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Entrevista da semana: Bauru pode ser certificadora do INMetro

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 8 min

O empresário José Luiz Miranda Simonelli, conhecido como Zeca, assumiu em outubro a diretoria do Departamento de Ações Regionais (Depar) em Bauru, órgão vinculado à Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Com a cabeça sempre repleta de idéias empreendedoras e uma disposição invejável de trabalhar a favor do desenvolvimento da indústria, ele anuncia uma série de projetos a serem implementados ainda em 2006.

O mais ambicioso de todos é a criação do Núcleo de Acumuladores Elétricos - ligado ao setor de baterias, que tem forte atuação na indústria local. De acordo com Simonelli, será um laboratório de ensaios para a certificação de produtos credenciado pelo Instituto Nacional de Metrologia (INMetro).

“Se conseguirmos (implantar) rapidamente, seremos o primeiro ou o segundo laboratório do Brasil credenciado pelo INMetro para certificar produtos do setor elétrico. O núcleo de Bauru poderá certificar produtos de empresas de todo País, e até de fora. Vamos fazer isso porque o Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) tem que oferecer soluções tecnológicas, e não apenas formar mão-de-obra”, projeta.

Na opinião do empresário, proprietário de uma fábrica de baterias para motocicletas e equipamentos eletrônicos, a presença da Fiesp e do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) em Bauru não resultará em divisão, e sim em fortalecimento para os empresários do ramo. Atualmente, o Depar já está presente nas 41 cidades que possuem regionais do Ciesp no Estado. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Jornal da Cidade - A criação do Depar foi motivada pelo racha nas presidências da Fiesp e do Ciesp?

José Luiz Miranda Simonelli - O Depar surgiu, sim, em função do racha entre Ciesp e Fiesp. Mas na verdade, as pessoas precisam entender que as instituições sempre foram distintas. A Fiesp é uma entidade de caráter legal, ou seja, é uma federação de sindicatos. Ela tem poderes para negociar convenções coletivas e coisas do tipo. Algumas ações são exclusivas da Fiesp, sendo que outras são mais voltadas para o próprio Ciesp. O Ciesp é uma instituição de associação voluntária e a Fiesp é mantida por recursos de contribuição compulsória, além de uma parte da receita do Sesi e do Senai que é usada para administrar essas duas entidades. O Ciesp sempre foi muito participativo - hoje ele está presente em 41 cidades do Estado - e a Fiesp não tinha essa penetração, pois essa penetração junto aos industriais do Interior era feita através do Ciesp.

JC - Então, com o racha a Fiesp sentiu necessidade de se aproximar mais dos empresários do Interior do Estado?

Simonelli - Exatamente. Esse foi o motivo da criação do Depar. Paralelamente a isso, foram criados os conselhos regionais do Sesi e do Senai. O diretor titular anterior do Depar em Bauru, Antônio Augusto - que deixou o cargo para se dedicar mais à sua empresa -, já havia convidado vários empresários para formar esses conselhos e várias reuniões já foram feitas. Estão comigo na diretoria do Depar os empresários Claudemir Misquiati e Henrique Patrício, que já eram os (diretores) adjuntos do Antônio Augusto. A indicação do meu nome (ao Paulo Skaf, presidente da Fiesp) foi feita pelos três, e eu fui aceito. A minha nomeação foi feita no dia 21 de outubro e a gestão é de dois anos.

JC - Mas essa divisão pode inviabilizar a realização de ações do Depar em parceria com o Ciesp?

Simonelli - Pelo contrário. Para se ter uma idéia, eu continuo sendo vice-presidente do Ciesp em São Paulo. Vamos procurar conversar com todas as instituições da cidade e da região, com prefeituras, com o Ciesp, com associações comerciais, associação dos engenheiros, SindusCon (Sindicato da Indústria da Construção Civil), com todo mundo. Projetos que puderem ser desenvolvidos em parceria, vamos fazer parceria. Não há nenhum objetivo de competição, pelo contrário, queremos a união pelo bem do segmento.

JC - Estando à frente do Depar, quais são as primeiras ações que você pretende implementar?

Simonelli - Em 2006, nós pretendemos voltar as ações para o segmento industrial, inicialmente. Eu digo isso porque, no Ciesp, a gente fez muitas ações para a comunidade como um todo. Hoje, em função da nossa estrutura ainda ser pequena, vamos primeiro estruturar o Depar de forma mais ampla em Bauru. Vamos convidar pessoas a participar das nossas reuniões, discutir conosco alguns assuntos. Vamos procurar saber quais são as necessidades dos industriais para encaminhar isso da melhor forma possível. Os trabalhos sociais nós vamos encaminhar para que sejam feitos sempre em parceria com o Sesi e o Senai.

JC - Pelo fato da estrutura ainda ser pequena, como será o trabalho do órgão em 2006?

