Rio de Janeiro - A compra de um apartamento na zona sul carioca pelo técnico da Seleção Brasileira de futebol, Carlos Alberto Parreira, é alvo de investigação por parte da PF (Polícia Federal) e da Receita Federal. A suspeita é a de que Parreira tenha usado na compra do imóvel dinheiro originário da offshore Gortin Corporation, que pertence aos empresários de futebol Reinaldo Pitta e Alexandre Martins, presos no Rio sob a acusação de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e sonegação fiscal.
Parreira nega que esteja envolvido em irregularidades. Por meio da assessoria de imprensa da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), ele anunciou que não falaria sobre o caso. Em outubro, Parreira foi intimado pela PF a depor.
No dia do depoimento, ele estava na Europa, a serviço da CBF. Uma advogada do treinador explicou a situação ao delegado Algacir Mikalowski, que ficou de marcar uma nova data para o depoimento. O delegado disse ontem que existe a possibilidade de o treinador da Seleção não ser mais intimado. Isso porque Pitta e Martins foram presos e a PF apreendeu com eles grande quantidade de documentos e disquetes.
“Agora é uma nova situação. Dentro dessa nova situação, vamos ver se será necessário chamá-lo”, disse o delegado. Há seis meses a PF vem investigando a ação de Pitta e Martins em negociações com jogadores de futebol.
O site da Gortin na internet revela que eles representam 41 atletas, entre eles o volante Vampeta (ex-Corinthians e ex-Seleção), que disputou Brasileiro pelo Brasiliense, e o meia Felipe (ex-seleção, ex-Vasco, ex-Flamengo e ex-Fluminense) _eles foram também os agentes do atacante Ronaldo, do Real Madrid. O delegado disse que todas as negociações estão sendo analisadas pela PF, como parte da chamada “Operação Firula”.
“Nenhum jogador tem até agora depoimento marcado. Primeiramente, vamos analisar o material apreendido. Basicamente, a PF procura saber como o dinheiro foi trazido ao Brasil e como foi declarado à Receita Federal”, afirmou Mikalowski.
No caso de Parreira, a PF foi alertada pela Receita sobre uma negociação entre ele e os empresários. O órgão teria constatado divergências entre o valor do imóvel declarado à Receita e a quantia enviada ao Brasil para o treinador por intermédio da offshore. Os valores do negócio não foram revelados pela PF. Essa não é a primeira vez que Parreira é citado como envolvido com os dois empresários.
Em 2001, a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Futebol no Senado descobriu que Pitta cedera R$ 60 mil ao treinador. Aos senadores, Pitta disse que emprestou a quantia a Parreira “por afinidade, vizinhança, intimidade e muito carinho”.
Em 2004, Pitta e Martins foram condenados a 11 anos de prisão por envolvimento no caso do propinoduto, em que fiscais da Secretaria da Fazenda do Estado do Rio mandavam para o exterior dinheiro desviado de empresas. Eles recorreram e aguardavam o julgamento da segunda instância em liberdade até serem presos novamente na semana passada.
Esquema
De acordo com as investigações da PF (Polícia Federal), o esquema supostamente organizado pelos empresários Alexandre Martins e Reinaldo Pitta remeteu ao Brasil de forma ilegal pelo menos US$ 24 milhões. A PF suspeita que jogadores agenciados pelos empresários tenham se utilizado do esquema para enviar ao Brasil os ganhos no exterior.
A PF informou que o esquema dos empresários usava um sistema de compensação internacional difícil de ser rastreado, o dólar-cabo. Os únicos vestígios das negociações do dólar-cabo ficariam nos computadores e documentos dos bancos.
Quando um jogador é vendido para um clube no exterior, os empresários recebem o valor da comissão no exterior por meio de uma empresa offshore. Em seguida, os empresários transferiam os recursos para a conta de doleiros, normalmente em paraísos fiscais. Os doleiros disponibilizavam simultaneamente, por meio de contas no Brasil, a quantia em reais, em nome de empresas de fachada.