Pelo menos seis pessoas serão beneficiadas com a segunda captação múltipla de órgãos - dois rins, fígado, duas córneas e veias - feita por equipes médicas no Hospital Estadual (HE) Arnaldo Prado Curvêllo ontem à tarde em Bauru. O hospital está credenciado desde setembro de 2004 para o procedimento. O doador é o lavrador Pedro Hidalgo, 40 anos, de Barra Bonita, que sofreu um acidente vascular cerebral (derrame) e teve parada cardiorrespiratória na noite de terça-feira.
Pela primeira vez, o diagnóstico de morte encefálica seguida da captação de órgãos foi feito por médicos do próprio HE. “Todos os procedimentos foram adotados pelo Hospital Estadual, desde a suspeita da morte encefálica do paciente. Isso mostra que as equipes estão ficando atentas aos potenciais doadores”, salienta a médica Amélia Teixeira Trindade, coordenadora regional da Organização de Procura de Órgãos (OPO), ligada à Secretaria de Estado da Saúde.
Na primeira captação de órgãos, em outubro do ano passado, o paciente, também vítima de derrame, já havia sido encaminhado ao HE com o diagnóstico. A retirada dos órgãos feita por equipes médicas de Bauru, Botucatu e São Paulo começou às 16h de ontem e durou aproximadamente sete horas. Primeiramente, o fígado foi retirado por equipe do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo, que transportou o órgão em avião da Força Aérea Brasileira (FAB).
Depois, os dois rins e veias foram retirados por duas equipes do HE e ficaram disponíveis para pacientes que integram a lista de espera da Secretaria de Estado da Saúde. Critérios como a compatibilidade e o tempo na fila são adotados pela Central de Notificações de Captação de Doação de Órgãos (CNCDO) de Ribeirão Preto para definir o destinatário, explica Trindade. Por último, as córneas foram retiradas por equipe médica de Botucatu e ficaram armazenadas em caixa de isopor com material adequado para preservação e foram transportadas para o Banco de Olhos do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (Unesp) de Botucatu pelo Policiamento Rodoviário.
Antes de ficar doente e ser internado em Bauru, o paciente já havia dito aos familiares que gostaria de doar seus órgãos. Segundo a assistente social e coordenadora do serviço de captação de órgãos do HE, Elaine Cristina Marchi, a manifestação da vontade de ser doador facilita a decisão da família. “As recusas que recebemos dos familiares acontecem em casos de pacientes que não disseram que queriam ser doadores. Somente a família pode autorizar a doação”, explica Marchi.
Com o trabalho de esclarecimento sobre a doação de órgãos, o número de notificações de morte encefálica aumentou ao longo dos últimos anos. Em 2003, a OPO registrou cinco notificações nos 80 municípios de abrangência, incluindo Bauru. Em 2004, as notificações subiram para 17. Neste ano, já foram notificadas 26 mortes encefálicas que representam possíveis doadores de órgãos.
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Procedimento
A morte cerebral é constatada pela equipe médica através de dois exames clínicos e outro complementar - no caso do doador de Barra Bonita, internado no Hospital Estadual (HE), o processo teve início às 16h10 de anteontem e terminou às 22h25.
Logo depois, a Organização de Procura de Órgãos (OPO) foi notificada. O órgão aciona a Central de Notificação de Captação de Órgãos (CNCDO), em Ribeirão Preto. Com acesso à lista da Secretaria Estadual de Saúde de pessoas que aguardam transplante, a central descobre se existe receptor compatível para o órgão. Em caso positivo, as equipes responsáveis pela captação são acionadas para buscar os órgãos e levá-los diretamente aos centros cirúrgicos ou bancos receptores.