Trabalhava eu no Banespa, nos idos de 1970, na pacata cidade de Santa Cruz do Rio Pardo, a mais ou menos 80 km de Bauru, em direção ao Estado do Paraná. Vivíamos em plena Ditadura. A região de Sta. Cruz era, na época, um grande pólo agrícola, com grande movimentação financeira na comercialização dos produtos tais como, arroz, milho, algodão, feijão, soja, tomate, melancia e outros. De certa feita, o Exército efetuou uma visita à região, informado, talvez, de que algum grupo rebelde por ali estivesse articulando alguma reação ao regime militar vigente. Dentre os inúmeros pequenos sitiantes da imensa zona rural da cidade estava o sr. Hideo Togashi, simpático representante do País do Sol Nascente, nosso cliente e amigo. Preocupado com sua safra, vivia alheio aos acontecimentos e mal falava o português. Sequer deu atenção aos comentários sobre a vinda de soldados para aquela região. Passou pelo banco, pediu para visar um cheque de bom valor, pois iria comprar uma nova bomba d‘água para o seu sítio. E assim o fez. De volta para a sua propriedade que ficava praticamente encostada na cidade, caminhava ele feliz da vida, com a caixa de papelão na cabeça. Dentro, a dita bomba (d‘água ). Ao chegar na porteira que dava entrada ao seu pequeno sítio, percebeu ele, um pouco assustado, a presença de muitos militares, todos portando fuzis e metralhadoras.
- Parado aí! Ponha essa caixa no chão bem devagar! - bradou o soldado .
- Sim senhôro! Sim senhôro!
- Que é que tem na caixa, ô japonês?
- Á- Á- Á- Á- gua, né! - responde sufocado e gaguejando, nosso pobre Hideo .
Uma vez aberta a caixa e constatado que era uma simples bomba d‘água, o soldado ironicamente repreende o oriental dizendo:
- Que é, tá maluco, ô japa? Como você fala que é água, se é uma bomba d‘água para o seu poço ?
- Descurpa Hideo, né! Mas se Hideo fala bomba, num chega nem falá água, né?!?
Contada por Fernando Lucilha Júnior