Tribuna do Leitor

Livros, sempre livros


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Aqui no trabalho conheci a Márcia. Ela gasta quase tudo que ganha em livros.

Voraz devoradora, não pára por aí. Além de ler muito, faz questão que seus livros não fiquem enfeitando sua estante. Na verdade, poucos estão com ela, pois a maioria está emprestado para quem os pedir. Diz ser essa a melhor função do livro. Ainda agora, a vejo emprestando um deles ao carteiro, que já está pegando gosto pela coisa. Eu fico maravilhado com essa sua abnegação, tirando do livro tudo o que ele pode nos oferecer. Mais maravilhado fico por ela fugir completamente desses nossos bobocas padrões, de que o que é nosso não pode ser emprestado.

Recebo pela internet um texto passado por outra amiga, a Rosa, de um tal Alexander Puschkine, onde algumas coisas me tocam: “Olho para as centenas de livros no meu gabinete e apercebo-me que não toquei na maior parte deles depois de os ter lido ou dado uma vista de olhos pela primeira vez. Mas nem sequer considero a hipótese de me desfazer deles. (...) A minha biblioteca é meu harém”. Esse é um tanto egoísta, pois possui muitos e não dá, não empresta e não vende. Possuo uma relação intensa com os livros, pensando exatamente como Roberto DaMatt, a quando diz: “Nos momentos críticos, o importante não foi o cigarro, o partido, o copo, o garfo, a turma, o carro, a praia, a bola, o dinheiro, o título, o escritório, mas o livro”. O livro nunca me cobra entrada e estão sempre à minha disposição. Viajo por tudo quanto é canto e lugar e quando estou mergulhado na leitura de um livro, isso me basta, não me sinto só. Não quero falar de minhas leituras, mas sei que sem elas eu não conseguiria viver.

Ainda agora, abro minha revista semanal e lá está a história do pedreiro Evaldo dos Santos, da Vila da Penha, subúrbio carioca, que transformou sua pequena e modesta casa numa biblioteca de 40 mil volumes, só para servir sua comunidade. Ele empresta sem qualquer burocracia ou desconfiança. O livro sai sem data combinada de devolução. Evaldo ganhou um projeto do Niemeyer e os cofres do BNDES vão aplicar R$ 650 mil, a fundo perdido, na construção de sua biblioteca. Feliz da vida, continua entregando livros para quem por eles se interessarem, fazendo questão de seguir à risca um conselho lido num livro de Tobias Barreto: “Eu sei que nada sei, mas uma coisa eu sei: só o livro é capaz de acabar com as desigualdades na terra. Sem ele, não se chega a lugar nenhum”.

Henrique Perazzi de Aquino - RG 9.710.205-2

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