Simonelli - Inicialmente nós vamos utilizar a estrutura já existente em São Paulo, com uma série de departamentos, como jurídico, do meio ambiente, de economia, tecnologia e por aí vai. O que tivermos de demanda que possamos levar a esses departamentos para obter respostas positivas para a cidade, nós vamos levar. Uma coisa que queremos já começar o ano fazendo é ajudar a indústria a melhorar os seus resultados. O que está mais próximo e pretendemos fazer já é a qualificação da indústria. Hoje o Senai qualifica a mão-de-obra operária. Nós queremos, rapidamente, implantar a qualificação de outra esfera da mão-de-obra, que são os funcionários administrativos. Então, vamos fazer uma pesquisa nas empresas para saber que modelo de formação podemos dar, como por exemplo, formando técnicos em comércio exterior, dando cursos de formação de preços para exportação, sobre contratação de logística, contrato comercial no Exterior, controle de produção, entre vários outros focos.

JC - Mas em 2006 já serão implantados alguns projetos?

Simonelli - De imediato, vamos contar com a estrutura do Sesi e do Senai para dar cursos de diversos temas. Temos três projetos que, com certeza, estarão implantados até o final de 2006. Um deles é o Núcleo de Treinamento da Construção Civil, porque hoje só há uma escola em São Paulo que forma mão-de-obra para o setor, sendo que a maioria dos profissionais aprende na prática. Bauru sempre teve uma construção civil muito forte, então, precisa de mão-de-obra qualificada. O Skaf quer que a gente inaugure até agosto, mas eu não sei se dá tempo. Mas com certeza, será inaugurado ainda em 2006.

JC - E quais são os outros dois projetos?

Simonelli - O segundo é o núcleo de formação de mão-de-obra para o setor de alimentação, em parceira com o Sindicato da Panificação. Bauru tem um universo grande de empresas de alimentação, é forte neste setor. A gente precisa parar de falar das lendas. A arrecadação de ICMS (Imposto dobre Circulação de Mercadorias e Serviços) do setor alimentício em Bauru não pára de crescer. O setor de baterias também é fortíssimo, por isso, também vamos formar um Núcleo de Acumuladores Elétricos. Será um laboratório de ensaios para a certificação de produtos.

JC - Isso é novidade no Estado?

Simonelli - Se conseguirmos rapidamente, seremos o primeiro ou o segundo laboratório do Brasil credenciado pelo INMetro (Instituto Nacional de Metrologia) para certificar produtos do setor elétrico. Existe um único laboratório em fase de certificação em Curitiba (PR), mas não tem somente essa finalidade. Há um laboratório em Campinas que certifica apenas pela Anatel, não é um certificador autorizado pelo INMetro. Dentro dos organismos mundiais de certificação, o INMetro é o organismo credenciado a credenciar laboratórios para que também sejam certificadores. O núcleo de Bauru poderá certificar produtos de empresas de todo País, e até de fora. Vamos fazer isso porque o Senai tem que oferecer soluções tecnológicas, e não apenas formar mão-de-obra.

JC - Que avaliação você faz da economia e seus reflexos à indústria neste ano?

Simonelli - Para mim, particularmente, não foi um ano ruim. Mas no geral, 2005 foi um ano ruim, na minha avaliação. Eu acho que a contenção da inflação é excelente, mas não tem nenhum mérito se os métodos utilizados têm efeitos colaterais graves. Eu digo isso porque a inflação tem sido contida com taxa de juros elevada, esmagando as pessoas físicas e jurídicas que precisam de crédito. Isso acaba represando o capital de giro disponível e encarecendo o dinheiro num momento em que o mundo passa por uma competição absurdamente violenta. É nocivo controlar a inflação com esse nível de taxa de juros e repressão de crédito. Faltam recursos para setores como construção civil e infra-estrutura.

JC - Diante de tudo isso, quais são as suas perspectivas para a economia em 2006?

Simonelli - Eu não tenho boas expectativas para a economia. Talvez algo mude até em função das últimas pesquisas de avaliação sobre o governo e por ser ano eleitoral. Mas não vai adiantar só oferecer crédito mais barato para recuperar o aquecimento da economia. E é importante falar sobre a recuperação do aquecimento da economia brasileira porque não são todas as empresas, industriais principalmente, que participam desse clube seleto das empresas que exportam. Uma empresa industrial, se tiver pelo menos 30% do seu faturamento voltado à exportação, conseguia passar ao longo da crise. Agora não consegue mais, porque o dólar despencou. A margem de retorno para as empresas exportadoras está péssima, tanto que elas diminuíram muito as exportações. Além disso, também aconteceram coisas que foram infelicidades, como a crise da aftosa, que diminuiu muito a exportação de carnes, e temos a China atrapalhando fortemente as exportações brasileiras.

JC - Na sua opinião, a última queda da Selic pode ser um indicativo de que outras quedas sucessivas virão? Em que patamar você acha que a taxa pode estar em setembro do próximo ano?

Simonelli - Depois que ela começou a cair, a queda mensal tem sido de meio ponto percentual. Seguindo a lógica, na média pode ser que chegue em setembro em 12,5%. Obviamente é bem melhor do que 18%, que é altíssimo, mas não é o que a gente precisa.

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