Rio - O adolescente de 16 anos preso anteontem suspeito de participar do seqüestro de moradores de Vigário Geral (zona norte) acusa policiais militares de terem participado da ação. Ontem subiu para oito o número de desaparecidos.
O seqüestro, na madrugada de anteontem, teria sido comandado por traficantes de drogas na favela rival, Parada de Lucas. Onze jovens, entre 13 e 27 anos, foram levados por cerca de 20 homens, supostamente traficantes, vestidos com fardas da Polícia Militar (PM). Três conseguiram convencer os criminosos de que não eram traficantes e foram liberados.
Em depoimentos separados feitos às policias Civil e Militar e ao Ministério Público Estadual, o adolescente afirmou que os traficantes de Parada de Lucas têm conivência dos policiais militares que trabalham no Destacamento de Policiamento Ostensivo (DPO) do local. Ele afirmou em depoimento que era o responsável por apontar quem deveria ou não ser seqüestrado. À PM, ele contou que esteve “dentro do blindado juntamente com o traficante Furica, estando todos fardados”.
Segundo o depoimento, ele se contradiz adiante ao relatar que os policiais militares e os traficantes entraram em Vigário Geral a pé. Jorge Willians Oliveira Bento, 27 anos, o Furica, é o chefe do tráfico em Parada de Lucas. Ele já foi preso em 1999 e em 2003 e tem um mandado de prisão expedido pela Justiça.
Moradores de Vigário Geral confirmam a suspeita de que policiais militares participaram da ação criminosa. Duas horas antes do seqüestro, a PM fez operação e aprendeu armas e droga. À promotora Alexandra Ceres, o jovem afirmou que os rapazes foram seqüestrados para dar informações sobre o tráfico de drogas em Vigário. As vítimas teria sido torturadas dentro da casa onde o adolescente foi preso.
“Eles bateram com cadeiras, puseram fuzil na boca deles, torturaram mesmo. O tempo todo em que depôs, o garoto foi sarcástico e debochado. Vai responder por tráfico, tortura e seqüestro”, disse.
A promotora disse ainda que, segundo o garoto, os seqüestrados teriam sido libertados depois da intervenção de um pastor de Parada de Lucas, que teria sabido da ação criminosa. No entanto, ninguém ainda apareceu.
A polícia, por determinação do Secretário de Segurança Pública, Marcelo Itagiba, montou uma força-tarefa para encontrar os jovens e apurar a procedência das fardas apreendidas na casa onde foi preso o adolescente. A polícia não tem indícios de que os desaparecidos sejam traficantes.
A Polícia Militar informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que mesmo tendo sido “contraditório” o depoimento do adolescente, instaurou inquérito para apurar a possível ligação de PMs com traficantes. O caso foi encaminhado à corregedoria da corporação.