Nacional

Lula reclama de ‘saraivada de críticas’

Por Eduardo Scolese e Luciana Constantino | Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Brasília - Visivelmente abatido durante discurso a integrantes das Forças Armadas que classificou de “conversa amiga e de coração”, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem que o governo está sendo vítima de “infâmias” e enfrentando uma “saraivada de críticas” nos últimos meses. “Nesses seis meses [de crise], estamos enfrentando uma saraivada de críticas, de acusações e de infâmias, e nós discutimos sempre que o papel nosso não é dizer se quem está acusando está errado ou está certo, mas nós achamos que tudo que for levantado, de acusação, que seja apurado.”

A declaração do presidente ocorreu um dia depois de ter aparecido, em pesquisas Datafolha e Ibope, atrás do prefeito paulistano, José Serra (PSDB), nas intenções de voto da disputa do primeiro turno das eleições presidenciais do ano que vem.

Ontem, voltou a deixar no ar sua candidatura à reeleição. Disse aos militares que ações do governo devem ser “a curto prazo” pois seu mandato termina em 31 de dezembro de 2006. Lula participou ontem de almoço com oficiais generais das Forças Armadas no Clube da Aeronáutica.

Ao iniciar sua fala, deixou de lado o texto preparado por sua assessoria e afirmou aos militares que teria ali com eles uma conversa “amiga” e de “coração”, e não da “razão”. O presidente, que chegou a Brasília de madrugada depois de visita à Colômbia, estava visivelmente abatido. Falava baixo e até se esqueceu de retirar os óculos quando passou a falar de improviso aos presentes. Antes de falar, ouviu palavras do comandante da Aeronáutica, brigadeiro Luiz Carlos Bueno, que, de forma sutil, lembrou o presidente das restrições orçamentárias de Marinha, Exército e Aeronáutica.

Na fala de ontem, o presidente disse que nunca interferiu na crise, apesar de ter trabalhado nos bastidores para barrar a instalação da CPI dos Correios, em meados deste ano, e ser contra a convocação extraordinária do Congresso em janeiro e no início de fevereiro. “Se alguns imaginaram que o presidente da República iria tomar atitudes que pudessem cercear qualquer investigação, para se fazerem de vítimas, não haverá vítima por falta de investigação”, afirmou.

Lula aproveitou o discurso de ontem para defender José Alencar de reportagem do último final de semana da revista “Veja” que, com o título “Um vice cara-de-pau”, indicou favorecimento do vice-presidente, crítico ferrenho da política monetária, por ter recebido, por meio de sua empresa, empréstimos do governo federal com juros favorecidos. “É importante que a gente tenha clareza das coisas que acontecem no país para que a gente não misture tudo num único balaio e depois colha, como resultado, coisas negativas para o nosso país. Quero aproveitar, José (Alencar), para dizer que eu fiquei indignado. Quando a ofensa é pessoal, elas ofendem menos, muito menos do que quando ofendem um companheiro”, afirmou o presidente, que, um dia antes, havia sido criticado indiretamente por Alencar sobre sua responsabilidade nos resultados negativos do Produto Interno Bruto no 3º trimestre do ano.

Numa fala de quase meia hora, o presidente reservou os minutos finais para falar justamente sobre o que interessava aos presentes - reestruturação das Forças Armadas. E foi neste momento que voltou a sugerir que sua passagem pelo Palácio do Planalto termina no final do ano que vem. “Temos que tomar uma decisão, num curto prazo, eu digo ‘curto prazo’ porque o meu mandato termina no dia 31 de dezembro, de que é preciso priorizar a recuperação das Forças Armadas brasileiras”, declarou.

Papai Noel

Em meio a uma agenda que incluiu ministros, almoço com militares e encontro com o bispo Luiz Flávio Cappio, que fez greve de fome contra a transposição do rio São Francisco, o presidente assistiu ontem à tarde a uma apresentação da "Serenata de Natal" da Universidade de Brasília (UnB), no Palácio do Planalto.

Ao lado do estudante Paulo Santos Ramos, ganhador da medalha de ouro na 1ª Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas, Lula ouviu duas músicas natalinas e depois pegou no colo a menina Julia, 6 anos, que estava junto ao coral.

O presidente se aproximou do grupo acompanhado do estudante e brincou com Ramos, afirmando que ele “virou campeão”. “Ele é inteligente e disse que já quer se inscrever [na olimpíada] outra vez”, disse Lula se referindo ao aluno, que tem deficiência visual, auditiva e se locomove em cadeira de rodas. Lula também brincou com a menina e disse que ela era a mais animada do coral.

Usando gorro de Papai Noel, o presidente posou para fotos em meio aos integrantes do grupo. Ao deixar o local e ouvir pedido dos jornalistas para que deixasse uma mensagem de Natal, passou rápido e respondeu: “O Natal está longe”.

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