aconteceu com meus pais, já falecidos, que me respeitavam.

*Do Comércio da Franca, especial para o Jornal da Cidade

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